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congresso que marcou época na história da arte A conferência de La Sarraz De 26 a 30 de junho deste ano, realizou-se no Castello de La Sarraz, perto de Lausanne, o 1º Congresso de Arquitetura Moderna. O público brasileiro não teve, naturalmente, notícias detalhadas e talvez nem sequer sumárias dessa importante assembléia, a não ser por um e outro comentário vago. As agências telegráficas – essas que tão solícitas se mostram quando se trata de transmitir para qualquer parte do mundo, a notícia de um acidente banal – essas, é lógico, deixaram de dar importância àquela reunião de espíritos elevados. Para eles, que são obrigados por contratos com as empresas jornalísticas, a transmitirem quotidianos da vida que se vive em todos os outros pontos, pouca coisa deveria representar, de fato, um congresso de arquitetos que, por motivos culturais e práticos, se reuniam para discutir isso: o futuro de uma das artes mais nobres, a arquitetura. Congressos desse gênero não fazem parte da banalidade de todos os dias ... Dessa forma, os jornais brasileiros, como todos os jornais da América do Sul, não tiveram informação detalhada sobre aquela assembléia. E como também os correspondentes especiais nem sempre são destacados para fins artísticos, o público, a massa de criaturas pensantes que se agita neste imenso país, continuou a ignorar, não só os problemas aventados e discutidos ardorosamente naquele congresso, como também a sua própria reunião. lógico que, sendo assim, se desconheça aqui, em linha geral, a importância que teve aquela grande assembléia para o mundo artístico. Importância que não se limita aos interesses de um único país, que não se circunscreve a um continente tão civilizado como a Europa, mas que se estende a todas as partes da terra onde palpita um coração, onde há um cérebro que raciocina e um sistema nervoso que não se embotou ao influxo das malfadadas academias de beleza. Com efeito, antes de se reunirem os membros do primeiro congresso de arquitetura moderna, todos os grandes problemas dessa arte já tinham sido, não solucionados, mas profundamente meditados por cada um deles, individualmente. Naquela aula memorável, não foram, portanto, discutidas meras questões de ponto de vista pessoal. Os debates se realizaram em torno de verdadeiros núcleos de interrogativas e se concretizaram na explanação de tudo aquilo que as mentalidades mais excelsas da nossa época, naquele ramo de atividade humana, tinham estudado com um amor e com uma força de vontade que deveriam surpreender os próprios "ratos" de biblioteca. Era o que de mais puro, de mais sadio, de mais adiantado e de mais simples, a mentalidade contemporânea tinha, até então, produzido e pensado em matéria arquitetônica. A isto, que significava a primeira afirmação real do espírito moderno nos ambientes intelectuais do mundo, as agências não deram sequer a importância de um desastre de diligência, desses que ainda acontecem em regiões desprovidas de meios de comunicação melhores. Seria de lamentar tal fato. Mas não é. Até certo ponto, é justo que não se mesclem, no mesmo cabo telegráfico, a cachumba de um notário e os arroubos quase místicos de um artista. Os que apoiaram o movimento dos arquitetos modernos Produziram-se por ocasião do Congresso de Arquitetura Moderna, uma série de acontecimentos tão importantes, que a data de 1928 ficará como o sinal de uma profunda evolução. Há sinais especialmente interessantes e ricos em promessas futuras. Vemos, antes de tudo, a reunião espontânea dos arquitetos mais corajosos e mais talentosos que a Europa possui: a resolução que tomaram, a declaração unânime que fizeram a propósito de uma arquitetura que deve expressar o espírito do seu tempo, a sua recusa categórica de empregar nos seus métodos de trabalhos os princípios que movimentaram as sociedades passadas e, finalmente, a sua decisão de tornar a pôr a arquitetura no seu plano verdadeiro, o plano econômico e social. Os que lerem esta declaração oficial, que adiante vai transcrita, saberão o que ela significa pela força de suas vinte e quatro assinaturas e pela tripla proteção de um comitê de patrocínio internacional, composto de homens de Estado, de grande industriais, de intelectuais, de representantes das organizações internacionais. Sobre a folha distribuída no congresso de arquitetura moderna figuram os nomes de M. Benés, ministro das Relações Exteriores da Tchecoslováquia; Brodero, sub-secretário de Estado para a Instrução Pública da