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Monlevade À guisa de introdução: "A vila foi concebida tendo em vista o espírito de camaradagem e solidariedade humana de seus habitantes." (Roy Nash, The Conquest of Brazil.) "Um trabalhador deve estar habilitado a viver, com sua família, saudável e confortavelmente." (John Nolen, The Subdivision of Land.) "Os requisitos de beleza são, em grande parte, idênticos aos de eficiência e economia; a principal diferença destes é que querem uma interpretação mais acurada na transformação de meio em fins do que é necessário para atender um padrão meramente econômico. Tanto quanto nos é possível distinguir entre os requisitos de beleza e os de economia, o tipo de beleza mais almejado no planejamento das cidades deve ser aquele que resulta da avaliação instintiva com um agudo senso crítico das ilimitadas oportunidades que se apresentam no curso da solução dos problemas mais práticos, no sentido de uma escolha acertada entre soluções que têm, fundamentalmente, o mesmo mérito econômico, mas de qualidades estéticas muito diferentes. "Os aspectos artísticos não devem ser considerados nem antes nem depois dos objetivos práticos visados, mas devem constantemente acompanhá-los." (F. Law Olmsted, City Planning.) * As três citações em epígrafe estão em inglês no original. Não nos tendo sido possível visitar o local (embora conheçamos a região), nem tampouco dispor de elementos que permitissem uma estimativa honesta ainda que aproximada do custo das diferentes obras a realizar, procuramos, na solução adotada, levando na devida conta a acentuada aclividade do terreno atender ao seguinte: 1) Evitar os inconvenientes, difíceis sempre de remediar, dos delineamentos rígidos ou pouco maleáveis, procurando, pelo contrário, aquele delineamento que se apresentasse como mais elástico, tornando assim fácil a sua adaptação conveniente às particularidades topográficas locais; 2) Reduzir ao mínimo estritamente necessário as despesas com movimentos de terra que, supérfluo se torna frisar, tanto poderiam encarecer o custo global da obra; 3) Prejudicar o menos possível a beleza natural do lugar a que se refere, muito a propósito, o programa. Tais requisitos aconselham, de maneira inequívoca, a adoção do sistema construtivo há cerca de vinte anos preconizado por Le Corbusier e P. Jeanneret, e já hoje por assim dizer incorporado como um dos princípios fundamentais da Arquitetura Moderna os pilotis: "Não se estará mais à frente ou atrás da casa, mas sob a casa." Em francês no original. Com efeito, no caso em apreço, o emprego dos pilotis se recomenda, ou melhor, se impõe, por vários motivos: a) dispensa, para a implantação da obra, movimentos de terra, seja qual for a aclividade local; b) reduz de 90% a abertura das cavas e respectivas fundações; c) permite o emprego, acima da laje livre, portanto, de qualquer umidade de sistemas construtivos leves, econômicos e independentes da subestrutura, como, por exemplo sem nenhum dos inconvenientes que sempre o condenaram aquele que todo o Brasil rural conhece: o barro-armado (devidamente aperfeiçoado quanto à nitidez do acabamento, graças ao emprego de madeira aparelhada, além da indispensável caiação); uma das particularidades mais interessantes do nosso anteprojeto é, precisamente, essa de tornar possível graças ao emprego da técnica moderna o aproveitamento desse primitivo processo de construir, quiçá dos mais antigos, pois já era comum no Baixo Egito, e que tem, ainda, a vantagem de simplificar extraordinariamente a armação da cobertura, aliviada pelos pés-direitos da própria estrutura das paredes internas; d) torna fácil manter para todas as casas em razão dos poucos pontos de contato com o terreno orientação vantajosa uniforme; e) restitui ao inquilino protegido do sol e da chuva toda a área ocupada pela construção, assim transformada em espaço útil, o mais agradável talvez para trabalhos caseiros, recreio, repouso, etc., importando essa aquisição, efetivamente, numa sensível valorização locativa do imóvel. Tais vantagens: economia nos movimentos de terra, economia nas fundações, economia na construção das paredes, tanto externas como divisórias, economia na armação da cobertura, melhor orientação, aumento no valor locativo e, ainda, de quebra, a economia de uma porta a da cozinha compensam de sobra o pequeno aumento inicial de despesa que representariam: 1) apenas o ferro necessário à armação da laje, porquanto o concreto nela empregado (8 cm) teria sido forçosamente gasto no lençol impermeabilizador (10 cm), caso assentassem as casas, como é usual, sobre o próprio terreno; 2) os poucos pilares e vigas necessários, estas reduzidas ao mínimo, graças ao aproveitamento racional dos respectivos balanços; 3) uma escada extraordinariamente simples, com pisos soltos de concreto sem revestimento e cujo traço obedece ao das escadas de bordo. Assim fixado o partido geral, examinemos as plantas. Os modelos apresentados junto ao programa, a título de esclarecimento, sugeriram, para as casas, a adoção do seguinte sistema, aliás muito em voga: quartos em comunicação direta para a sala comum, a fim de evitar espaço perdido. Ora, tal solução, aparentemente