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depoimento O meu testamento não será demasiado longo. Ninguém jamais contestou a meu bom amigo Gregório Warchavchik a prioridade de haver construído as primeiras casas modernas do Brasil, nem que tais casas foram edificadas primeiro em São Paulo e depois aqui; ninguém tampouco desconhece a saudável ação demolidora de Flávio de Carvalho, nem o quanto foi dura e ingrata para todos nós – pois embora retardatário, também recebi o meu quinhão – a tarefa de implantar num meio alternadamente desinteressado ou hostil, a nova maneira de conceber, projetar e construir. Movimentos semelhantes e igualmente penosos ocorreram por essa época, a bem dizer, em todos os países, como conseqüência da campanha mundial movida pelos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna, os CIAM. Essa "verdade histórica" não está, nem poderia estar em jogo. O que está em jogo e aguça a curiosidade perplexa dos arquitetos e críticos de arte europeus e americanos, não é propriamente saber quando, nem como ou por quem a nova concepção arquitetônica foi trazida para o nosso país, mas, sim, por que motivo, enquanto por toda a parte a arquitetura nova conservou-se mais ou menos limitada às fórmulas do conhecido ramerrão, ela irrompeu aqui, bruscamente, cerca de doze anos depois de haver sido experimentada pela primeira vez, sem maiores conseqüências, com tamanha graça e segurança de si, com feição tão peculiar e tão desusado e desconcertante vigor? Essa a questão que importa e para cujo esclarecimento a obra pioneira do nosso querido Gregório e a personalidade singular do Flávio de nada podem adiantar, porquanto o que se passou até aqui teria ocorrido, sem alteração sequer de uma linha, ainda quando o primeiro houvesse realizado a sua obra alhures, e o segundo espairecesse exilado, desde bebê, em Paris ou na Passárgada. E isto porque as realizações posteriores ao "advento" do arquiteto Oscar de Almeida Soares – que se assina Oscar Niemeyer – e que alcançaram tamanha repercussão no estrangeiro, tem vínculo direto com as fontes originais do movimento mundial de renovação tendente a repor a arquitetura sobre bases funcionais legítimas. Não foi de segunda ou terceira mão, através da obra do Gregório, que o processo se operou: foram as sementes autênticas, em boa hora plantadas aqui por Le Corbusier, em 1937, que frutificaram. Foi efetivamente a presença desse criador de gênio, especialmente convidado pelo ministro Capanema, e o seu convívio diário, durante três meses, com o talento excepcional, mas até então ainda não revelado, daquele arquiteto, por assim dizer predestinado, que provocaram a centelha inicial, cujo rastro logo se expandiu graças à circunstância feliz de se haverem podido aplicar imediatamente os benefícios decorrentes de tão proveitosas experiências: primeiro, na elaboração do projeto definitivo e na construção do edifício do Ministério da Educação e Saúde, e, logo depois, em Nova York, no ano de 1938, na organização do novo projeto para o pavilhão do Brasil na feira mundial daquela cidade. Foram esses os fatores determinantes do surto avassalador que se seguiu. Pois, sem pretender negar ou restringir a qualidade, em certos casos verdadeiramente original e valiosa, da obra de nossos demais colegas, ou o mérito individual de cada um, é fora de dúvida que não fôra aquela conjugação oportuna de circunstâncias e a espetacular e comovente arrancada de Oscar, a Arquitetura Brasileira contemporânea sem embargo de sua feição diferenciada, não teria ultrapassado o padrão da estrangeira, nem despertado tão unânime louvor, e não estaríamos nós agora, a debater tais minúcias. Não adianta, portanto, perderem tempo à procura de pioneiros – arquitetura não é "Far-West"; há precursores, há influências, há artistas maiores ou menores; e Oscar Niemeyer é dos maiores; a sua obra procede diretamente da de Le Corbusier, e, na sua primeira fase sofreu, como tantos outros, a benéfica influência do apuro e elegância da obra escassa de Mies van der Rohe, eis tudo. No mais, foi o nosso próprio gênio nacional que se expressou através da personalidade eleita desse artista, da mesma forma com já se expressara no século XVIII, em circunstâncias, aliás, muito semelhantes, através da personalidade de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Ambos encontraram o novo vocabulário plástico fundamental já pronto, mas de tal maneira se houveram casando, de modo tão desenvolto e com tamanho engenho a graça e força, o refinamento e a rudeza, a medida e a paixão que, na sua respectiva obra, os conhecidos elementos e as formas consagradas se transfiguraram, adquirindo um estilo pessoal inconfundível, a ponto de poder afirmar que, neste sentido, h muito mais afinidades entre a obra de Oscar, tal como se apresenta no admirável conjunto da Pampulha e a obra do Aleijadinho, tal como se manifesta na sua obra-prima que é a igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto, do que entre a obra do primeiro e Warchavchik – o que, a