![]() |
![]() |
|
||||||||||||||||||||||||||||
O
princípio do urbanismo na Argentina. Parte 1 – O aporte francês |
|
|||||||||||||||||||||||||||
|
Ramón Gutiérrez é arquiteto argentino. Professor de História da Arquitectura. Consultor da UNESCO para temas de Patrimônio na América Latina. Pesquisador do Conselho de Pesquisas Científicas da Argentina. Autor de numerosos livros sobre arquitetura iberoamericana. Diretor do Centro de Documentação de Arquitetura Latinoamericana (CEDODAL) em Buenos Aires. Tradução de Ivana Barossi Garcia. |
||||||||||||||||||||||||||||
| (leia a versão em espanhol) | ||||||||||||||||||||||||||||
![]() |
||||||||||||||||||||||||||||
| Projeto de bairro jardim e Parque Nacional em Carrasco, Uruguai | ||||||||||||||||||||||||||||
A presença do urbanismo e do paisagismo francês na Argentina data sem dúvida das últimas décadas do século XIX em tempos em que argentinos como Felipe Senillosa (h) imprimiam em Paris seus projetos de expropriação para fazer avenidas diagonais em Buenos Aires (1). Nessa mesma época se editavam os primeiros tratados de urbanismo como a “Teoria da urbanização” de Ildefonso Cerdá (1867) e o de Baumeister (1876) que junto com as obras de Joseph Stubben (1890) e Raymond Unwin (1909) definiram o princípio desta nova disciplina urbanística (2). Com a preparação do Plano de Melhoras que o município de Buenos Aires organiza entre 1894 e 1898, se encerra uma etapa onde os técnicos locais, ou estrangeiros com muitos anos de residência no país, impulsionam um planejamento urbanístico (3). A radicação na Argentina de paisagistas franceses da reputação de Charles Thays (1849-1934), que impulsionaria a rede de parques e praças e o prestígio de Paris como cidade “modelo”, marcariam uma linha persistente (4). As esporádicas visitas de Joseph Bouvard, outrora Diretor Geral da Exposição de Paris de 1900, convocado para os planos urbanos em Buenos Aires e Rosário teriam de consolidar esta faceta no campo urbanístico (5). Também foi muito importante em toda América Latina a participação dos urbanistas franceses na realização de planos para novas cidades ou para o acondicionamento de antigos assentamentos (6). Um caso demonstrativo foi o concurso para “A Nova Guayaquil” no Equador (1906) onde triunfou um projeto francês de uma cidade que nascia já com história, pois seu traçado lembrava ao das velhas cidades, segundo ponderava o jurado (7). Seguindo as tendências da pedagogia academicista da École des Beaux Arts, onde se formara a maioria destes arquitetos urbanistas, prevaleciam as idéias da “arte urbana” e o “caráter” que deviam assumir as cidades segundo sua categoria administrativa, o que determinava a projeção de suas avenidas e diagonais e a grandeza da edificação pública como impusera em Paris o Barão Haussmann (1809-1891) (8). O “Plano” adquiria a capacidade científica de por um lado representar a realidade existente e por outro de poder atuar sobre essa realidade corrigindo seus defeitos através dos conceitos higienistas, funcionalistas e de “arte urbana”. No entanto é preciso apontar o impacto que desde a última década do século XIX havia causado a obra do austríaco Camilo Sitte “Derstadtebau” (1889), traduzida ao francês em 1902 e que, margeando as idéias do classicismo racionalista, esboçava através de seus estudos histórico-urbanos um certo “irracionalismo pangermanista que ressuscitava os valores emocionais do orgânico e do pitoresco” (9). Nesta perspectiva, Sitte negava a quadrícula como expressão de sociedades desprovidas de densidade histórica. No entanto, como apontam os Collins, Sitte (1843-1903) ocupava um espaço central na recente profissão de urbanista, ainda que os planejadores alemães estivessem mais preocupados com as reformas administrativas municipais que com as cidades como obras de arte como sucedia com os franceses (10). O próprio Le Corbusier em seu manuscrito de 1910 sobre “La construction des villes” se apropria de idéias de Sitte, que depois criticará em sua primeira edição de “Urbanisme” (1925). Bardet com precisão assinalaria que o aporte de Sitte tinha resultado numa boa análise do passado, mas que não podia conduzir razoavelmente a projetos de futuro. Como bem delimitava Leonardo Benévolo “O debate cultural da segunda metade do século XIX e dos primeiros decênios do XX segue centrado nos temas que se puseram em evidência no confronto internacional: o choque com a tradição passada, o equilíbrio entre esfera pública e privada e, finalmente, a continuidade do papel aristotélico da cidade como instrumento para conseguir a perfeição da existência humana no mundo industrializado” (11). Antecedentes na França. Da École des Beaux Arts à Societé Francaise des Urbanistes A École des Beaux Arts foi fundada originalmente como Escola Real em 1819 e sua seção de Arquitetura provinha da antiga Academia Real (1671-1793) abolida pela Revolução Francesa. Entre 1795 e 1799 funcionou como Escola Especial de Arquitetura, depois como Escola Imperial com Napoleão (1807-1814), título que retomou em 1852 e que em 1870 teria de se modificar pelo de Escola Nacional Superior de Belas Artes. Os melhores alunos da Escola obtinham os Grand Prix de Rome que os habilitava a concorrer à Academia de França em Roma e por tanto se vincular estreitamente com o mundo clássico. Os setores da arquitetura mais próximos à construção que às artes estudavam enquanto isso na École des Travaux Publics que fora fundada em 1794 (12). A influência da École des Beaux Arts foi enorme desde fins do século XIX na arquitetura do mundo ocidental, particularmente nos Estados Unidos e alguns países da América Latina, onde seus graduados dirigiram e orientaram o ensino de arquitetura a partir de suas premissas pedagógicas. Seus textos básicos (Guadet, Barberot, Cloquet, Gromort, Gutton) marcados pela