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Falta o depoimento de Lúcio Costa
Geraldo Ferraz

Indiscutivelmente, além dos artigos anteriores sobre as origens da arquitetura contemporânea brasileira, provocados pela publicação organizada pelos estudantes da Faculdade Nacional de Arquitetura (Arquitetura Contemporânea no Brasil, Gertum Carneiro Editora, 1947, Rio), há que observar um comportamento por parte das pessoas irrefletidamente envolvidas numa espécie de escamoteação da verdade histórica. A importância que a arquitetura moderna brasileira está adquirindo torna maior a responsabilidade dos que a conduzem, dos que a acompanham e verificam o acerto e a significação de suas soluções, em desdobramento.

Ora, vejo-me envolvido neste assunto porque sou testemunha de meu tempo e a dedicatória daquele livro é um fato chocante para mim – tanto quanto deverá sê-lo para o arquiteto Lúcio Costa, nela visado. Efetivamente, a dedicatória de Arquitetura Contemporânea no Brasil diz, sem hesitação: "Ao arquiteto Lúcio Costa, mestre da arquitetura tradicional e pioneiro da arquitetura contemporânea no Brasil", e, assim, põe na cabeça do ex-diretor da Escola Nacional de Belas-Artes, uma coroa de louros que não lhe cabe. A referida dedicatória repete o mesmo "urbi et orbe", em inglês e espanhol – e a noção que espalha não passa de uma escamoteação da verdade histórica.

De tal maneira, acho estranho o silêncio que se mantém em torno da publicação desse documentário da arquitetura contemporânea do Brasil. Acho estranho o silêncio, a complacência, a espécie de aquiescência indiferente em que se produz essa contrafação histórica.

Quando os organizadores do livro Brazil Buildings passaram em branco a história de uma luta áspera e amarga que foi levada a cabo nesta cidade de São Paulo, por arquitetos que faziam seus projetos e suas casas dentro das novas linhas, fato que eu tenho de repisar para afirmar a primazia que se manifestou aqui, com a construção da primeira casa modernista do Brasil, devido a Warchavchik, ou com a apresentação, em concorrência pública, do projeto de Flávio de Carvalho, para o Palácio do Governo – quando isto ocorreu, perdoa-se aos norte-americanos que chegaram aqui muitos anos depois daquela iniciação, daquele batismo de fogo de tais idéias, de tais realizações, e não se informaram quanto ao princípio das coisas.

Mas a afirmação que atribui ao arquiteto Lúcio Costa o título de "pioneiro", na fachada de uma publicação da importância de que se reveste a Arquitetura Contemporânea no Brasil, não é uma conseqüência de desavisados e mal informados estrangeiros.

A introdução da arquitetura moderna no país custou, efetivamente, alguma coisa. Foi uma doutrinação que sacrificou dias de esforços, meses de trabalho, anos inteiros contra a má vontade, a ignorância, os preconceitos, a má fé, a concorrência desleal. Os arquitetos que em São Paulo, primeiro no Brasil, tentaram a realização da casa moderna, eram uns "futuristas", dizia-se, depreciativamente, com muita ignorância aliás, do que valia o qualificativo, a tendência e do que fôra o movimento "futurista". Não faltou a sordidez infamante, a palavra ardilosa, um processo de desmoralização dos que representavam no Brasil, a corrente da arquitetura mais avançada do mundo. No ano de 1927, repito-o, esses arquitetos eram Gregório Warchavchik e Flávio de Rezende Carvalho. É Flávio que apresenta no Rio, em concorrência pública, também, e pela primeira vez, o projeto da nova Embaixada da Argentina. É Warchavchik quem constrói no Rio, pela primeira vez, uma casa moderna, a da Rua Toneleros, em Copacabana.

Tudo isto é a verdade histórica. Como ainda esta semana dizia, em sua palestra sobre arquitetura na Biblioteca Municipal, o presidente do Instituto de Arquitetos de São Paulo, Sr. Eduardo Kneese de Melo: "No Brasil, a primeira semente foi lançada em São Paulo. Gregório Warchavchik construiu uma casa em Vila Mariana, que o público logo apelidou de "futurista", "cubista" e outros nomes". Portanto, a São Paulo cabe reivindicar para si esta primazia. Ainda em janeiro de 1945, na grande exposição que se realizou aqui por ocasião do 1º Congresso de Arquitetos, o então prefeito, Sr. Prestes Maia, dizia-me, diante do número de novos arquitetos do Rio, que ali se apresentavam, que a primazia do movimento cabia a São Paulo. Estas palavras foram publicadas no Rio, pelo Diário da Noite.

