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| Arte
e paisagem: uma união instável e sempre renovada |
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Vladimir Bartalini, arquiteto, mestre e doutor pela Fau-Usp. Atua profissionalmente na área da arquitetura paisagística desde 1973 e leciona disciplinas de paisagismo em escolas de arquitetura desde 1975. Coordena atualmente o Laboratório Paisagem, Arte e Cultura do Departamento de Projeto da Fau-Usp. |
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| Aves-pipas, soltura das aves-pipa | ||||||||||||||||||||||||||||
A paisagem é objeto de interesse de vários campos do conhecimento – filosofia, literatura, pintura, geografia – e isto prova que nela coexistem as dimensões científicas, psicológicas, estéticas, enfim, a objetividade e a subjetividade. A importância da paisagem para o arquiteto vem da própria multiplicidade de sentidos deste conceito e da imensa gama de possibilidades que oferece à reflexão e à ação sobre o espaço. Por algum motivo obscuro, porém, talvez por pudor de nos debruçarmos sobre um assunto tido por frívolo e secundário – prevenção que vem de tempos distantes e com chancela respeitável, pois não foi Michelangelo se queixar a Francisco de Holanda que “eles pintam na Flandres apenas para enganar a vista exterior, coisas que alegram e que são saudáveis [...], ninharias, tijolos e argamassas, a erva dos campos, a sombra das árvores, pontes e rios, a que eles chamam paisagens, [...] tudo isto feito sem razão, sem simetria, ou proporção [...]”? (1) – nós da arquitetura e urbanismo somos vezeiros em recorrer a tudo o que tiver ares de ciência, um imperativo prático, ou explícito “apelo social” para legitimar nossas preocupações com a paisagem. A própria história da paisagem dá exemplos de que a visada científica e a sensibilidade social não conseguem, sem artifícios, evitar a persistência do olhar estético, nem seria bom e necessário que a aproximação estética da paisagem obrigasse ao divórcio da ciência e à alheação do mundo. Recuperar estas oportunidades estéticas, que preconceitos infundados afastam, foi uma das metas dos experimentos realizados por estudantes do curso de graduação da Fau-Usp no segundo semestre de 2005. Mas a longevidade da relação entre paisagem e arte enseja, antes da exposição dos trabalhos, um breve histórico. Historiadores e estudiosos da paisagem datam a gestação deste conceito no início dos tempos modernos, no caso da civilização ocidental. Ressalvam, no entanto, que na Roma antiga teria até florescido uma cultura paisagística, considerando-se que já ocorria ali uma produção literária, pictórica e in situ tendo a paisagem como tema. De fato, as odes de Virgílio são ricas em sugestões paisagísticas. Não só enaltecem a vida rústica em termos morais, mas também extraem uma poética da terra e exprimem o prazer de contemplá-la. Na pintura destacam-se os afrescos parietais nos pátios exíguos das casas em Pompéia, onde se acha representada a profundidade do campo aberto, com pássaros, águas e flores. Considere-se ainda que Agripa, magistrado romano, proveu a capital do império de jardins, valorizando situações de promontórios, bosques e quedas d’água. São todos argumentos de reforço à hipótese de ter havido, já na Antigüidade clássica, um interesse pela paisagem. Os romanos não tinham, porém, uma palavra que a designasse, e, pela falta desta condição, costuma-se fazer coincidir com o início da era moderna o nascimento da idéia de paisagem, quando o termo passa a comparecer em várias línguas européias. Na mesma época a paisagem é retomada como tema na literatura, desperta o interesse dos pintores e firma compromissos com os jardins. Não é o caso de apresentar aqui as razões, tão bem colocadas por Joachim Ritter (2), que explicam a necessidade de se formular, naquele momento histórico, tal conceito e de atribuir-lhe um valor estético. Basta por ora constatar o grande incremento da produção artística que, desde então, passou a dedicar à paisagem uma atenção e um valor inéditos, elegendo-a como tema trabalhado por artistas da categoria dos van Eyck, de Bellini e Giorgione, ainda no século XV, por Brueghel no seguinte, por Ruysdael, Lorrain e Poussin, no XVII, depois por Constable e tantos outros. A paisagem passa a ser representada na arte, acaba por constituir um gênero de pintura que informa, prepara o olhar e estabelece valores, julgamentos estéticos sobre a própria paisagem. Os jardins, a partir do século XVIII, refletem este movimento, primeiramente na tentativa de materializar as sugestões paisagísticas contidas nas poesias, em seguida na reprodução, em três dimensões, de cenas pintadas sobre uma tela. Ato contínuo, os pintores voltam seu interesse para os jardins e os representam em seus quadros. Arte e paisagem não cessaram, desde então, de se