evolução do academicismo classicista ao ecletismo impuseram um repertório formal que transformou a paisagem urbana de muitas cidades (13). Em 1911 tinha-se formado em Paris a Societé Francaise des Urbanistes (SFU), da qual faziam parte entre outros os arquitetos Alfred Agache, Marcel Auburtin (1872-1926) (14), André Berard, León Jaussely (1875-1932), Henri Prost (1874-1959) e os paisagistas Jean Nicolas Forestier (1861-1930) e Edouard Redont (1862-1942) (15). O papel destes técnicos foi decisivo na preparação da primeira lei urbanística sobre “l´Aménagement, l´embellissement et l´extension des villes” que fora sancionada em 1919 e reformada parcialmente em 1924 (Lei Cornudet). Estas legislações propunham a obrigatoriedade aos municípios de mais de 10.000 habitantes de possuir um Plano Regulador. As idéias deste urbanismo do século XIX francês se sustentavam nos três pilares do funcionalismo público, o higienismo positivista e as idéias da estética urbana que consolidavam a beleza arquitetônica e paisagística. Na fase funcional se incluíam – em relação direta com os preceitos higienistas – os temas vinculados ao abastecimento de águas e eliminação de resíduos. A isto se dava tanta importância, devido às epidemias, que não deve nos surpreender que a princípio do século XX tivessem urbanistas que tomassem este aspecto como central em suas propostas de planos urbanos (16). As inovações sobre a circulação de veículos e tráfico e mesmo os projetos utópicos de cidades reguladas por vias de comunicação elevadas foram impulsionadas precocemente por Eugene Hénard (1849-1923), animador das primeiras tertúlias e congressos de urbanismo. Em 1910 em Londres, Hénard propunha um novo imaginário para “A cidade do futuro” que nos remitiria aos esboços futuristas de Sant Elía desprendendo-se das normativas de composição acadêmica (17). Também no aspecto funcional começa a se esboçar o tema do “zoning” que o racionalismo tomará como idéia base do urbanismo do CIAM, mas que nesta fase não descarta a possibilidade de separar as áreas industriais e os núcleos residenciais das zonas comerciais ou administrativas. Devemos recordar que os grupos modernos do CIAM acusariam de reacionários justamente os postulados das “composições” urbanas dos academicistas e suas estritas normas de simetria (18). O mesmo sucederia com os esquemas de “cidade jardim” que costumavam aparecer nas zonas de transição entre os núcleos fabris e residenciais. Segundo eles, a aceitação das premissas higienistas da ventilação e oxigenação levava a prever áreas verdes de quase 22% da superfície urbana (segundo o projeto de Agache para Canberra) o que em poucos casos se conseguiria já que Paris tinha somente 4%, Berlim 10% e Londres 15%. Junto a estas zonas verdes, adquiriam crescente importância os espaços públicos destinados a atividades lúdicas e esportivas. Seguindo as tradições da ilustração do século XVIII e em concordância com as preceptivas higienistas, os equipamentos vinculados à saúde, asilos e cemitérios eram localizados na periferia urbana. Configuradas as áreas, articuladas pelas vias de comunicação, o projeto recorria a modelos geométricos que não eludiam a quadrícula, mas optavam por núcleos poligonais, ovais ou êxedras com vias radiais que possibilitavam encurtar distâncias (19). É interessante ver que estes urbanistas franceses, como o caso de Jaussely quando visita Buenos Aires, rejeitam a quadricula hispânica como símbolo de um traçado anacrônico, não meramente pela estreiteza das ruas, mas também pela repetição paisagística (20). O mesmo fará Ildefondo Cerdá em sua intervenção em Barcelona com o “Plano de entroncamentos”, que desvirtua a trama da ampliação da cidade para lhe dar um “caráter nobre e monumental”(21). Bouvard, Agache, Jaussely, Lambert, Rotival e Forestier foram alguns dos propulsores desta presença ativa dos urbanistas franceses nos países da periferia européia e americana (22). Assim Bouvard realizará projetos para Istambul, São Paulo ou Buenos Aires (1910), Agache para Canberra (1911), Chicago, Dunkerke (1912), Istambul (1933) ou Curitiba (1941), Lambert nos Estados Unidos (1922-29), Turquia (1933), Chile (1929), México (1931), Venezuela (1937), Rotival na Venezuela (1939) e Madagascar (1952) e Forestier para Havana (1925), Buenos Aires (1924), Sevilha (1929) ou Barcelona (23). Alguns destes profissionais integraram em 1914 a Societé Francaise des Architectes Urbanistes que seria presidida por Eugéne Hénard com Alfred Agache de secretário, e que buscaria justamente vincular sua atuação com as de grupos similares de outros países e organizar Congressos reuniões para difundir e aperfeiçoar a disciplina. Depois dos duros anos da primeira guerra mundial, a Associação conduzida por León Jaussely (24), sempre com Agache como secretario, realizaria uma importante atividade que incluía as propostas de “Reconstrução de cidades devastadas”. Muitos destes mesmos profissionais participavam desde 1916 do núcleo “Renaissance des Cités” que contribuía com a renovação das cidades danificadas (25). Se na primeira fase da SFU se deu especial ênfase nos aspectos de melhoria urbana e de embelezamento das cidades dentro dos conceitos do que se conheceria como “a estética edilícia”, os efeitos de “monumentalização” exerceram um papel decisivo na gestação do imaginário deste urbanismo academicista (26). A definição dos “lugares” hierarquizados por suas funções ou a presença dos monumentos administrativos, religiosos ou cívicos determinava definitivamente a ratificação da categoria e caráter da cidade. Não por isso se postergaram os aspectos funcionais e higienistas e em 1923 a SFU organizou em Estrasburgo o Congresso Internacional de Urbanismo e Higiene Municipal onde se integraram às propostas urbanas não somente os arquitetos, mas também os