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1.
Introdução
Criar o grupo dos
novos urbanistas na Europa no ano de 2003, foi iniciativa inspirada no
movimento norte americano de mesma raiz. O Congresso para o Novo Urbanismo,
CNU estabelecido nos Estados Unidos da América, EUA dez anos antes, a
publicação da Carta do Novo Urbanismo em 1996 e, a grande repercussão
do novo urbanismo neste país são fatos que precederam à iniciativa européia.
Não só o exemplo americano, mas o momento de abertura para a crítica ao
Urbanismo Moderno favoreceu a fundação da congênere européia, o Conselho
Europeu de Urbanismo, CEU (1).
A retomada do interesse
por projetos baseados nos princípios da cidade-jardim, os bons olhos para
o processo de participação coletiva sobre as decisões de urbanismo, e
a questão da preservação dos recursos naturais estimulou diversos arquitetos
e urbanistas europeus a realizar um encontro com representantes do movimento
norte americano. O objetivo foi estabelecer as bases do que seria o novo
urbanismo na Europa. Este encontro aconteceu na Bélgica, no ano de 2003,
cidade de Bruxelas, com extensão para vizinha cidade histórica de Bruges.
Devido às peculiaridades
das cidades européias e americanas e a tradição urbanística de cada continente
foram identificados pontos comuns e diferenças significativas. As diferenças
se fazem devido às características da rede de cidades nos dois continentes,
a distancia entre elas, a dimensão dos países, a história e, o contexto
cultural em cada caso: o novo e o velho mundo. Os pontos comuns se referem
à urgência para:
- minimizar o impacto
dos efeitos da urbanização dispersa;
- estimular o uso
misto do espaço urbano;
- valorizar a circulação
de pedestres;
- incentivar o uso
da bicicleta;
- promover no bairro
a utilização do pequeno veículo motorizado acionado por energia alternativa
ao petróleo;
- dar máxima atenção
às demandas da comunidade organizada em pequenos núcleos ou distritos;
- preservar os bens
de interesse histórico, através da atribuição de usos atuais para os
espaços incorporados ao projeto urbano (2).
Neste artigo vamos
colocar em forma de tópicos os conceitos que expressam princípios de apoio
à organização física do espaço urbano, utilizando na íntegra o texto original
da entidade responsável. Desta forma julgamos estar caminhando a favor
da clareza e fidelidade da apresentação, pois ao se colocar uma idéia
ou diretrizes de projeto na forma de princípios, estes devem ser auto-explicáveis.
Neste caso, nos escusamos pelas citações, poucas mais um tanto extensas.
Optamos para a vantagem de ter os quadros dos princípios expressos pelas
entidades responsáveis no corpo do texto ao invés de remeter o leitor
à publicação por nós consultada.
2. Uma situação
favorável para o novo urbanismo na Europa
Na Europa, os pontos
comuns com os nortes americanos são evidentes em diversas situações ou,
comparecem de forma experimental como o caso da utilização de pequenos
veículos, que é ainda uma prática pouco usada nos dois continentes (3).
Contudo para caracterizar o contexto europeu aonde vai se lançar o novo
urbanismo é importante lembrar o conceito de cidade-jardim desenvolvido
pelo teorista urbano Ebenezer Howard (4). Foi base para projeto da primeira
cidade-jardim Letchworth Garden City em1903, localizada ao norte de Londres,
população atual 33.600 habitantes e, na Alemanha, para o projeto da cidade-jardim
Hellerau em 1909, criada por iniciativa do empresário Karl Schmidit, população
atual 15.000 habitantes, hoje bairro da cidade de Dresden (505.000 habitantes).
Em 1918, através de empreendimento outra vez liderado por Howard foi implantada
a segunda cidade jardim inglesa, Welwyn Garden City, população atual 43.250
habitantes (5). Após a segunda guerra mundial no Reino Unido, época da
construção das cidades novas com o objetivo de implantar um anel de cidades
para formar a região metropolitana de Londres, foi fundada Stevenage,1946,
população atual de 79.000 habitantes, Harlow,1947, população atual de
78.000 habitantes, ambas concebidas segundo o genuíno espírito da cidade-jardim
apesar da sua maior população. Foram construídas 21 cidades no Reino Unido
entre 1946 e 1970, concebidas segundo diferentes critérios de projeto.
A última, Milton Keynes, fica a 75 km de Londres abrangendo uma área de
8.800 ha e população atual de 207.000 habitantes. O objetivo do planejamento
regional foi formar um aglomerado com mais três pequenas cidades existentes
e projetar um quarto núcleo com 150.000 habitantes. Com o centro principal
no novo núcleo se espera o crescimento da população até 250.000 habitantes,
formando um conglomerado dos quatro assentamentos no esquema das cidades
jardim (6). Neste período (1946-1970) o Reino Unido foi um interessante
palco de experimentos em planejamento e morfologia urbana (7).