retro alimentar. Quando, na crise do desencantamento com os ideais da modernidade, supôs-se que a arte estava morta, decretou-se a morte da paisagem também. Mas, como diz de modo provocativo Alain Roger, se a paisagem está morta, viva a paisagem! (3) De fato, os conceitos de arte e de paisagem são tão abertos e instáveis que acabam por sobreviver aos cataclismos, embora sofrendo mutações radicais. Tanto que paisagem e arte constituíram uma união bastante fecunda nos anos 1960, com reflexos ainda perceptíveis nos dias de hoje, batizada, bem ou mal, com os nomes de land art, earthworks ou, ainda, arte ambiental. O movimento se formou na contestação à mercantilização da arte, ao poder dos marchands em ditar-lhe os rumos, às imposições das galerias, mas também na crítica às mazelas provocadas pelo capitalismo na carne da Terra. As preocupações quanto à capacidade do planeta de suportar a exploração continuada de seus recursos, a reação contra os efeitos perniciosos da poluição ambiental e, de modo mais dramático, o temor de um desastre nuclear que poria fim definitivo à vida, facilmente desembocavam, naquele momento, num bucolismo que logo revelava seus limites. As relações entre o homem e a Terra, do modo como tradicionalmente vinham representadas na pintura de paisagem, podiam até ser desejáveis, mas já não eram viáveis. Estava então colocado o desafio de expressar, de forma nova e contundente, não só a contestação à exploração econômica desenfreada dos recursos naturais em escala mundial, mas também a crítica ao modo de vida que dá reforço e justificativa a esta exploração. A crítica da vida cotidiana está, portanto, também implicada, direta ou indiretamente, na arte ambiental. Se a crítica do cotidiano, envolvendo “natureza” e “cultura”, teve entre os franceses o seu despontar teórico, credita-se ao inconformismo de um grupo de artistas norte-americanos, nos anos 1960, o pioneirismo em expressá-la esteticamente, tendo por tema e, muitas vezes, também por suporte, o ambiente e até mesmo a paisagem, ainda que fosse para reverter seus significados mais estereotipados. Em 1968, trabalhos de catorze artistas foram expostos numa galeria em Nova York, sob o título “Earthworks” (4). Afora o conteúdo crítico, as obras causaram embaraços pela resistência que opunham à comercialização e ao colecionamento, seja pelas dimensões pouco manejáveis das peças, seja pela não durabilidade dos materiais, seja pela ausência da obra mesma (como nos casos em que vinha representada por fotografias), seja pela efemeridade da intervenção, sujeita a processos que a transformam continuamente até sua destruição. Robert Smithson, reconhecido mentor do movimento da Earth Art, colocou em evidência, num ensaio intitulado “A Sedimentation of the Mind: Earth Projects”, que se tornou uma espécie de manifesto da mostra, os pontos polêmicos que a nova atitude artística levantava: a negação da autonomia e da atemporalidade da arte (leia-se escultura) feita em estúdio; a revisão das noções habituais de paisagem e natureza; a reconsideração do lugar, do local (na língua inglesa “place”, “site”), substituindo o convencionalmente valorizado pelo marginalizado ou banal. Em resumo, um earthwork implicava, para Smithson, em “práticas espaciais”, ou seja, ações e processos, envolvendo conjuntamente as pré-existências de um dado lugar e as intervenções artísticas que marcam, atravessam, constroem ou delimitam um território (5). O movimento superou a fugacidade dos modismos e deitou conseqüências que ainda duram, manifestando-se numa profusão de situações, de formas e de escalas de intervenção, onde encontram lugar tanto a vontade de Robert Morris de substituir o pincel pelo bulldozer, como a quase imaterialidade e o delicado esvaecer de certos trabalhos de Andy Goldsworthy. Foi neste campo fértil de recursos que estudantes do curso de graduação da Fau-Usp exploraram as relações entre arte e paisagem, durante o segundo semestre de 2005. Primeiro estabeleceu-se o lugar que seria o foco dos ensaios: um pequeno e pouco conhecido parque na zona oeste de São Paulo (6). Para o que se propunha, não haveria necessidade de ser obrigatoriamente um parque, mesmo porque era desejável desenredar-se das idéias habituais de paisagem e natureza associadas à maior parte destes espaços verdes. No entanto, deparar-se com processos naturais corriqueiros como a ação das águas sobre o solo, a formação do húmus, o equilíbrio precário da vida, a estabilidade relativa dos minerais, ia ao encontro das intenções mais básicas da experiência, e esta condição o lugar oferecia clara e fartamente. Além disso, pelas próprias características topográficas, era possível investigar ali a dicotomia entre o olhar de cima e o olhar por dentro, e questionar o próprio enquadramento do olhar implícito no conceito de paisagem. As condições