Tudo isto é sabido e conhecido. As afirmações que aqui faço constituem, porém, mais do que uma retificação, um apelo para que não se mantenham em silêncio todos quantos conhecem estes fatos e podem e devem restabelecer a verdade histórica, escamoteada no primeiro documentário que se publica no país acerca da nova arquitetura.

Acho que há uma obrigação moral, uma responsabilidade profissional em jogo, diante desse assunto, ao qual não se está prestando, propositadamente ou não, a devida atenção.

E conhecendo o arquiteto Lúcio Costa e admirando-o, sei que ele não se envolveu neste episódio, senão que foi envolvido, recebendo, inesperadamente, uma homenagem e uma qualificação que ele tem muito nitidamente a consciência que não lhe cabem. Tanto é assim que, em 1931, ao receber o cargo de diretor da Escola Nacional de Belas-Artes, Lúcio Costa convidou Gregório Warchavchik para fazer um curso de arquitetura, no Rio. Aliás, fôra no Rio que o arquiteto Warchavchik, embora residindo em São Paulo, já em 1925, escrevia no Correio da Manhã, de 1º de novembro, um artigo "Acerca da Arquitetura Moderna", que é o primeiro documento publicado no Brasil, preconizando a arquitetura funcional. Pelas obras que ele realizara até então em São Paulo, sabia o arquiteto Lúcio Costa – o qual embora fosse um nome de relevo profissional, apenas construíra dentro dos estilos mais copiados, entre os quais o colonial – sabia o diretor da Escola Nacional de Belas-Artes muito bem o que queria, e era que os alunos da Escola, em fase de renovação, recebessem as lições do "pioneiro" da arquitetura moderna no Brasil.

Igualmente não deveriam ignorá-lo os que hoje conferem o título de iniciador a Lúcio Costa.

Mas acredito que o arquiteto Lúcio Costa não ficará calado. Cabe-lhe vir a público explicar o grosseiro equívoco, em que incorrem os organizadores da Arquitetura Contemporânea no Brasil. Cabe-lhe vir a público a fim de desfazer a estranha escamoteação que se faz da verdade histórica, restabelecendo a hierarquia dos acontecimentos na ordem exata em que se deram, e que, afinal, podem ser documentadamente provados.

Estas linhas se destinam, portanto, a traduzirem um apelo ao arquiteto Lúcio Costa, para que compareça com seu depoimento, de suma importância, desfazendo o falseamento informativo em que começa a ser baseada a história da arquitetura moderna no Brasil.

Tenho certeza de que idoneidade, a probidade do arquiteto Lúcio Costa se colocarão acima de quaisquer contingências, para honestamente prestar mais este serviço à boa causa da arquitetura nacional, que ele esposou e defende, com a sua sensibilidade e a sua inteligência.

Aqui fica o meu apelo ao arquiteto que quando dirigiu a Escola Nacional de Belas-Artes veio buscar em São Paulo para ensinar arquitetura no Rio, o construtor da primeira casa modernista brasileira.

   
  Geraldo Ferraz
Campos Novos 1905/1979
   

 

Publicado no Diário de São Paulo, em 01 de fevereiro de 1948. Republicado em Lúcio Costa: Sobre a Arquitetura, volume 1 (coletânea de textos de Lúcio Costa organizada por Alberto Xavier), Centro dos Estudantes Universitários de Arquitetura, Porto Alegre, 1962, pp. 119-122. Em 1947, organizado pela revista Anteprojeto dos estudantes da Faculdade Nacional de Arquitetura, foi publicado um álbum – Arquitetura Contemporânea no Brasil – que reunia fotografias de projetos e obras construídas, procurando, em linhas gerais, mostrar o trabalho dos arquitetos brasileiros, principalmente a partir de 1940. Era dedicado "ao arquiteto Lúcio Costa, mestre da arquitetura tradicional e pioneiro da arquitetura contemporânea no Brasil". Neste artigo, o jornalista Geraldo Ferraz contestou esta qualificação de pioneiro e solicitou de Lúcio Costa um depoimento para desfazer o que chamou de "falseamento informativo". A resposta de Lúcio Costa está publicada a seguir.

 
           
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