Para se entender o
contexto que facilitou a introdução do ideário do novo urbanismo na Europa
é indispensável não esquecer o fato desde há muito presente de consciência
da preservação histórica, conservação dos bens naturais e, o sentido de
cidadania (o individual e o coletivo). Persistem os conceitos expressos
por Howard há um século. É preciso recordar a repercussão do plano da
cidade de Tapiola e o pós-modernismo dos conceitos desenvolvidos para
o projeto do bairro Pounbury, na cidade de Dorchester.
Tapiola, na Finlândia,
cuja fundação data de 1953 foi concebida como uma cidade-jardim. Hoje
conta com 38.000 habitantes e passou a ser um distrito do município de
Espoo, compondo um conjunto de 220.000 habitantes. Seu idealizador foi
o jovem advogado Heikki von Hertzen que, junto a Asuntosäätiö – Fundação
Habitacional da Finlândia – combateu a construção de apartamentos em blocos
repetitivos como estavam sendo construídos em diversos lugares, com argumentos
trazidos de sua visão humanista, do conhecimento de projetos e, de diversas
visitas realizadas às cidades-jardim do Reino Unido. Hertzen preconizava
que as pessoas tinham de viver junto à natureza, convidou diversos arquitetos
da Finlândia para desenvolver o plano, organizou um concurso para a área
central de Tapiola, trabalhou na viabilização de fundos junto ao governo,
na seleção dos construtores e, acabou realizando seu sonho de cidade (8).
Tapiola hoje é um ícone quanto à forma de fazer um núcleo urbano, onde
os habitantes possam viver próximo à natureza, onde a mistura de usos
do solo é equilibrada e o sistema de transportes público é adequado (9).
Considerada sua data de fundação e se empregando conceitos de hoje pode-se
dizer que a cidade foi desenvolvida por um processo sustentável e possui
um sistema exemplar de espaços livres e verdes (10).
O novo urbanismo tem
uma componente forte no resgate de tipos urbanísticos e da arquitetura
da cidade tradicional e, para alguns empreendedores e arquitetos também
no resgate de estilos passados. No âmbito do novo urbanismo americano
a retomada dos estilos em novos empreendimentos é conhecida como traditional
neighborhood development. Atitude muito bem-vinda ao gosto popular
nos EUA e em muitos outros países. Faz um apelo à maneira de viver usufruindo
do espaço público, retomando o senso de vizinhança e, aceitando o re-desenho
dos estilos tradicionais. Estes conceitos facilitam muito a aceitação
do plano da cidade, do bairro de subúrbio, ou mesmo do setor intra-urbano
pela população interessada. Facilita a venda dos imóveis, condição básica
para o sucesso deste tipo de empreendimento, quase todos da iniciativa
privada (11).
No plano intelectual
e, com certeza mexendo com a vontade de o nobre ser teorista social, o
novo tradicionalismo inspirou Charles, Príncipe de Wales a idealizar e
empreender a implantação do bairro Poundbury, extensão da cidade de Dorchester.
Isto foi em 1989, em uma área de 162 ha, com previsão de uso misto entre
1200habitantes e a instalação de cerca de 40 unidades destinadas a comércio,
serviço e indústrias leves. O projeto para Poundbury apesar de sua pequena
dimensão, reflete princípios urbanísticos estabelecidos pelo Príncipe
Charles (12) e que foram levados a pratica pelo escritório do arquiteto
Leon Krier (13). Dirigida pelo príncipe a Prince of Wales Foundation for
the Built Environment, com a colaboração de outros urbanistas, desdobrou
os oito princípios do Príncipe para treze princípios a serem seguidos
no planejamento e projeto de um espaço agradável para a vida das pessoas.
Por se tratar de princípios que apresentam uma relação próxima com uma
parte dos vinte e sete princípios do novo urbanismo americano os apresentamos
na integra.
Foundation for
the Built Environment
Princípios para
um projeto urbanístico
01. Lugar: o projeto
deve tirar partido das características que fazem com que um lugar seja
único; é mal um empreendimento anônimo como caráter.
02. Hierarquia:
a constituição física de um edifício deve refletir sua função e sua
importância.
03. Escala: os edifícios
devem se relacionar com a escala de quem deles faz uso; o edifício e
a dimensão de seus espaços não são para ser exagerada ou indiferente.
04. Harmonia: um
edifício deve ter individualidade não deixando de interagir com a vizinhança.