engenheiros, os paisagistas e os advogados que começaram a ter uma singular importância na formulação de propostas legais e jurídicas. Em coincidência com o pensamento arquitetônico da École des Beaux Arts se via a cidade como um objeto capaz de ser abordado em termos de uma composição, de um plano de ensamblagem em seu desenho, que permitiria segundo Agache, modelar a cidade e, ao mesmo tempo, induzir seu desenvolvimento. Para eles o urbanismo era uma ciência que lhes permitia entender seu passado e formação e ao mesmo tempo reconhecer seus acertos e erros, uma arte onde a intuição e a composição permitiriam superar e propor um futuro urbano melhor, e finalmente uma filosofia com sentido social que asseguraria a conformação de uma sociedade equilibrada contida num conjunto urbano harmonioso determinado pelo Plano (27). Na realidade esta forma de hierarquizar os planos urbanos procedia da visão que vinham aplicando os agrimensores desde o século XIX, com ênfases num formalismo de sentido geométrico, com predominância de simetrias, diagonais cruzadas ou ruas radiais que definiam as formas urbanas e suas articulações. Uma segunda fase do pensamento urbano francês na SFU, a partir de 1930, pode se vincular a sua ação pedagógica de caráter massivo com a apresentação dos “Salons” de Urbanismo integrado às Seções de Beaux Arts e às Exposições dos grandes planos urbanos para remodelar cidades. Entre eles cabe recordar os projetos de Henri Prost para Rabat (1923-1933) com a integração do antigo centro histórico e o grande projeto de renovação urbana e social de Agache para o Rio de Janeiro (1927-1930), que teve a desgraça de ser apresentado exatamente no mesmo dia em que um golpe de estado derrubava o governo (28). Foi também inovadora a Exposição do mexicano Mujica Díaz de Bonilla sobre os arranha-céus, apresentada e editada em Paris (1925) onde o favorável comentário de Pierre Lavedan estimularia suas propostas neo-maias para Nova York (29). Ernesto Estrada pôde percorrer o V Salão de Urbanistes que se apresentou no Grand Palais em 1936. O movimento da “Cidade Jardim” Junto a esta presença muito forte da vertente francesa devemos também contabilizar os movimentos que, originados entorno às idéias de William Morris e Ebenezer Howard, se desenvolveram na Inglaterra nas últimas décadas do século XIX com outros conceitos urbanos e sociais (30). Howard foi o criador da “Garden City Association” em 1899 que teve convergência com grupos similares. Assim, o movimento “City Beautiful” criado por ocasião da Exposição Colombina de Chicago em 1893, seguindo as tradições do ideário de Jefferson, predominava nos Estados Unidos e incorporaria depois as idéias evolutivas do escocês Patrick Geddes e, ao mesmo tempo, confluiria com as antigas propostas dos grupos “Arts and Crafts” (31). Na realidade aqui se gera também a convergência dos movimentos ruralistas de Le Play, do neo-medievalismo de Camilo Sitte com suas facetas arquitetônicas britânicas procedentes de Pugin e Ruskin, entre outros. No entanto, o movimento original estava muito amparado em propostas de reabilitação social e de qualidade urbana, por isso se expandiu rapidamente na Europa, e no Congresso de Casas Baratas de Lieja (1905) foi apresentado como uma alternativa ao problema da habitação social. Na Espanha foi promovido por Cipriano Montoliú desde Barcelona, criador da Sociedade Cívica A Cidade Jardim em 1913 (32). Montoliú dava ênfase nos aspectos sociais do cooperativismo, na gestão urbana e na descentralização industrial. Em 1917 o Engenheiro Municipal José María de Lasarte traduzia e editava um trabalho de Nelson Lewis apresentado no Congresso Universal de São Francisco de 1915 sobre as cidades norte-americanas (33) e Arturo Soria e Mata (1844-1920) desenvolvia suas propostas de “A cidade linear” (34). Tratava-se definitivamente de um conjunto de vertentes de pensamento e organizações cuja coincidência se centrava mais no diagnóstico da realidade urbana que nas propostas de soluções para seus problemas (35). A conformação da Associação Internacional de Cidades Jardim e Planejamento urbano foi conseqüência destes movimentos que culminariam com os Congressos de Dusseldorf (1915), Bruxelas (1919) e Gottemburgo em 1923. O impacto destas idéias na reconstrução de Bruxelas foi muito importante (36). Também o seriam os aportes à conservação do patrimônio em muitas destas cidades parcialmente destruídas (37). Em geral, ainda que a obra de Sitte não tenha sido traduzida ao inglês até 1945, coincidiam na preocupação da relação entre cidade e território, cidade e paisagem contextual e na articulação entre núcleos centrais, periferias suburbanas e cidades satélites. Aqui exercerá um papel protagonista o pensamento de Raymond Unwin (1863-1940) que propunha trabalhar sobre as cidades satélites, ou seja, apontar aos “gardens-suburbs” (38). Como conseqüência destas posturas Unwin organizou com a RIBA a “Town Planning Conference” de Londres de 1910 onde Geddes exporia suas leituras biologistas da evolução urbana e se apresentaram as diferenças com a “City Beautiful” mais associada à idéia de “arte urbana” academicista dos norte-americanos (39). Alemães como Joseph Sttubens procuravam, no entanto, conjugar ambas posturas, por não considerar incompatível a visão Haussmaniana com as idéias da “cidade jardim”. Sobre as propostas pragmáticas de Unwin os ingleses articulariam finalmente o Town Planning Institute, conduzido por Thomas Adams (participante da experiência de Lechworth), do qual faziam parte Unwin e Patrick Abercrombie (1879-1957) (40). O livro “Town planning in practice” de Unwin (1909, com múltiplas reedições), foi traduzido ao francês por Jaussely em 1922 e editado em Nova York em 1919 e em Berlim em 1920 (41). Nestas estratégias territoriais e na dinâmica das propostas dos