de localização, ao mesmo tempo em que introvertem a área – pode-se estar a poucas dezenas de metros dela sem percebê-la – conectam-na decididamente ao espaço metropolitano através da rodovia Raposo Tavares e da avenida Eliseu de Almeida, propondo o desafio estético de expressar as relações entre o lugar e o não lugar, entre o local e o distante. Tratou-se, portanto, não de aplicar um “tratamento estético” à paisagem, nem de fazê-la mero suporte de “obras de arte”, e sim de explorar as possibilidades abertas por aquela e naquela paisagem e pelos processos que nela se manifestam e a constituem. O compromisso com o lugar era inescusável. Algumas propostas foram elaboradas individualmente, outras em grupo. Dadas as limitações de tempo e de recursos, a experiência se ateve aos projetos de intervenção, sem chegar à intervenção propriamente dita. Os temas, as formas de abordagem, os materiais escolhidos foram os mais diversos e, sobre isto, cada trabalho dirá melhor por si. Evidenciar a rede de drenagem camuflada foi o pretexto do trabalho “Recuperando o caminho das águas”, de Adda Ungaretti, Demétrius Borges e Joana Alves, tirando partido das oportunidades de integração entre diferentes espaços livres que tal abordagem propicia. A trajetória das águas também foi o tema de “Esférica”, de Eliza Miyuki Omine, Guilherme Dutra Correia, Paulo Eduardo Alves de Souza Junior e Silvia Kaori Fujisawa, investigando a correlação entre a gravidade, o terreno e as partículas de água. Interesse semelhante, mas com procedimentos e resultados totalmente distintos, está presente em “Fluxos”, de Mario Moura Filho, caso em que o processo de erosão e sedimentação do solo sob a ação da água é pesquisado e expresso esteticamente, mesclando experimentos de laboratório e ensaio fotográfico. Foi outro o processo que motivou a proposta de João Leal Junqueira Vieira e Juliana Megumi Ozaki: o da transformação dos restos vegetais em húmus, no recolhimento do solo da mata, que superfícies refletoras expõem aos passantes. Um fluxo diverso, o da avifauna, levou Lívia Ferraz de Arruda, Marcelo Tome Kubo, Milena Satie Shikasho e Rogério Toshio Takeuti a imaginarem a soltura simultânea de diversas “aves-pipas”, com a execução de um protótipo. Anay Garcia Rodrigues explorou as mudanças na aparência visual e no tato do solo nu, frente às alterações das condições de umidade, amplificando as qualidades sensoriais de um microcosmo. Glaucya de Souza Brigatto e Thabata Pigatti Regiani, em trabalhos separados e com resultados diferentes, exploraram a mesma fonte: as formas e as tonalidades das folhas secas. Dentre as forças da natureza, Cássio Vinicius Pereira e Silvia Sanae Kabashima escolheram o vento e propuseram uma “instalação eólica” no parque. Na rede idealizada por Gabriela Audi Ferreira, transpondo a rodovia Raposo Tavares, o parque e a avenida Eliseu de Almeida, estariam capturados, como numa teia de aranha, os vestígios do local e os trazidos das distâncias pelo vento, relacionando metrópole e lugar. Nas molduras de Mariana Wyse Abaurre pode-se ler comentários sobre o conceito de paisagem derivado da pintura e, por conseqüência, sobre séculos de paisagem na arte, presentes no estudo da própria moldura e nos filtros coloridos para “envelhecer” as cenas enquadradas. Entraram em jogo, portanto, os conteúdos diversos que o lugar e sua situação proporcionam, bem como os temas e as expressões variadas que a paisagem suscita, atestando a vitalidade das suas relações com a estética, apesar das fortes turbulências a que estão sujeitas, ou justamente por causa delas. Aves-pipas Percepções e o nascimento da idéia
Referências
Proposta
Pesquisa e construção de protótipos
Esférica
Húmus Percepção e valorização do visualmente insignificante
Lama Primeiras intenções
Desenvolvimento da proposta
Moldura Enquadramento: constatações
Aberturas: proposta
Queda A idéia inicial foi a de trabalhar com elementos naturais existentes no parque. Dentre eles escolheram-se as folhas caídas, por vários motivos:
Valorizar o que não é notório, trabalhando com a riqueza de percepções que as folhas caídas oferecem, foi o objetivo da proposta. Recuperando o caminho
das águas Inferências iniciais a partir da observação da área do parque e do seu entorno
Proposta Estruturas tubulares metálicas, transpassadas por tecido de lycra drapeada, em diferentes tonalidades de azul, serão dispostas ao longo dos percursos por onde outrora as águas corriam livremente, evidenciando as linhas de drenagem e seu potencial lúdico e integrador. O desenvolvimento longitudinal ondulado das estruturas remete à fluidez dos rios, enquanto a tatilidade da trama dos tecidos de lycra pode ser associada à imersão no elemento água. Rede Primeiras observações e intenções
Proposta
Notas 1 2 3 4 5 6 |
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