05. Limite: o espaço
de controle público e o privado devem ser claramente delimitados, assim
como o espaço urbano e o rural.
06 Materiais: o
projeto deve utilizar materiais locais que se mesclem com a paisagem
e envelheçam com dignidade.
07. Decoração: os
projetos devem ser ornados com obras de artistas e de artesãos.
08. Comunidade:
a comunidade local deve participar de todas as fases do projeto.
09. Espaço público:
as áreas externas às edificações incluindo sinalização, iluminação artificial
e o mobiliário urbano, devem ser tão bem detalhadas quanto o restante
do projeto.
10. Permeabilidade:
o conjunto edificado deve permitir passagem através de seus volumes,
facilitando o percurso de pessoas e mercadorias.
11. Durabilidade:
as edificações devem ser sólidas permitindo uma vida longa, se adaptando
a novos usos quando o uso anterior não mais interessar.
12. Valor: o projeto
de um edifício deve levar em conta que este tem um valor econômico.
13. Qualidade: um
edifício deve ser concebido com maestria devendo refletir a qualidade
da construção.
Apesar das possibilidades
de aplicação em escalas maiores dos princípios do novo urbanismo, sua
origem esta na reformulação da idéia do pequeno distrito suburbano, de
localização e organização interna dispersa. Na Europa há uma forte integração
das relações sociais na escala do distrito, como o controle do espaço
coletivo pela comunidade ou a relação gentil das pessoas com a natureza.
Entendemos por isso que a aplicação dos princípios do novo urbanismo poderá
apenas vir a refinar princípios que já são práticas usuais. Deixamos de
lado a questão da retomada dos estilos passados que não é o mais importante,
na medida em que a arquitetura das edificações pode ou não ter este apelo
do tipo revival, dependendo do empreendedor e do arquiteto. A rede
de cidades se consolidou ao longo dos séculos, com distancias menores
entre elas e uma distribuição da trama urbana hierarquizada desde há muito
tempo. No entanto, apesar do assentado conjunto de regiões, hoje em dia
devido à procura de áreas por preço moderado para a implantação de grandes
equipamentos sociais, culturais, industriais, ou destinados a serviços,
se estabeleceu relativa dispersão no processo de urbanização. Menos grave
que o mesmo processo nos EUA, mas, suficientemente importante para ser
considerado no planejamento regional e local. Mega cities e cittá
diffusa, “os dois extremos a que me estou referindo, como os dois
tipos de ideais, aparecem hoje na Europa como duas modalidades autônomas
de implantação a que correspondem modos de vida, atividades, formações
sociais diferentes” (15).
Nos EUA, a tradição
anglo-saxônica do contato com a natureza, acentuada pela religião protestante
e, pela histórica dura luta das famílias de imigrantes para colonizarem
o país, desenvolveu arraigado gosto de se viver no subúrbio. No tempo,
este gosto tornou-se possível de ser praticado principalmente pela classe
média devido ao custo direto e indireto dos deslocamentos para materialização
de tal estilo de vida. Condição esta facilitada pela disponibilidade de
recursos para estender uma trama viária de alto padrão a todos os pontos
onde se manifestava a urbanização. No tempo atual, devido à necessidade
de economizar combustível e o objetivo de rever situações onde é possível
organizar o transporte coletivo na escala regional e local, as cidades
procuram direcionar o planejamento urbano neste sentido. O novo urbanismo
cresceu a partir da experiência com os planos e projetos para as pequenas
cidades suburbanas ou para setores urbanos das cidades maiores.
3. O Conselho Europeu
de Urbanismo
No dia seis de abril
de 2003, aconteceu a primeira reunião do Conselho, que deu origem a sua
fundação. Ela foi organizada pelos arquitetos belgas Christian Lasserre
e Joanna Alimanestianu e por Lucien Steil de Luxemburgo. A administração
foi conjunta com os americanos John Massengale e Bill Dennis. Os lideres
do novo urbanismo nos EUA, Andrés Duany e Stefanos Polyzoides participaram
como consultores para a instalação do CEU. Além de profissionais de escritórios
atuantes na área participaram entidades como: o INTBAU, International
Network for Traditional Building, Architecture and Urbanism, a Prince’s
Foundation for the Built Environment, a Byens Fornyelse (Norwergian Foundation
for Urban Renewal), a instituição A Vision of Europe, o Institute of
Classical Architecture, a Technische Universitāt Berlin, as escolas
de arquitetura da Universidade de Viseu (Portugal), San Sebastian (Espanha),
Ferrara (Itália), Napoli (Itália), Glasgow (Escócia). Dos Estados Unidos
participaram as escolas de arquitetura da Universidade de Miami e Universidade
Notre Dame (16).