norte-americanos surgiriam idéias como os “Parkways” que teriam forte impacto na década de 30. Será finalmente Abercrombie quem margeará os restos romanticistas e filantrópicos das propostas da cidade jardim para sistematizar no “Town planning” um pensamento com uma base supostamente mais científica como assinala Gravagnuolo (42). Na França a Association des Cités Jardins foi criada por Georges Benoit - Levy (1880-1971) em 1903 (43). A partir desse momento impulsionou uma série de ações e edições para difundir o ideário (44). Também Le Corbusier estudaria em 1910 as possibilidades de uma cidade jardim em Chaux des Fonds com traços pitoresquistas. Nesse mesmo ano se realizava a Conferência de Londres, a reunião de Berlim, outra na Filadélfia e o Congresso de Habitação em Viena, o que mostra a efervescência que tinham os temas urbanísticos e da habitação de interesse social naquele tempo. Vários destes grupos promoveriam na década de 20 as idéias do Planejamento Regional como um dos elementos essenciais dessa visão territorial e paisagística. Com forte conteúdo social Henri Sellier propunha, numa perspectiva socialista, a realização de cidades auto-suficientes e independentes seguindo a tradição original da proposta inglesa de Howard. Nesses anos se editava em Buenos Aires a utopia de “A cidade anarquista americana” de Pierre Quiroule cujas habitações se espalhavam entre bosques e pradarias retomando a idílica conexão com a natureza (45). Por volta de 1930 a Oficina de “Habitations Bon Marché” criava nos arredores de Paris umas quinze cidades jardim com um total de vinte mil unidades de habitação, mas as carências de terra pública, os altos custos da infra-estrutura pela dispersão territorial e o crescente desenvolvimento das idéias urbanas dos CIAM desalentaram impulso destas propostas. Talvez suas últimas manifestações tenham sido os projetos norte-americanos do Plano “Greenbelts cities” lançado por volta de 1935 para atender às demandas de habitação social no contexto de cidades jardim. O conceito do “cinturão verde” foi reutilizado por Patrick Abercrombie em suas propostas para a reconstrução de Londres em 1944. Na América Latina os movimentos da “Cidade jardim” e da “Cidade linear” teriam diferentes repercussões que mostram outras das linhas de transferência de idéias e experiências européias (46). O Instituto de Urbanismo de Paris Formado sob a iniciativa de Marcel Poete (1866-1950) e de Henri Sellier, o Instituto nasce como “École des Hautes Etudes Urbaines” na preocupação de abordar soluções capazes de resolver os problemas sociais e habitacionais das cidades (47). Poete particularmente vinha refletindo sobre a necessidade de encarar transformações em Paris que as conseqüências da primeira guerra mundial teriam de acelerar, sobre tudo na ocupação de zonas de espaços livres e zonas de crescimento da cidade junto com as reconstruções, em concordância com a legislação sancionada em 1919 (48). Justamente nesse mesmo ano teria de se formar a Escola de Altos Estudos Urbanos por iniciativa do Conselho Geral da região do Sena, propondo um organismo de referência para as ações urbanísticas que se teriam de empreender ao mesmo tempo que capacitar a profissionais no acondicionamento, extensão e “embelezamento” das cidades em termos da lei Cornudet e difundir as idéias do novo urbanismo através de uma revista “La Vie Urbaine”, que possibilitava a transmissão das propostas dos membros da Escola (49). É importante considerar que os integrantes da mesma provinham de diversas disciplinas e nelas, os aspectos vinculados à administração e à legislação das cidades tinham uma especial importância. Este traço interdisciplinar e a capacidade de integrar a professores do mundo acadêmico com gestores políticos e da administração foi uma das inovações desta proposta. Marcel Poete, que foi o primeiro diretor, ensinava sobre “a evolução das cidades” e junto a ele estavam o jurista Jean Barthélémy e o especialista em direito administrativo Gastón Jezé, Édouard Fuster e Louis Rolland que abordavam os temas de ordem social, o higienista George Bechman, assim como William Oualid e Augusto Brugemann que tinham a seu cargo os aspectos da economia social e urbana (50). Os temas vinculados ao desenho e técnicas urbanas ficariam sob a tutela de León Jaussely, Jacques Gréber (1882- 1962), Henri Prost e Louis Bonnier (1856-1946) (51). O sistema pedagógico se complementava com uma série de conferencistas que abordavam os temas da habitação, da higiene, dos serviços públicos, da administração urbana municipal. Entre os dissertantes cabe enfatizar o papel de Henri Séller com referência sobre os problemas da habitação de interesse social e da gestão política do urbanismo. Em 1924 a Escola se integra à Sorbonne e se reorganiza sob a nominação de Instituto de Urbanismo da Universidade de Paris integrado à Faculdade de Direito, ratificando a importância dos aspectos jurídicos que, junto com as idéias da “estética edilícia” de Beaux Arts, predominavam no período no qual fizeram seus cursos Della Paolera e Estrada. O prestígio internacional do Instituto foi notável e garantiu a convergência de múltiplos alunos de todo o mundo, gerando um primeiro grupo de urbanistas nacionais em vários países da América. Por volta de 1940 ocuparia a direção do Instituto Pierre Lavedan (1885-1982), antigo discípulo de Poete e um dos primeiros historiadores do urbanismo, que durante quase um quarto de século moldou a instituição segundo novos programas de estudo com conteúdos de caráter geral ou ensinos especificamente técnicos dirigidos a arquitetos, agrimensores e engenheiros. Nesta linha se destacavam como professores de projeto urbano Robert Auzelle (1913-1984) e André Gutton (1904-?) (52). À Lavedan se atribui a criação do termo “Art urbain” para qualificar a