meu ver, é significativo. Quanto à minha contribuição para a formação dele, foi bastante discreta. Conforme tive ocasião de esclarecer certa vez em conversa ao Sr. Barão de Saavedra, limitou-se ao jardim da infância profissional e nunca se viu professor de primeiras letras pretender participar da glória dos grandes homens. A que atribuir então o título indevido e impróprio, conferido à minha revelia, por alguns arquitetos, ex-alunos da antiga Escola Nacional de Belas-Artes, responsáveis pela publicação que dá motivo ao presente depoimento? Sem falsa modéstia, e uma vez que a lisonja deve ser desprezada, atribuo aquela iniciativa à posição um tanto especial que ocupo no quadro geral dos acontecimentos que então sucederam e ao propósito de quererem assinalar, de alguma forma, essa minha participação indireta no processo de que resultou a evidência da Arquitetura Brasileira contemporânea*** Participação que também assinalo para evitar qualquer interpretação menos exata e que teria consistido nisto que passo a enumerar. *** Nota do autor: Essa própria expressão usada em vez de "moderna" – termo mais restritivo – parece indicar de parte dos organizadores da publicação o propósito de não particularizar, a fim de tornarem mais ampla a imerecida homenagem e de assim evitarem a confusão que afinal ocorreu. 1º – Na tentativa efêmera de reformar o ensino oficial da Belas-Artes, muito particularmente o da Arquitetura. 2º – Na iniciativa de convencer ao ministro Capanema, com o apoio discreto mas decisivo do Sr. Carlos Drummond de Andrade, então o seu diretor de gabinete, da imperiosa necessidade da vinda de Le Corbusier, numa época quando tudo parecia concorrer para tornar inviável semelhante empresa. 3º – Na disposição de procurar sempre favorecer a evidência dos novos valores, ainda quando tal atitude não fosse, então, devidamente apreciada pelos principais interessados; e no fato de haver sabido afastar-me quando percebi que a minha presença já pesava e tolhia a iniciativa dos demais. 4º – Na possível influência que, mesmo de longe, o meu apego igual e constante aos monumentos antigos autênticos e às obras novas genuínas – pois que são em essência a mesma coisa – teria exercido sobre o espírito das novas turmas, contribuindo assim, talvez, para neutralizar o complexo "modernista", vício de que jamais deram mostra os verdadeiros mestres europeus, mesmo nas fases mais acesas da contenda, e contra o qual é necessário insistir agora, à vista de certos maneirismos afetados e de mau gosto, e de uns tantos clichês repetidos fora de propósito, pecado "neomodernista" em que vêm incidindo alguns representantes menos avisados ou amadurecidos, senão apenas mais afoitos, da nova escola. 5º – Na rejeição do critério simplista que pretende considerar a Arquitetura moderna como simples ramo especializado da Engenharia, e no conseqüente reconhecimento da legitimidade da intenção plástica consciente ou não, que toda a obra de Arquitetura, digna desse nome – seja ela erudita ou popular – necessariamente pressupõe. E agora, finalmente, antes de concluir, devo ainda abordar a sua referência à obra Brazil Builds do Sr. Goodwyn: da única vez que recebi a visita desse benemérito senhor, prestei-lhe as informações que me ocorreram no momento, tendo dado o devido destaque à obra do Warchavchick, bem como indicado a casa da Rua Toneleros, havendo até referido a propósito, se não me engano, a visita do velho Frank Lloyd Wright – o simpático campeão do "mozarlismo" modernista – àquela casa e assinaldo a impressão forte que parece lhe haver causado certo balcão em balanço, pois esse pormenor teria, de algum modo, influído na concepção igual de uma residência que construiu logo a seguir. São estes os esclarecimentos que me cumpria prestar em atenção ao apelo. Amigo pessoal do Gregório e, de longa data, admirador de sua obra, teria preferido nunca tratar desse assunto, tanto que sempre me abstive de abordá-lo, mesmo em conversa particular. Mas já que me exigem a "verdade histórica", aí a têm. Compreendo a sua veemência de amigo e aprecio o seu zelo policial de guarda dessa verdade, pois do pouco ou muito que fazemos é o que perdura; apenas lamento que a falta de informação adequada o houvesse levado a umas tantas insinuações descabidas, e ao mau vezo de pretender reavivar sem motivo, certo ranço de bairrismo dantes justificável e natural devido à crise de crescimento, mas já agora inconcebível numa cidade adulta como São Paulo. |
Datada de 20 de fevereiro de 1948 e publicada n'O Jornal, de 14 de março de 1948. Republicada em Lúcio Costa: Sobre a Arquitetura, volume 1 (coletânea de textos de Lúcio Costa organizada por Alberto Xavier), Centro dos Estudantes Universitários de Arquitetura, Porto Alegre, 1962, pp. 123-128, e posteriormente em Lucio Costa. Registro de uma vivência, Empresa das Artes, São Paulo, 1995. Trata-se de uma resposta ao artigo de Geraldo Ferraz, "Falta o Depoimento de Lúcio Costa", de 01 de janeiro de 1948. |
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