Meses depois, no dia
seis de novembro de 2003 se realizou nova reunião, agora na Suécia, onde
foi ratificada a Carta do Novo Urbanismo Europeu ou, Carta de Stockholm.
Este encontro se realizou no bairro Järla Sjö, municipalidade de Nacka,
localizado a 8 km do centro de Stockholm. Julgamos oportuno registrar
a abrangência do novo urbanismo na Europa através da transcrição “in totum”
da Carta e, informar em tópico seqüencial sobre o projeto do bairro Jārla
Sjö, cujo projeto é característico do novo urbanismo e por isto foi o
local escolhido para a reunião.
Os princípios para
planejamento e projeto contidos na Carta apresentam-se a seguir.
Carta do Novo
Urbanismo Europeu
Stockholm, 06 de
novembro de 2003.
Regiões
01. As regiões são
áreas com identidade distinta e reconhecida pelos seus habitantes. Esta
identidade pode ser geográfica, cultural, política ou econômica. As
regiões não devem se confundir com estados ou nações, mas podem corresponder
a fronteiras nacionais.
02. O bem estar
de seus habitantes e a identidade regional constituem o fundamento de
todas as políticas e princípios de planejamento.
03. A região é constituída
pela sua paisagem rural e também pelas ruas, cidades, aldeias e vilas.
Cidades e Vilas
04. As cidades e
as vilas são povoamentos com limites bem definidos, distintos e adensados
onde um número significativo de pessoas possa viver e ter seus negócios.
O adensamento de população facilita a troca de informação e a criação
de instituições cívicas e culturais.
05. As cidades e
as vilas têm por base uma livre coexistência de vida, comércio e comunicações
na proximidade umas das outras. Qualquer segregação significativa de
funções ou pessoas na base dos rendimentos, ocupação ou raça, prejudicará
o efetivo funcionamento e a qualidade de vida de uma cidade ou vila
e tem de ser desencorajada.
06. Para se manter
a identidade de uma cidade ou de uma vila é necessário que elas permaneçam
fisicamente separadas. Os novos empreendimentos não poderão alterar
ou erradicar as fronteiras das cidades e das vilas.
07. As cidades e
as vilas possuem centros bem definidos e reconhecíveis. A identidade
das cidades e das vilas depende do caráter destes centros.
08. Os centros históricos
das cidades e das vilas têm que ser protegidos e revitalizados e, se
necessário, devidamente reconstruídos.
09. As cidades e
as vilas só funcionam com um centro reconhecível. Qualquer povoamento
terá que integrar-se com a cidade ou a vila à qual esta ligada ou organizar-se
como uma nova cidade ou vila com uma fronteira física claramente definida.
10. As cidades e
as vilas têm que possuir uma rede de estradas, ruas, alamedas e espaços
públicos ajustada ao uso e à escala da função que serve. Esta rede ou
malha é a que proporciona o máximo de oportunidades para a circulação
de pedestres, nas condições mais confortáveis e seguras, permitindo
o acesso às outras modalidades de transporte quando necessário.
11. As cidades e
vilas possuem edifícios públicos e institucionais, bem como lugares
de culto. Os edifícios públicos mais importantes devem ocupar um lugar
de destaque na estrutura da cidade ou da vila e a sua arquitetura deverá
contribuir para definir o seu caráter. Os edifícios públicos de menor
importância deverão distribuir-se pelos diversos bairros.
12. Os parques,
campos de recreio e jardins públicos deverão estar distribuídos por
todas as cidades e vilas e deverão funcionar como elementos de coesão
social.
Aldeias e campo
13. As aldeias são
pequenas comunidades, bem delimitadas com origem em atividades agrícolas.
Estas terão de possuir os serviços públicos essenciais e poderão possuir
pequenas indústrias locais. Nos casos em que o declínio ou o desaparecimento
da atividade agrícola transformou as aldeias em áreas residenciais nas
proximidades de cidades ou vilas, o seu caráter deverá ser mantido.
14. O campo é constituído
pelo território natural, agrícola e florestal, é o meio onde todo o
povoamento tem lugar. As vilas, as cidades e as aldeias dependem do
campo em matéria de alimentação bem como para a separação das suas identidades.
Terá que existir fácil acesso ao campo para efeitos de saúde e recreio
da população.
15. As aldeias têm
que manterem-se pequenas e dentro dos seus limites, com uma clara fronteira
entre os seus edifícios e o campo. Se as aldeias se expandirem, ou expandiram
de tal forma que excedam a capacidade dos seus serviços públicos deverão
ser reestruturadas como vilas com as adequadas estruturas físicas e
funcionais.