atuação dos academicistas franceses onde ao mesmo tempo os desenhos geométricos e as composições funcionais integravam elementos arquitetônicos como pórticos, colunatas, arcos, fontes, monumentos escultóricos, obeliscos e estátuas gerando um enriquecimento da paisagem urbana. Sob a condução de Gastón Bardet o Instituto se reorganizou e integrou em seu Comitê de Patronato o uruguaio Mauricio Cravotto, o mexicano Mario Pani e os argentinos Carlos María della Paolera e Ernesto Vautier (53). Jacques Gréber: o diretor de ensino de Ernesto Estrada Gréber, de nacionalidade francesa, se graduou na École des Beaux Arts em 1909, mas rapidamente se trasladou aos Estados Unidos, onde cumpriu um papel relevante na transferência dos princípios academicistas tanto na arquitetura como no urbanismo. Trabalhou inicialmente associado a Clarence Mackay e a Horace Trumbauer e, na Filadélfia, realizou obras memoráveis desde 1913, entre elas ganharia em 1917 o concurso para o Plano Mestre do Benjamín Franklin Park e trabalharia depois em 1926 conjuntamente com Paul Cret (1876-1945) no projeto do Museu Rodin (54). Nestes anos nos Estados Unidos, Gréber foi o principal propagandista da tradição francesa da arquitetura e do urbanismo beaux arts, escrevendo um livro muito exaltado por destacar esta marca do “gênio” francês (55). Em 1919 tendo regressado à França para colaborar na reconstrução de cidades participou no Concurso para Paris (1919) e no de Lille, nos quais recebeu menções. Trabalhou nos planos urbanos e regionais da região de Lille (1920-1937), Abbeville (1932-1945), Marsella (1940), Ruan (1940-1947) e Calais, alguns deles nos anos em que Estrada realizava seus cursos em Paris. Em 1926-28 Gréber, juntamente com Henry e Jean Viollet, padre da paróquia de Nazaret, tinha realizado uma experiência de cidade jardim. Justamente no Congresso de Amsterdã (1924) realizado pelo coletivo das Cidades Jardim, Gréber enfatizou a prioridade do espaço público no desenho das cidades em função de seu caráter de bem comum e de melhora substancial da qualidade de vida. Não por isso relegava sua função tendo em conta as bondades de uma estética urbana e as condições higiênicas (56). Em 1937 Gréber foi o arquiteto chefe da Exposição Internacional de Artes e Técnicas da Vida Moderna, realizada em Paris e que seria a maior das que se efetuaram na França (57). Na ocasião se construiu o novo Palácio do Trocadero, e se destacavam os pavilhões da Rússia e da Alemanha (obra de Speer) que simbolizavam a rivalidade dos novos totalitarismos europeus. Num clima de incerteza pelo triunfo da Frente Popular, a guerra civil espanhola, o avance dos fascismos e a ameaça da segunda guerra mundial (em dois anos Paris estaria nas mãos dos alemães) a França tratava de mostrar na sua Exposição não somente seu prestigio cultural, mas também um opaco cenário de confraternidade. Os 300 pavilhões da Exposição oscilaram entre o classicismo academicista oficial, o pitoresquismo da arquitetura efêmera ou os avances da modernidade. Entre eles cabe apontar o Pavilhão da Espanha, obra de Luis Lacasa e José Luis Sert que incluía a apresentação do Guernika de Picasso (58). Gréber apostou por uma participação dinâmica de artistas encomendando mais de 700 murais (59). Por volta de 1940 Gréber conduz a SFU, atuando como Secretário Gastón Bardet, e pré-anunciando as mudanças de gerações que se aproximavam. Nessa época realiza o Parque da Fundação Serralles no Porto (Portugal) manejando com profissionalismo uma paisagem de terraços até a costa do rio Duero. Depois Gréber trabalharia vários anos no Canadá se ocupando dos planos de Ottawa entre 1937 e 1950, do Plano parcial do centro da cidade e depois do Plano Regulador geral, atuando também nos planos de Montreal (1945-1952) e Québec (60). Mais além de seus méritos como projetista, seu biógrafo André Lortie assinala a importância de seu caráter de gestor urbano e mediador entre as diversas disciplinas e agentes que intervêm na esfera urbanística, compatibilizando os valores das cidades e as necessárias reformulações compatíveis com eles (61). As últimas estadas em Buenos Aires: de Le Corbusier (1929) a Gastón Bardet (1949) Depois da fracassada contratação de Francois Benjamín Chaussemiche (1864-1945), ocasionada pela oposição dos técnicos locais irritados com as atuações de Joseph Bouvard e Norbert August Maillart sobre tudo, com a presença de Forestier se abririam as portas para o Plano Noel de 1925 (62). No campo da arquitetura, ademais de René Karman que conduzia a Oficina de Composição na Escola de Arquitetura de Buenos Aires desde 1912, seria depois contratado René Villeminot que tinha obtido o Gran Prix de Rome (2° prêmio) em 1908. Por volta de 1929 a presença de Le Corbusier em Buenos Aires, convidado pela Associação de Estímulo das Belas Artes com o auspício da Universidade de Buenos Aires, significaria um primeiro contato de importância ainda que passaria bastante desapercebido na corporação de arquitetos (63). De fato o Decano da Faculdade de Ciências Exatas Engenheiro Butty nomearia a três professores Alberto Coni Molina, Ezequiel Real de Azúa e a Raúl J. Álvarez para que acompanhassem a Le Corbusier em suas visitas à cidade. Os dois primeiros eram dois reconhecidos academicistas e o terceiro um propulsor do neocolonial, a quem Le Corbusier enviaria de Paris seu livro “Precisions” dedicado em 1930 (64). Tiveram contato com Le Corbusier outros grupos propulsores da arquitetura moderna como Alberto Prebisch e Ernesto Vautier, enquanto que Wladimiro Acosta iria conhecê-lo no Brasil onde estava radicado. As conferências de Le Corbusier foram parcialmente publicadas, obtendo eco em setores do mundo intelectual como Victoria Ocampo que lhe publicaria artigos em “Sur” e María Rosa Oliver que comentaria sua obra (65). De todos