razoável, resulta, na prática, por vezes, inconvenientíssima no presente caso por exemplo. Para nos certificarmos disto, bastará atentar no seguinte: 1) a sala para a qual se abrem diretamente tantas portas é de pequenas dimensões; 2) é a única da casa; deverá servir, portanto, de sala de estar e jantar a um tempo; daí se deduz que, além da impossibilidade de uma arrumação inconveniente das peças, toda e qualquer intenção de sossego já não diremos aconchego se acharia de antemão comprometida pelo vaivém da circulação obrigatória, abertura de portas, ruídos, etc. O emprego, dentro do limite estritamente necessário, de um espaço interno para o degagement dos quartos e banheiro, é, nestes casos, não apenas legítimo, mas indispensável ao conforto dos moradores mesmo operários porquanto, longe de ser perdido, será, de todos, o mais servido, com a vantagem de restituir, além do mais, à sala comum que, de outra forma, se teria transformado ela toda em corredor a sua principal finalidade, ou seja: um lugar onde se possa estar, ao menos, tranqüilamente. Ousamos prever banheiro mínimo indiferentemente para todas as casas. O acréscimo de despesa que tal inovação (!) representa sobre o clássico metro quadrado com latrina e chuveiro por cima os moradores que se arranjem é tão pequeno, que um aumento insignificante de alguns cruzeiros no aluguel mensal terá coberto, em certo número de anos, o capital empregado e respectivos juros. Não se diga que, por estarem os nossos operários pouco habituados a esse conforto ele não se justifica: a prevalecer tal argumento, deveríamos todos abdicar dos benefícios da civilização e retroceder, coerentemente, ao primitivismo mais rudimentar. Quanto às plantas dos demais edifícios armazém, escola, clube, cinema, igreja desnecessário se torna aqui apreciá-las: os desenhos dizem melhor; chamaremos apenas a atenção para a simplicidade e clareza de todas elas, qualidades que, logicamente, se refletem nos cortes e elevações. Embora atribuindo a cada edifício o caráter próprio à sua finalidade, procuramos manter, em todos, aquela unidade, aquele ar de família a que já nos temos referido e que, repetimos, caracteriza os verdadeiros estilos. Notemos, a seguir, certas particularidades do projeto. Seria empregada em todas as construções cobertura uniforme de Eternit não somente devido à leveza, durabilidade e apreciáveis qualidades isotérmicas desse material, como por ser ele de procedência belga e de aquisição possivelmente vantajosa para a Companhia (isenção de direitos, e outras). Constando de uma água apenas a cobertura das casas, e de duas as dos demais edifícios, as calhas e condutores foram reduzidos ao mínimo. O concreto-armado em todos os prédios inclusive nos mais importantes não deveria levar qualquer revestimento, mas simples caiação ou pintura adequada. Para os forros, seria adotado o seguinte critério: cinema e igreja laje de concreto, com espessura mínima e trabalhando à face inferior das vigas; armazém e clube caiação direta sob as chapas de Eternit; escola e casas taquara convenientemente esticada sob barroteamento de 1" x 3", afastado cerca de 0,50 m de eixo a eixo, tendo, para o remate com a parede, e à guisa de mata-junta, uma simples ripa de 0,01 x 0,04 m. Quanto às esquadrias, a distribuição seria a seguinte: a) casas elementos uniformes de 1 m x 1 m, caixilho e veneziana trabalhando externamente, tipo guilhotina (peitoris 0,95 m); seriam previstas, em todos os cômodos, saídas de ar junto ao forro; portas de cedro folheado, sem pintura, apenas enceradas (folhas de 0,75 m x 1,95 m); b) clube venezianas fixas na parte superior dos vãos e caixilhos na parte inferior (guilhotina); c) escola caixilhos basculantes; d) armazém e igreja caixilhos de concreto Casa Sano, de 0,30 m x 0,30 m, com vidros fixos ou lâminas formando venezianas; na igreja tais vidros poderiam ser de cor azul, para fazer contraste com as paredes caiadas de branco, contribuindo, além disso, para criar uma certa atmosfera de recolhimento aconselhável, ao que parece, nesse gênero de edifícios. Excluídas as venezianas, todos os demais caixilhos destinados à ventilação, seriam tratados à maneira das janelas de rótula tão comum nas antigas casas da região. O clube e a escola foram estudados de forma a permitir o acesso por níveis diferentes, tornando assim fácil adaptá-los ao lugar, conforme se vê na sugestão apresentada; o coreto acha-se localizado de maneira a poder servir simultaneamente ao clube e à praça; o salão de festas seria todo caiado de branco, com os alizares pintados de azul, conservando-se as venezianas e caixilhos na cor natural do cedro, com acabamento apenas de óleo fervido. A ornamentação para festas seria feita com flores de papel, formando grandes festões pendurados ao teto, bandeirolas, etc., procurando-se assim conservar aquele charme um tanto desajeitado, peculiar às festanças da roça. Passemos, agora, às indicações complementares e considerações de ordem geral. Apresentamos, incorporado ao estudo, porém como simples sugestão, um tipo econômico de mobiliário, adequado às casas projetadas e composto de peças de grande simplicidade de execução (na verdade, quase que