16. As novas aldeias
deverão ser pequenas, claramente delimitadas e situar-se em meios rurais,
podendo, no entanto não possuir origens ou funções agrícolas. Terão
que conter os serviços necessários à vida do dia á dia, facilidade de
emprego e serviços públicos.
17. Deverá promover-se
uma agricultura bem gerida, a proteção da paisagem, o impedimento do
crescimento urbano de maneira dispersa e a recuperação para o campo
de territórios ao abandono, beneficiando aqueles que fazem do campo
sua vida, bem como os habitantes das cidades, vilas e aldeias vizinhas.
Bairros e vizinhanças
18. Os bairros são
áreas reconhecíveis com os quais as pessoas podem se identificar. Deverão
ser espaços compactos, facilmente acessíveis a pé, possuir usos mistos
e serviços necessários à vida do dia a dia.
19. As vizinhanças
são pequenas áreas das cidades que possuem um uso ou caráter particular,
mas de menor dimensão que os bairros. Este tipo de uso ou caráter poderá
ir de uma simples função - tal como uma rua de serviços ou indústrias
semelhantes - até um tipo de edificação predominante como edifícios
de tijolo aparente, por exemplo.
20. Os bairros e
vizinhanças são elementos primários de desenvolvimento e de renovação
das cidades ou das vilas. Estas são constituídas pelos diversos e distintos
bairros. A identidade dos bairros encorajará os seus habitantes a assumir
a responsabilidade pela sua manutenção e melhoramento. O caráter dos
bairros e das vizinhanças deverá ser apoiado e preservado.
21. a renovação
das grandes áreas de habitação em série, de áreas industriais desativadas,
de campos militares abandonados e de outros grupos de edifícios devolutos
ou sem uso, degradados, deve seguir os mesmos princípios de planejamento
urbano dos bairros ou vizinhanças.
22. Nos bairros
deverá se estabelecer uma oferta diversificada de tipos habitacionais
e de níveis de custo, para atrair população de diferentes idades, raças
e rendimentos e assim promover o seu contato diário. Esta medida estreitará
os laços pessoais e cívicos que fazem as verdadeiras comunidades.
23. Uma economia
sadia e a evolução harmoniosa dos bairros e vizinhanças poderão ser
estimuladas através de tipos pré-definidos de desenho urbano e linhas
mestras de desenvolvimento (regulamentos) acordado entre a comunidade.
Estes regulamentos deverão ser sempre atualizados.
Ruas, praças,
quadras e jardins públicos
24. A arquitetura
e paisagismo urbanos tratam, em primeiro lugar, da criação de ruas e
praças para uso público. Os edifícios e a paisagem devem definir fisicamente
estes espaços e contribuir para o contexto cultural mais vasto do bairro,
da vila e da cidade.
25. As ruas e as
praças devem ser seguras, de uso fácil e interessante para as pessoas.
Quando bem configuradas encorajam o passeio a pé, permitem aos vizinhos
conhecerem-se e estimulam as atividades públicas.
26. A segurança
é essencial na vida urbana. A concepção das ruas e das praças deverá
proporcionar um ambiente urbano seguro, facilmente acessível e aberto.
27. As formas urbanas
e os edifícios singulares deverão ser executados de maneira sólida para
permitir a permanência e continuidade, bem como a mudança e ampliação.
28. Deverá existir
uma estrutura fundiária de pequenos lotes, mantendo assim um bom tecido
urbano e proporcionando o potencial para usos mistos.
29. Nas áreas habitacionais
são essenciais os pequenos parques, constituindo refúgios sociais e
ecológicos e deverão convidar ao seu uso diário.
30. As paisagens,
edifícios e áreas históricas contribuem para a manutenção da continuidade,
permitem a evolução da vida urbana e constituem a base para o desenvolvimento
futuro. Deverão assim ser preservadas, renovadas ou reconstruídas.
Arquitetura e
arquitetura paisagística
31. Os edifícios
singulares deverão estar ligados à sua envolvente de forma sensível.
Este assunto transcende as questões de estilo. A arquitetura urbana
deverá respeitar o contexto histórico e urbanístico do local onde está
inserido, ser diversificada e receptiva ao novo.
32. A arquitetura
e o desenho paisagístico deverão nascer do clima, topografia, história
e práticas construtivas locais, em harmonia e enriquecimento do seu
contexto.
33. Todos os edifícios
deverão proporcionar aos seus habitantes um claro sentido de localização,
clima e tempo. O aquecimento ou o arrefecimento deverão sempre que possível
ser proporcionados ou complementados com meios eficientes de recursos
naturais e tecnologias regenerativas.
Transportes
34. Os transportes
devem ser coordenados a nível regional, entre regiões e dentro das regiões.