Itália; Paul Devimat, diretor do Instituto de Organização Científica de Organização do Trabalho; Richard Dupierreux, chefe das relações artísticas do Instituto de Cooperação Intelectual; Arthur Fontaine, presidente do Bureau Internacional do Trabalho; Jha Loudon, embaixador dos Países Baixos em Paris, Susky, embaixador da Tchecoslováquia em Paris; L. Romier, diretor do "Redressement Français"; E. R. Buehler, industrial de Zurich e presidente da "Werkbund" Suissa; dr. H. C. Bosch, industrial de Stuttgart; Georges Delabart, presidente do Conselho de Administração do Crédito do Norte; Henry Frugés, industrial de Bordeaux; prof. Junkers, industrial de Dessau; Jean Michelin e Gabriel Voisin, grandes industriais de Paris, e vários outros, cuja enumeração seria talvez tediosa. Esses nomes deveriam ser para todos os espíritos de boa fé, a melhor garantia de que aquele congresso era, talvez, a coisa mais séria jamais tentada na história da arte, no sentido de unificar os esforços das grandes mentalidades afim de tornar conhecidos de todos, os produtos do espírito da época em que vivemos. O manifesto O manifesto estava assim redigido: "Os arquitetos abaixo assinados, representando os grupos nacionais de arquitetos modernos, aqui deixam confirmada a sua solidariedade, a sua unidade de opinião sobre as concepções fundamentais da arquitetura, assim como sobre os seus deveres profissionais para com a sociedade. Insistem particularmente sobre o seguinte: construir é uma atividade elementar dos homens, intimamente ligada com a evolução e o desenvolvimento da vida humana. O dever dos arquitetos consiste em se porem de acordo com a orientação de sua época. As suas obras devem exprimir o espírito do seu tempo. Os abaixo assinados se recusam categoricamente a empregar nos seus métodos de trabalho, os princípios que puderam movimentar as sociedades passadas e confirmam, ao contrário, a necessidade de uma concepção nova. Querem uma arquitetura satisfazendo as exigências espirituais, intelectuais e materiais da vida atual. Conscientes das transformações profundas, operadas na estrutura social pelos maquinismos, reconhecem que a transformação da ordem e da vida social fatalmente acarreta uma transformação correspondente do fenômeno arquitetural. O fim exato desta reunião é de conseguir a harmonia entre os elementos presentes, colocando para isto, a arquitetura no seu verdadeiro plano que é o plano econômico e sociológico, livrando-se das influências estéreis das academias conservadoras das fórmulas do passado. Nesta convicção declaram associar-se e ajudar-se mutuamente para poder realizar, moral e intelectualmente, as suas aspirações num campo de ação intencional". Seguem as seguintes assinaturas: Arquitetos: Haering e Hay – Alemanha; Frank – Austria; Victor Bourgeois e Hoste – Bélgica; Lundberg Holm e Hnningsen – Dinamarca; Mercadal e Zavala – Espanha; Neutra – Estados Unidos; Auguste Perret e Le Corbusier – França; Oud e Mart Stam – Países Baixos; Fred Jorbat e Molnás Jarkás – Hungria; Alb. Sartoris e C. E. Rava – Itália; Edvard Heiberg – Noruega; Cyrkus – Polonia; Karl Moser e H. Schmidt – Suiça; El Lissitsky – Russia; Krejcar – Tchecoslováquia. Os delegados da Inglaterra, da Iugoslávia, dos países escandinavos e da América do Sul ainda não foram designados – são membros honorários do comitê os arquitetos: Peter Behrens, H. P. Berlage, Tony Garnier, José Hoffman, A. Loss, E. Saarinen, Van de Velde e Frank Wright, nomes sobejamente conhecidos e célebres no mundo da arquitetura. Aderindo ao Congresso, o Sr. Joseph Vago, um dos arquitetos oficialmente designados para construir o Palácio da Liga das Nações, dirigiu uma carta que foi lida na seção inaugural da assembléia. A carta de Joseph Vago Transcrevemos o trecho mais importante da missiva, que é o seguinte: "Budapest le 20 juin – En lisant le vaste et interêssant programme du congrés préparatoire d' rchitecture moderne que mon ami (Prof. Joseph Hoffmann, Vienne) m'a envoyê, j'ai le grand désir de participer a ces trauvaux. Un de mes trauvaux, um petit club, exécuté déj en 1912 et publié dans L'architecture (aut 1926) témoigne avec ses minces colonnes en béton armé – de mes idées sur l'art. Il est vrai que mon dernier travail, le project – concours pour le palaisde la S.D.N. ne pouvait pas contenter mes confréres, parce que à cause de manque de temps et um peau aussi par opportunité je ne l'ai pas créé selon mes voeux, mais malgré ça je suis resté l'artiste moderne de conviction. Or, définitivement nommé entre les