exclusivamente trabalho de carpinteiro). Aproveitar-se-ia, para tanto, possivelmente, a instalação que tivesse servido, durante as obras, ao fabrico de esquadrias, etc., e, a título de propaganda e educação dos futuros moradores da vila, seriam expostas por ocasião da inauguração das primeiras casas uma, mobiliada com os móveis standard recomendados, outra, com o mobiliário disparatado de que habitualmente se entulham as casas operárias à imitação dos não menos entulhados interiores burgueses. A arrumação da casa modelo poderia ser completada com utensílios de uso doméstico, econômicos e despretensiosos, vendidos no armazém local: esteiras ou tapetes de corda, linon com desenhos simples de pintas ou xadrez, louça toda branca, vasos de barro, etc., etc. Neste particular, seria de toda a conveniência à administração da vila simplesmente proibir a venda, no referido armazém, de setinetas, falsos brocados e toda essa quinquilharia de mau gosto com que indústria baratas costumam inundar os subúrbios e o interior. E, a fim de estimular o interesse pela conservação não pelo enfeite das casas, seria curioso aplicar-se à Monlevade o exemplo da S.K.F., na Suécia: todos os anos, em dias não estabelecidos previamente, uma comissão examina as casas, conferindo como prêmio, às mais bem conservadas, dispensa do aluguel por prazo que varia de um a doze meses. Quanto à vegetação, além do aproveitamento das árvores existentes previsto no edital seria de toda vantagem um plano completo que não se limitasse às ruas e praças, mas incluísse nos seus cuidados os próprios jardins das casas, contribuindo assim para a harmonia do conjunto. A administração da vila deveria também proibir terminantemente a poda de árvores e arbustos em formas bizarras ou geométricas, pois constitui um dos preceitos da urbanização moderna o contraste entre a nitidez, a simetria, a disciplina da arquitetura e a imprecisão, a assimetria, o imprevisto da vegetação. Ao longo da via férrea seriam plantadas, de ambos os lados, touceiras contínuas de bambus, formando-se assim, artificialmente e sem maiores despesas, um verdadeiro túnel que atenuaria o ruído, eliminaria a poeira, melhoraria o aspecto. As ruas pedidas deveriam conservar, tanto quanto possível, aquela feição despretensiosa peculiar às estradas fazendo-se, em vez de calçadas, simples caminhos de placas de concreto fundidas no lugar e com juntas de gramas, para se evitarem as trincas futuras; atualização das velhas capistranas. A área restante reservada para o desenvolvimento futuro da vila poderia ser, desde logo, aproveitada em benefício dos moradores, nela instalando-se horta e pomar. Não se podendo razoavelmente pretender que os próprios operários tenham ânimo ou disposição para os cuidados que uma plantação dessa natureza requer, os seiscentos ou mais inquilinos formariam uma cooperativa, confiando-se as plantações a certo número de hortelãos. As casas foram agrupadas duas a duas, de cada lado de uma parede meeira de alvenaria de pedra ou tijolo, sem revestimento, apenas caiada como todo o resto da construção tanto por motivos de ordem econômica, evidentes, como também de ordem plástica, porquanto soltas umas das outras, pequenas demais como são, poderiam parecer mesquinhas na paisagem. Assim, aquela fila de casas que serpenteia ombro a ombro ao longo das ruas e que tão bem caracteriza as cidades do nosso interior, foi voluntariamente quebrada, para permitir maior intimidade, relativo isolamento pois talvez já não tenha sentido, para os operários de uma indústria tão ruidosa, aquele gosto de vizinhança de que Roy Nash soube dizer tão bem: "Por que colocar minha casa no meio de um jardim, quando posso construí-la tão perto da de meu amigo João, a ponto de poder aconselhar-me com ele sobre o gado e as colheitas, sem sair de minha rede?... Deus sabe quanto silêncio e solidão existe no sertão!" Finalmente procuramos, com particular empenho, respeitar o edital no ponto em que determina, referindo-se ao conjunto da vila: "Deverá transpirar a alegria de viver e o contentamento de seus habitantes... dar uma impressão risonha e clara" e isto, não que tivéssemos em vista a Leica dos turistas bem nutridos e apressados que lhe poderão vir a percorrer, acaso, as ruas, mas a única felicidade possível daqueles que, certamente, nela terão que viver todos os seus dias, contribuindo em silêncio ao bem-estar de tantos outros e colaborando, de maneira decisiva, para a prosperidade sempre crescente da Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira S.A. |
Memorial descritivo do anteprojeto para a Vila de Monlevade, próxima a Sabará, Minas Gerais, objeto de um concurso promovido pela Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira. Publicado na Revista da Diretoria de Engenharia da Prefeitura do Distrito Federal, nş 3, volume III, maio de 1936. Republicado em Lucio Costa: Sobre a Arquitetura, volume 1 (coletânea de textos de Lúcio Costa organizada por Alberto Xavier), Centro dos Estudantes Universitários de Arquitetura, Porto Alegre, 1962, e posteriormente em Lucio Costa. Registro de uma vivência, Empresa das Artes, São Paulo, 1995. |
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