Os transportes públicos, os fluxos de pedestres, o uso de bicicletas
(e outras formas de transporte individuais) deverão ser coordenadas
para maximizar a mobilidade e a reduzir a dependência do automóvel particular.
35. Os corredores
de transporte ligam as cidades, os bairros, as vilas, e as vizinhanças.
Estes podem ser vias ou estradas principais, caminhos de ferro, rios
ou parques.
36. Os corredores
de transporte, quando bem planejados e coordenados podem estimular a
integração entre cidades e aldeias e contribuem revitalizar os centros
urbanos. Os corredores de transporte não devem deslocar os investimentos
dos centros existentes.
37. Centros de usos
mistos, compactos, acessíveis a pé, deverão rodear as estações e os
principais pontos de transportes públicos. A vida diária deverá poder
acontecer sem se recorrer ao automóvel particular.
38. A qualidade
das formas urbanas e dos percursos de pedestres deverá prevalecer sobre
as auto-estradas, vias rápidas ou áreas de estacionamento de automóvel.
As grandes áreas para estacionamento de automóveis não deverão sobrepujar
as ruas e praças.
A importância da Carta
decorre do esforço para sistematizar de forma integrada os elementos da
configuração dos espaços do Homem em relação ao espaço natural, estabelecendo
toda a hierarquia possível para sua organização física. Destes princípios
podem resultar códigos e manuais detalhando ainda mais o que poderá ser
o plano e o projeto segundo a ótica do novo urbanismo europeu. Na verdade
esta Carta européia é uma espécie de manifesto também, tratando de aspectos
éticos e de estratégias de política urbana. A classificação inicial dos
princípios em regiões; cidades e vilas; aldeias e campo; bairros e vizinhanças;
ruas, praças, quadras e jardins públicos, ajudam na compreensão de como
podem ser pensados tanto como analise ou projeto as diferentes escalas
da morfologia urbana. Consideradas as peculiaridades de cada país, na
Europa poderão se identificar seções diagramáticas do território no formato
de código e manual (17). Observamos que esta carta européia detalha mais
do que seu documento suporte, a Carta do Novo Urbanismo-Americano, a transição
da região para a vizinhança e o centro urbano, mas não inclui a “mega-city”
citada por Portas, ou seja, questões relativas aos aglomerados de alta
densidade populacional. Não é feito menção a isto e, mas o planejamento
envolvendo uma grande cidade poderá fazer uso dos princípios estabelecidos
pela Carta.
4. Projeto urbano
do bairro Järla Sjö
Järla Sjö é um bairro
da cidade de Nacka (80.000 habitantes), vizinha de Stockholm (788.300
habitantes), na Suécia. Devido à configuração geográfica da região, Järla
Sjö fica distante apenas 8 km do centro da cidade de Stockholm. Sua superfície
é de 10 hectares, a população fixa é de aproximadamente 2.500 habitantes
e possui cerca de 1500 postos de trabalho, ocupados parcialmente por residentes.
Os espaços para comércio e serviços localizam-se em sua grande maioria
nos edifícios industriais preservados. Järla Sjö possui uma escola, diversas
creches, lojas, restaurantes, esportes e demais serviços. Na área central
destacam-se um antigo edifício industrial reciclado para comércio, serviços
e pequenas unidades residenciais.
O setor se desenvolveu
em continuidade a transformação das atividades de uma área que anteriormente
era de predominância industrial. Ali se implantou uma importante indústria
de turbinas, cerca de 1860 por Gustaf de Laval, que só foi desativada
nos anos sessenta do século XX. Alguns anos depois foi implantada a AGA
Company em um sítio lateral ainda dentro de Järla Sjö. Com a saída das
grandes indústrias, a área entrou em declínio sendo ocupada por uma diversidade
de pequenas empresas do segmento de serviços. Desde então devido à acessibilidade
fácil e a beleza do local junto ao lago Järla, se cogitou de mirabolantes
planos de desenvolvimento urbano. Nos anos noventa os proprietários da
área promoveram concurso para um projeto urbanístico cujo vencedor propunha
a demolição da maior parte das edificações existentes e a implantação
de conjuntos de blocos e casas segundo os princípios funcionalistas do
urbanismo moderno. Este plano sofreu uma forte recusa por parte dos moradores
das casas isoladas que existiam no setor e na vizinhança acabando sendo
descartado. Em 1998 Järla Sjö foi adquirida pela Oskarsborg AB, com o
propósito de fazer um projeto que atendesse as aspirações dos moradores
e fosse viável comercialmente. Associou-se a Wihlborgs, companhia imobiliária,
e contrataram os arquitetos Vernon Gracie e Håkan Jersenius como consultores,
para elaborar um novo programa e proposta urbanística.
