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Uma concepção da cidade de amanhã
Flávio de Carvalho

Não compreendo que se discuta ainda agora o problema da residência isolado do problema da cidade, como não compreendo a discussão dos problemas do homem, sem se considerar a coletividade.

A entrevista que o Diário da Noite me pede deixa de ser um assunto de arquitetura, e não pode ficar apenas numa discussão de casa mínima, da casa standard, da casa racional isolada. Esta entrevista vai ser uma introdução sobre a necessidade da criação de uma casa nova num sistema social que permita à vida humana desenvolver o máximo de suas aspirações.

E para começar é preciso por em relevo a importância da máquina.

No momento em que a máquina traz para a humanidade a idéia gloriosa de economia de trabalho e de eficiência de vida, transformando as primeiras necessidades do homem em coisas praticamente sem valor, encontramos uma boa parte dos povos sem teto adequado e até mesmo sem comida.

Este século veio mostrar que a máquina é um poderoso engenho numa organização social e capaz, pela sua eficiência, de transformar completamente o trabalho de um povo.

Pela primeira vez na história a máquina alcança o caráter de força pertubadora, torna-se o mais importante fator de evolução social, ameaçando transformar completamente o valor relativo das comodidades. Assim é que a habitação, o vestuário e a alimentação de um povo vem tendo o valor unitário consideravelmente diminuído em presença da máquina e da idéia de eficiência. A unidade perde mesmo aos poucos os seus característicos de unidade em destaque, torna-se uma partícula de um todo, a pequena parte de uma inteligência coletiva. E é essa inteligência coletiva que fica sendo a nova unidade em destaque.

No entanto, esta força nova, tremenda, ainda não foi controlada por um espírito coletivo, ainda está nas mãos de particulares, atuando como joguete perturbador, procurando sempre destruir o ímpeto da civilização, o romantismo fogoso da invenção humana. Uma espécie de hara-kiri.

O desenvolvimento técnico da cidade vem mostrar que a casa do homem não é mais o desejo de um particular, mas tem de ser o produto de uma inteligência coletiva.

A cidade inteira será a casa do homem de amanhã e terá como proprietário único o Estado.

A cidade de hoje apresenta um aspecto heterogêneo e ridículo: ela é a imagem ética do patriarquismo burguês em decomposição, e é incapaz de se manter íntegra, de se defender contra os apetrechos agressivos inventados pelo homem. A arte de matar passou de muito a arte de construir e de se defender. Notamos que o aparelhamento agressivo se desenvolveu dentro de um espírito de coletivismo, enquanto que a moradia do homem seguiu o rumo de uma fantasia individualista cretina, se enfeitando com o acúmulo de dinheiro como meio de mundanismo.

A cidade de amanhã será projetada para preencher um certo fim, do mesmo modo que se projeta hoje um motor. Não será uma cidade inteiramente livre, terá as suas emoções limitadas pelo seu destino, pela finalidade a preencher.

O desenvolvimento da agressividade técnica, a aquisição de novas emoções colocam o homem do futuro numa expetativa curiosa, uma mistura dionisíaca alternada de insatisfação e servilismo, impondo como necessidade de vida a criação de um organismo ético não religioso capaz de assegurar uma forma mais coletiva de entendimento, por exemplo o abandono da casa como propriedade particular, como unidade pertubadora e destrutiva na luta pela vida; as diferentes unidades de uma cidade do século XX precisam concorrer para aumentar o índice de eficiência da vida, do contrário arriscaríamos perder a conseqüência do imenso potencial científico acumulado na história e que sem dúvida alguma é uma das forças mais importantes no rumo de uma nova civilização.

Evidentemente as cidades de hoje só podem ser recomendadas, mesmo porque o sistema social em uso é contrário à idéia de eficiência, o novo fator determinante que acaba de nascer com o século XX.

Seria impossível ajeitar uma nova alma dentro da carcaça burguesa – inconveniente, mesmo, porque será logo compreendido que o rendimento gigantesco de uma cidade funcionando pelo espírito coletivo justifica a construção imediata de novas cidades.

A nova arquitetura se impõe dentro da nova alma, sem o dedo do divino mono antropomórfico, sem o passado como enfeite e abandonando mesmo todas as ruínas da decadência patriarcal.

As cidades serão erguidas para agüentar uma vida anímica intensa, serão cidades sugestivas, sem a sombra do deus, com uma visão sempre jovem; serão as usinas que construirão a nova inocência, a do homem sem passado – um novo modo de ser virgem.

* * *

Que eu saiba, só a Rússia deu um passo para a frente, fundando uma sociedade com cinco milhões de ateus capaz de esmagar o velho símbolo e possivelmente erguer a diretriz do homem de amanhã.

   
  Flávio de Carvalho
Barra Mansa 1899/1973
     

Publicado no Diário da Noite, São Paulo, em 17 de março de 1932. Reproduzido, em fac-símile, por Luiz Carlos Daher, Flávio de Carvalho e a Volúpia da Forma, Edição comemorativa MWM-IFK (MWM Motores Diesel Ltda. e Indústria de Freios Knorr Ltda.), São Paulo, 1984.

 
           
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