architectes chargés de l'édification du palais, je conduis contre les autres architectes collaborateurs une lutte desespérée pour la réussite des idées modernes. C'est à cause de cel que je désirerais d'au tant plus consulter mes confréres modernes, et demander leur appui moral dans la ferme conviction que la victoire de la modernité dans la construction du palais de la Societé des Nations signifie la victoire définitive de l'art moderne (Assig) Joseph Vago". – Transcrito de "La suisse", Genebra, de 3-7-28) [Budapeste, 20 de julho. Lendo o vasto e interessante programa do Congresso preparatório de arquitetura moderna que meu amigo (prof. Joseph Hoffman de Viena) me enviou, fiquei interessado em participar destes trabalhos. Um de seus trabalhos, um pequeno clube, já executado em 1912 e publicado em L’Architecture (agosto/1926), testemunha – com suas delgadas colunas em concreto armado – minhas idéias sobre a arte. É bem verdade que meu último trabalho, o projeto-concurso para o Palácio da S.D.N., não podia agradar meus colegas, já que devido a falta de tempo e também de oportunidade, não pude criá-lo conforme desejava, mas apesar disto continuo sendo um artista moderno por convicção. Ora, definitivamente nomeado entre os arquitetos encarregados da execução do palácio, travei uma luta desesperada contra os outros arquitetos colaboradores pela vitória das idéias modernas. É por isso que eu gostaria tanto de consultar meus colegas modernos e pedir-lhes apoio moral na estrita convicção que a vitória da modernidade na construção do Palácio da Sociedade das Nações significa a vitória definitiva da arte moderna. Assinado Joseph Vago."] Vê-se perfeitamente, pelo que vai acima esclarecido, que o 1º Congresso de Arquitetura foi de fato o que se poderia chamar a pedra fundamental dessa grande obra que ser a arquitetura do porvir. Dos problemas ali aventados, e que trataremos de explanar logo que se apresentar oportunidade, nenhum foi definitivamente solucionado. Se o fossem, talvez arte moderna teria tido naquela memorável conferência, a sua sentença de morte. Todavia, uma coisa ficou assentada: a reunião dos esforços de cada um, afim de ser atingido o ideal de todos, por meio de propaganda intensiva e extensiva e por meio da realização de obras arquitetônicas exclusivamente feitas para o predomínio do espírito novo. O significado de uma assembléia A realização de semelhante meeting, com a repercussão por ele operada no espírito de todos aqueles que procuram adivinhar o ritmo do tempo moderno, tem um significado essencial. Veio provar que, nesta época febricitante, que os passadistas tanto se comprazem em denominar "materialista" e "pueril", os modernistas são precisamente os únicos que não abandonaram a intensidade e a continuidade da vida intelectual, iniciada e levada a muitas glórias pelos nossos antepassados. Veio provar que um problema de arquitetura é ainda, para uma incontável legião de gente culta, uma coisa digna de ser tratada com o mesmo carinho com que, no passado, artistas e filósofos tratavam os pontos inquietantes que a elevação cultural no tempo em que vieram lhes propunha para serem resolvidos. Arquitetura moderna, como arte moderna em geral, não é um capricho, é uma realidade, uma urgência, uma premência do tempo histórico na mente daqueles que pensam. H fatos que provam exuberantemente, o que dizemos; o 1º Congresso de Arquitetura Moderna é um dos tantos que já se conhecem. Só não os compreender nem ver aqueles que, fechado na sua torre de banalidades e de repetições, for cego para a vida imensa e fremente que palpita ao seu redor. Quem meditar a sério sobre a função da arte e, mais ainda, sobre o significado da obra artística na vida dos povos, saber que os apóstolos das novas estéticas, ainda são os únicos que tentam engrandecer, positivamente, o valor da vida humana, seja dando-lhe o conforto que a civilização justifica, seja ampliando-lhe as possibilidades expressivas dos seus sentimentos. |
Este é o 5º de uma série de 10 artigos escritos por Gregori Warchavchik para o jornal Correio Paulistano no final do ano de 1928 e que tinha como título geral "Arquitetura do Século XX". Republicado na revista Óculum 3, FAU PUC-Campinas, março de 1993. Texto levantado pelo professor Agnaldo Aricê Farias e reproduzido em sua dissertação de mestrado intitulada Arquitetura Eclipsada: notas sobre história e arquitetura a propósito da obra de Warchavchik, introdutor da arquitetura moderna no Brasil. |
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