O novo plano foi acompanhado
pelo departamento de planejamento do município de Nacka. Sua elaboração
se desenvolveu através de consultas a comunidade, para discutir idéias
e objetivos, incorporando-os nas diretrizes do trabalho. Como apoio a
decisão final do que fazer, foi realizada uma exposição conjunta do plano
antigo - concurso de 1990 – e, do novo plano. Publicamente era necessário
se obter um “sim” para a escolha do plano que seria levado a nível executivo
para Järla Sjö. E, com certeza se oficializar o abandono do plano premiado
no concurso.
Nesta época já tinha
sido formado o consórcio das empresas HSB, Riksbyggen e Wihlborgs para
dar prosseguimento ao plano. Ficou estabelecido que a meta fosse construir
um conjunto sustentável do ponto de vista social, ecológico, físico e
econômico. Ao final de 1999 a firma Småstaden Arkitekter AB, da qual o
arquiteto Häkan Jersenius faz parte foi convidada para integrar o grupo
consorciado. Para a construção de toda a obra foi contratada a firma PEAB.
Em seus propósitos,
o plano se caracteriza por:
- selecionar as edificações
para serem preservadas através de critérios técnicos e ausculta à comunidade;
- ocupar os espaços
entre os imóveis selecionados para preservação com edifícios de dois
a quatro pavimentos. Segundo o objetivo de ser mantido baixo coeficiente
de aproveitamento, harmonia com o existente e, valorização das visuais
horizontais;
- organizar os edifícios
em pequenos grupos formando pátios, padrão comum nas pequenas cidades
da Suécia. A opção por pátios é enfatizada por serem muito apreensíveis
pela comunidade, determinando limites claros entre os espaços privados,
de transição e público. Eles dão sensação de segurança para as pessoas,
sentido de lugar e, possibilitam boa interação da comunidade. Eles são
flexíveis, em termos de conceito e contexto, o que favorece o uso múltiplo.
Como resultado, a identidade do lugar pode ser grande e, também a freqüência
dos contatos informais entre as pessoas;
- considerar o tratamento
do espaço exterior à edificação como parte integral da proposta urbanística.
Isto começa com a preservação da vegetação significativa existente (boa
parte das árvores são adultas), áreas de lazer (espaços consolidados
para adultos e crianças), algumas facilidades como, por exemplo, atracadouro
(pier) em utilização e em bom estado de conservação;
- estimular o princípio
de que toda unidade residencial em contato com o chão tenha um pequeno
jardim (espaço de transição, sem qualquer tipo de cerca);
- complementar os
espaços públicos com o plantio estrutural, o que deverá ajudar definir
o sentido de lugar para os diferentes propósitos;
- implantar o sistema
de distribuição interna do tráfego motorizado através de percursos que
permitam continuidade da circulação em relação às vias principais (loop),
evitando-se o sistema de entrada e saída pelo mesmo local (cul de
sac), devido sua falta de eficiência para a infra-estrutura urbana;
- evitar as grandes
áreas de estacionamento, se utilizando parar ao longo das ruas e o uso
das vagas destinadas ao período comercial para os residentes à noite.
Garages de uso público foram previstas em três localidades centrais
de Järla Sjö;
- projetar as edificações
aproveitando o melhor possível a altura do sol que é muito baixa na
latitude local, particularmente no inverno (ou, com maior precisão na
metade do ano, em que a luz solar é rara). Isto influi na forma e orientação
dos telhados previstos para receberem placas solares, além dos cuidados
com as espessas camadas de neve no inverno;
- utilizar o espectro
de cores fortes nas paredes externas, o que é tradicional nos países
nórdicos, para contrastar com a claridade da neve no inverno.
Do ponto de vista
geral de estratégia para a ocupação do território Jārla Sjö seguiu
o processo que ocorreu em diversos pontos da Suécia valorizados pela presença
da água. São locais procurados para moradia, trabalho e de interesse para
turistas e estão sempre próximos a centros econômicos e financeiros maiores
(18).
Notas
1
No artigo “A carta do novo urbanismo norte-americano” apresentamos um
pequeno histórico da eclosão do movimento e os princípios da Carta do
Novo Urbanismo. Integração, n. 37, São Paulo, USJT, nov. 2006.
Republicado em MACEDO, Adilson Costa. “A carta do novo urbanismo norte-americano”.
Arquitextos, n. 082.03. São Paulo, Portal Vitruvius, mar. 2007
<www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq082/arq082_03.asp>.
2
Fonte de referencia para a fundação do CEU, são os websites publicados
pela entidade.