modos, o impacto da presença de Le Corbusier se manifesta sobre tudo no prolongamento de suas idéias com a integração de Juan Kurchan e Ferrari Hardoy em seu atelier parisiense para realizar o “Plano de Buenos Aires”, uma cidade à que “o mestre” tinha visto como um lugar “sem esperança”, ainda que depois lhe prometesse um futuro mais singular que o de Nova York... (66) Como a publicação do Plano de Le Corbusier apenas se realiza em 1947, quando a designação de seus antigos colaboradores e do exilado Antonio Bonet na Oficina municipal do Plano Regulador já os convertia em funcionários com possibilidade de concretizá-lo, os debates de suas propostas foram já tardios. Não temos certeza se Ernesto Estrada assistiu às conferências de Le Corbusier ou se, como aconteceria com Lucio Costa no Brasil, esteve voluntariamente à margem das mesmas (67). O certo é que sua visão urbanística pouco teria a ver com as primícias que o Mestre esboçava em 1929, ao impulso de seu grandiloquente Plano Voisin (1925) que propunha um urbanismo de terra arrasada e altas densidades que era refutado pelos urbanistas tradicionais da França. A leitura do urbanismo do CIAM, do “coração da cidade”, das grandes avenidas e dos satélites “villes radieuses” corbusieranos pareciam ter mais eco nas cidades dinâmicas e com forte processo de transformação como as latino-americanas. A obra que em 1936 empreendem Ernesto Vautier e os Engenheiros Palazzo e Holoubeck com o projeto do “parkway” da Avenida general Paz definindo o perímetro urbano da cidade, mostram a viabilidade de tais operações. Por sorte os projetos de grande escala das propostas dos CIAM, como as intervenções de Le Corbusier e Sert em Bogotá (1947) ou as de Sert em Havana (1959) e as de Bonet em Buenos Aires (1966) ficariam nada mais do que em papeis, porque de outra forma teriam arrasado os centros históricos de nossas cidades. Em 1931 chegaria à Argentina Werner Hegemann (1881-1936) convidado pelos “Amigos da cidade”, um urbanista de fina percepção que, acompanhado por Carlos María della Paolera, proferira cursos em Buenos Aires, Rosário e Mar del Plata, e a quem muito provavelmente escutara Ernesto Estrada antes de sua viagem de estudos à França e Alemanha (68). A insistência de Hegemann numa crítica construtiva sobre o Código de Buenos Aires de 1928 e a carência de espaços verdes, marcaria uma forma razoável de analisar a cidade desde sua realidade, antes que impor una nova teoria desde os modelos externos. Em coincidência com estas posturas o austríaco Karl Brunner desenvolveria no Chile um novo plano para Santiago (1933) procurando articular o centro histórico, as expansões do século XIX e os crescentes subúrbios de uma forma harmônica. Brunner editaria depois na Colômbia (1939) dois magníficos volumes de seu “Manual de Urbanismo” onde articula seu pensamento europeu com exemplos latino-americanos desde uma perspectiva mais comprometida com a região (69). Sua tarefa continuaria em Bogotá e no Panamá. Por volta de 1946 a presença do frade dominicano Joseph Louis Lebret geraria importantes trabalhos de planejamento na escala regional na Colômbia e no Brasil, mas ao mesmo tempo mobilizaria em todos os países a criação dos grupos de urbanistas de visão sócio-cristã dentro dos Centros de Economia e Humanismo, aos quais estiveram vinculadas figuras como Luis Morea e Jorge Enrique Hardoy na Argentina ou Juan Pablo Terra e Antonio Cravotto no Uruguai. Gastón Bardet (1907-1989) tinha se formado em Paris em 1930 com uma tese sobre o urbanismo na época de Mussolini (70). Trabalharia junto a Gréber na Exposição Internacional de 1937 e depois lecionaria no Instituto de urbanismo e conduziria a Sociedade de Urbanistas. Participou no Plano de Vichy (1939-1942) e criou o Instituto Superior de Urbanismo de Bruxelas (71). Com uma visão humanista do urbanismo, Bardet reformulou as antigas linhas da “arte urbana” para convergí-la nas correntes de maior conteúdo social e integradoras dos aspectos cotidianos da vida urbana. Teve um destacado papel como difusor dos temas urbanísticos e proferiu conferências na Argélia, Argentina, Brasil, Chile e México (72). A Bardet lhe coube assumir as bandeiras de Marcel Poete e o papel de dar continuidade ao “gênio” francês, que tinha encontrado em sua projeção das ideologias urbanistas nas Américas uma maneira de paliar sua decadência depois das duas guerras mundiais. Por isso tendo superado intelectualmente a escola da “arte urbana” não se desprende totalmente do “haussmanismo melhorado” que imperava nos anos 40 na SFU e no ensino do ISU. Em 1948, um dos temas de trabalho prático que se ocupava no Instituto em sua nova versão internacional era sobre o “quartier résidentiel” de Belgrano em Buenos Aires. Um ano mais tarde Bardet visitava Buenos Aires e Chile dando conferências e ajudando a criar o Instituto de Urbanismo na Universidade de Buenos Aires (73). |
|
|||||||||||||||||||||||||||
![]() |
||||||||||||||||||||||||||||
| Estudo sobre o bairro de Belgrano de Buenos Aires realizado no Instituto Superior de Urbanismo (ISU) de Paris em 1948 | ||||||||||||||||||||||||||||
|
Os precursores argentinos: Martín Noel, Benito Carrasco e Carlos María della Paolera Deste espírito da composição academicista experimentaram argentinos como Martín Noel, graduado em Paris em 1913 e Carlos María della Paolera, formado em Paris em 1927 e que fundaria entre 1929 e 1933 as primeiras cátedras de Urbanismo nas Escolas de Arquitetura de Rosário e Buenos Aires. Nesse mesmo ano se criaria pelo arquiteto Alberto Schade, o primeiro curso de Urbanismo na Escola de Arquitetura da Universidade do Chile e o mesmo faria Mauricio Cravotto na Faculdade de Montevidéu (74). Em 1938 Martín Noel apresentava seu projeto de lei de Urbanismo reunindo a experiência francesa e seu próprio trabalho do Plano de Estética Edilícia que tinha desenvolvido em Buenos Aires entre 1923 e 1928 (75). No caso de Noel a preocupação por conciliar as idéias mecanicistas da modernidade com a persistência dos valores e modos de vida tradicionais, se canalizou pelo resgate das antigas receitas do academicismo, enquanto que num caso mais radicalizado, Ángel Guido propunha “a reargentinização edilícia pelo urbanismo” com seus projetos de renovação urbana para Salta e Tucumán (76). Por sua vez em contato direto com Tony Garnier, Alberto Prebisch e Ernesto Vautier, precursores da vanguarda modernista na Argentina, apresentavam em 1924 seu projeto para “A cidade açucareira em Tucumán” que obteve um Prêmio no Salão Nacional de Belas Artes. Prebisch e Vautier, como Luis Barragán no México, estavam também muito impactados pela arquitetura popular da Andaluzia e do norte de África (Marrocos e Argélia e A Alhambra de Granada) (77). Martín Noel teve em suas mãos um momento singular, já que seu irmão era Intendente de Buenos Aires e ele mesmo presidia a Comissão Nacional de Belas Artes e em tal caráter se integrou à Comissão de Estética Edilícia de Buenos Aires (1923), que incluía ao arquiteto francês René Karman, o italiano Conde de Morra (Presidente da Sociedade de Arquitetos), o Engenheiro Víctor Spotta de Obras Públicas da Municipalidade e o Engenheiro Sebastián Ghigliazza (Ministério de Obras Públicas da Nação), atuando como projetista Ernesto Vautier que recentemente regressava de Paris e como assessor paisagístico Jean Nicolas Forestier. O “Projeto Orgânico para a Urbanização do Município” recopilava iniciativas e recolhia desenhos do francês Norbert Maillart e do italiano Gaetano Moretti. Posto que nunca existiu um organismo técnico de aplicação destas propostas, é evidente que eles influenciaram o Regulamento de construção de 1928 e em menor medida o Código de Edificação de 1944. Noel sem dúvidas estava atento à evolução das idéias da modernidade, pois já em 1927 comentava o Plano Voisin de Le Corbusier (1925) e a “Cidade Industrial” de Tony Garnier (1922) (78). Provavelmente o “Plano Noel”, como ficou conhecido desde então, estava ainda mais preocupado com os valores da “arte urbana” que com as circunstâncias sociais e a carência de habitação que vivia a cidade e por tanto tinha uma ótica condicionada pelos três grandes temas do academicismo francês antes que à própria circunstância. Apesar disso se propunham a existência de “Bairros operários” suburbanos. No entanto, Noel reivindicava a sensibilidade humanista da concepção da cidade que vinham desenvolvendo Camilo Sitte ou Raymond Unwin, retomando uma vertente mais próxima à “cidade jardim” que ao mecanicismo racionalista. Reclamava um respeito às tradições, pois a “arte que rompe com a vida nacional e popular perde seu verdadeiro caráter” (79). Noel também recebeu a Werner Hegemann em sua visita à Argentina em 1931 e tinha em sua biblioteca as obras mais importantes deste urbanista alemão. Com esta bagagem e suas próprias experiências arquitetônicas, Noel – em sua condição de Presidente da Comissão de Obras Públicas da Câmara de Deputados da Nação - apresentou um Projeto de Lei para a criação da Direção Nacional de Urbanismo em 1939 (80). Neste projeto, se procurava conciliar “os problemas da cidade moderna, com os derivados da conservação do caráter histórico-estético das cidades” (81). Numa linha mais renovadora se manifestavam na década de 30 os arquitetos Ernesto Vautier e Fermín Bereterbide, que reclamavam maior apoio à Seção Técnica do Plano criada em 1932 e fundamentavam suas propostas urbanas nos textos de Le Corbusier, Hegemann, Tony Garnier, Adams, Nolen, Unwin, Koestner e Koch entre outros (82). Benito Javier Carrasco (1877 – 1958) procedia de outro campo: era Engenheiro Agrônomo e paisagista, mas como Forestier (com quem disputou em suas propostas para Buenos Aires) introduziu-se no urbanismo (83). Formado junto a Charles Thays se graduou em 1900 com uma tese sobre espécies arbóreas nativas que se conservavam no Jardim Botânico de Buenos Aires. Muito cedo, depois de uma viagem à Europa e Estados Unidos começou a difusão de suas idéias advogando por um urbanismo que deixasse de lado tanto os projetos faraônicos como os profissionais estrangeiros que vinham oferecer serviços sobre modelos externos sem o conhecimento da realidade concreta sobre a qual deviam operar (84). A negativa à contratação de Chaussemiche foi uma das conseqüências destas posições de um grupo de técnicos e legisladores argentinos (85). Carrasco trabalhou desde 1900 na Direção de Parques da Municipalidade de Buenos Aires, que passaria a dirigir entre 1914 e 1918. Ativo militante cívico sua ação foi então de grande transcendência para a construção do Roseiral de Palermo, do equipamento de Jardim Botânico e para a iniciativa da Orla Sul e do tratamento da ribeira norte. Em 1923 publicou seu tratado de “Parques e Jardins” (86). Foi o criador da Cátedra de Planejamento de Parques e Jardins na Faculdade de Agronomia e Veterinária e membro fundador, em 1925, da Associação de Amigos da Cidade (87). Em 1935, enquanto Estrada estava estudando na França, Carrasco propunha no Primeiro Congresso Argentino de Urbanismo que se criasse em Buenos Aires um Instituto de Altos Estudos Urbanos e Administração Municipal numa linha bem semelhante à do ISU. Della Paolera de sua parte vinha publicando trabalhos sobre urbanismo desde 1916 e analisava em 1920 o Plano Regulador de Paris em cujo concurso no ano anterior tinham participado os mais notáveis urbanistas da SFU e os professores do ISU. Participa ativamente no Congresso de Habitação em Buenos Aires (1920) e em 1924, parte para França onde fará os cursos no Instituto Superior de Urbanismo (88). Ali terá contato com as novidades dos textos de Edmond Joyant, Marcel