3
O conjunto BEDZED, Beddington Zero Energy Development, localizado no sul
de Londres, além de se utilizar dos princípios de uso misto dos espaços
favorecendo a integração social, oferecerem locais amenos para pedestres
e bicicletas, tem o propósito de reduzir o emprego de energia para 10%.
4
HOWARD, Ebenezer (1898). Garden cities of to-morrow. Cambridge,
The MIT Press, 1965.
5
Em 1920, foi criado o bairro Jardim América na cidade de São Paulo, devido
a empreendimento da companhia inglesa City of São Paulo Improvements and
Freehold Land Company, Limited. Nos EUA, destaca-se a influencia de Howard
no projeto de bairros de subúrbio e cidades, em especial na área de Boston.
6
GOODMAN, David C. The european cities and technology reader: post-industrial
city. London, Routledge. 1999.
7
Indicamos a população junto com as menções às cidades para dar um sentido
de suas dimensões, comparado com dimensões observadas em áreas metropolitanas
de um país da América Central ou do Sul.
8
HERTZEN, Heikki, SPREIREGEN, Paul. Building a new town: Finland’s new
garden city, Tapiola. Cambridge, The MIT Press, 1973.
9
BALJON, L. Parks, green urban spaces in European cities. London,
Birkhauser, 2002.
10
Idem, ibidem
11
BRESSI, Todd, The Seaside debates: a critique of the new urbanism,
New York, Rizzoli, 2002.
12
CHARLES, Prince of Wales. A vision of Britain. London, Doubleday,
1989.
13
KRIER, Leon. Architecture, choice or fate. London, Papadakis Publishers,
2007.
14
As informações relativas ao projeto de Jārla Sjö foram obtidas através
de contatos com o Nacka Kommun e com os arquitetos Vernon Gracie e Håkan
Jersenius. Uma visita ao local foi realizada em julho de 2007.
15
PORTAS, Nuno. “A cidade contemporânea e seu projeto”. In: Dispersão
urbana, diálogos sobre pesquisas Brasil-Europa. LAP, Laboratório de
Estudos Sobre Urbanização, Arquitetura e Preservação. São Paulo, FAUUSP,
2007, p. 112-139.
16
As informações sobre os participantes institucionais foram obtidas nos
websites sobre a criação do Conselho Europeu de Urbanismo, indicados no
item 18. Pertencendo a escola de arquitetura da universidade de Miami,
mas sempre colocado em destaque aparece o Knight Program in Community
Building.
17
Fazemos referencia ao transect diagram, de Duany, Wright e Sorlien,
in SmartCode & Manual, compreendendo seções de espaços do rural ao
centro urbano. Ver DUANY, Andres; WRIGHT, William; SORLIEN, Sandy, et
alt. Smart code and manual, version 8.0. New Urban Publications
Inc. NY. 2005.
18
Principais websites consultados:
www.infobanken.nacka.se/verktyg/in_english.htm
www.ceunet.de/newurbanism.htm;
www.ceunet.org.brugespt.htm;
www.eurocouncil.net/CEU/index_m.htm;
www.ceunet.org/charterpt.htm.
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Järla Sjö. Orla do
lago, à esquerda o edifício principal da indústria antiga, à direita as
áreas de moradias onde foram preservados pequenos edifícios. Fonte: Google
Earth, 23/09/2007

Plano geral mostrando
ao norte o setor onde predominam as unidades residenciais, o centro dominado
pelo prédio multiuso e abaixo o arranjo feito entre o novo e o existente.
Todo o espaço é valorizado pela grande frente para o lago. Fonte: Municipality
of Nacka. Environment and Urban Planning Administration

Frente do lago desenhada
pelo deck de madeira, que caracteriza o acesso público. Julho 2007.
Fonte: Adilson C. Macedo

Área de vizinhança,
edifícios com dois e três pavimentos. Julho 2007. Fonte: Adilson C. Macedo

O percurso de pedestres
junto ao lago faz a ligação de todo o distrito de Järla Sjö. Fonte: Albins

Pátio delimitado por
prédios de 4 a 6 pavimentos. Fonte: Olandsgatan

Pequeno núcleo comunitário
formado por duas edificações existentes. Fonte: Adilson C. Macedo

Prédio multiuso, face
voltada para o acesso ao bairro. Fonte: Adilson C. Macedo

Fachada voltada para
o lago com acesso por dois níveis. A escada, à esquerda tem uma rampa
para transferir bicicletas entre os níveis. Fonte: Adilson C. Macedo

Chaminé preservada
como um símbolo da forte identidade do distrito Järla Sjö. Fonte: Adilson
C. Macedo
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