Poete e sobre tudo os de Pierre Lavedan, que abre as portas da história do urbanismo (89). Também será testemunha da reorganização das entidades da “Cidade Jardim” que fundam a “International Federation of housing and town planning”. A tese de Della Paolera foi orientada por Marcel Poete, mostrando justamente o peculiar interesse pela compreensão histórica dos fenômenos urbanos como fundamento para a formulação de um Plano para Buenos Aires (90). A formação da cátedra de Urbanismo em 1929 em Rosário, mais tarde em 1933 na Universidade de Buenos Aires e a criação da Seção Técnica do Plano de Urbanização na Municipalidade de Buenos Aires (1932), todas a cargo de Carlos María della Paolera ao seu regresso de Paris, seriam marcos chaves que lhe permitiriam desenvolver um programa de ação para a urbanização regional (91). Seguindo a tradição integradora do “Plano” que sustentavam seus professores do ISU como Agache, Jaussely ou Rey, Della Paolera aborda simultaneamente os aspectos vinculados à habitação, os sistemas de circulação, os zoneamentos de áreas industriais e de equipamento e a distribuição dos espaços públicos de parques e praças (92). Interessado pelos pontos de vista biologistas de Geddes concebe a cidade como um organismo vivo ao qual se deve tratar mediante uma visão organicista (93). Concatenando parcialmente as gestões com o Ministério de Obras Públicas (com que depois sustentará um longo pleito pela Avenida 9 de Julio), Della Paolera consegue articular a área metropolitana através da Ponte Uriburu (hoje Alsina) e aperfeiçoar a Ponte Avellaneda sem por isso conseguir um planejamento integral com o Grande Buenos Aires (94). Foi justamente o debate sobre a abertura da Avenida 9 de Julho que marcaria o denodado esforço do urbanista por conseguir uma via rápida e livre que configurasse um novo eixo urbano. A discussão sobre a demolição total ou parcial da quadra se tingiu não somente de conceitos de “arte urbana” senão que apontou ao mesmo tempo à rentabilidade da terra urbana central para o município. Della Paolera conseguiria com seu Park Way urbano superar as visões mais fragmentárias de Otaola, Bereterbide e Vautier ou evitar a grandiloqüência classicista do projeto de “monumentalização” de Ángel Guido (95). A eficácia da ação municipal de José Estévez permitiu a abertura do novo espaço público e cívico em curto prazo (96). Esta eficácia inicial se prolongará morosamente no tempo para uma obra que tardaria 60 anos para se concluir. A complexidade da tarefa supera provavelmente a notável capacidade de trabalho de Della Paolera, pois não pode alcançar a precisar todos os níveis que requeria esta integração do Plano Regulador, enquanto as vontades políticas e os conflitos administrativos limitavam as possibilidades operativas da Seção que conduzia. Os vícios de legitimidade do próprio governo não foram menos importantes nos efeitos desta gestão (97). Um papel essencial teria Della Paolera na articulação do urbanismo argentino com o exterior. Se podemos atribuir a Martín Noel a presença de Jean Claude Nicolás Forestier em Buenos Aires em 1924, não menos certo é que as visitas de Marcel Poete, León Jaussely (1926), Jacques Lambert (1929) Alfredo Agache (1930), Werner Hegemann (1931) e Gastón Bardet (1949) estariam diretamente vinculadas a gestões de Della Paolera e a seu esforço para atender a criação dos cenários adequados para as mesmas (98). A criação em 1939 de um Instituto Argentino de Urbanismo e depois em 1946 do Curso Superior de Urbanismo na Escola de Arquitetura da Universidade de Buenos Aires aponta um dos marcos de sua fecunda tarefa (99). Seu reconhecimento se potencializa quando Della Paolera cria o símbolo do urbanismo, adotado pelo Congresso de Urbanismo de 1935 e fixa o 8 de novembro como o “Dia do Urbanismo” que é aceito e celebrado a escala universal começando pelo Congresso de Urbanismo de Benzacon desse mesmo ano 1935. Evidentemente a segunda guerra mundial teria de mudar o rumo propositivo e voltaria muitos urbanistas franceses à tarefa da reconstrução urbana e à ação efetiva desde as seções técnicas do Estado. Será o tempo das propostas vinculadas às correntes das Conferências Internacionais de Arquitetura Moderna (CIAM), às tentativas de renovação urbana e ao papel protagônico de uma nova geração de urbanistas, entre os quais se incluíam Robert Auzelle e Gastón Bardet, que teria de visitar a Argentina e teria um papel relevante no fortalecimento do Curso Superior de Urbanismo da Universidade de Buenos Aires. Ademais deles, as idéias de Le Corbusier tingiam o ensino da arquitetura e do urbanismo da segunda metade do século. Notas 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 41 42 43 44 45 46 47 48 49 50 51 52 André Gutton, diplomado em 1927, trabalhou com seu pai Henri, depois de uma viagem à Alemanha, no conjunto de habitações operárias de Trapees onde desenvolveu um interessante desenho das habitações dispostas a 45° (1931). Em 1937 colaborou com Villanueva e Malaussena na construção do Pavilhão da Venezuela na Exposição de Paris, já demolido. Redigiu em 1941 La Charte de Urbanisme que teve ampla difusão. Em seus projetos urbanos manteria as idéias do academicismo beaux arts como se pode apreciar em seu Plano para Aleppo na Síria (1952) onde afeta o traçado histórico da cidade ainda que seu projeto se executou só parcialmente. Escreveu seus Cursos de Teoria da Arquitetura proferidos na École des Beaux Arts entre 1952 e 1962 que foram publicados em seis volumes. 53 54 55 56 57 58 59 60 61 62 63 64 65 66 67 68 69 70 71 72 73 74 75 76 77 78 79 80 81 82 83 84 85 86 87 88 89 90 91 92 93 94 95 96 97 98 99 |
|
|||||||||||||||||||||||||||
| | 087 | 087.01 | 087.02 | 087.03 | Autor | Assunto | Números | Página principal | Expediente | Vitruvius | | ||||||||||||||||||||||||||||