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Arquitetura colonial
Mário de Andrade

I

Os arquitetos brasileiros andam trabalhando num estilo de casa a que chamam de Colonial ou de Neocolonial. Por mais que certas idéias e tendências modernas se tenham incrustado na minha cabeça, não acho um mal isso não. Mas não posso achar que seja um bem apesar de todo o meu entusiasmo pelo que é brasileiro. Meu espírito a esse respeito anda numa barafunda tamanha que resolvi adquirir idéias firmes sobre o caso. Tempo pra refletir, quedê! não tenho. A vida já não dá mais tempo pra gente imaginar. O único meio é mesmo refletir, produzindo.

Assim vou numa série, pequena ou grande não sei, de artiguinhos refletir publicamente aqui. Vamos ver o que sai.

Em primeiro lugar, será um bem ou um mal estarmos trabucando por um estilo nacional de arquitetura no tempo de agora? Está claro que pra mim esse problema só existe em relação à arquitetura moderna, ao que chamam por aí de arquitetura futurista. Isso de se fazer uma casa em estilo do Renascimento, árabe, mourisco, etc..., pastichação atrasadona, pueril, sentimental: isso não tem o mínimo de interesse pra mim.

Ora, a arquitetura moderna, tenha primeiro vagido na Bélgica ou na Holanda, tenha se desenvolvido primeiro na Áustria como querem certos alguns, o fato é que não conseguiu nas tentativas projetadas até agora, adquirir cunho nacional em terra nenhuma. Nem o próprio arranha-céu, nem a fábrica moderna a gente pode mais falar que sejam, nem psicologicamente falando, norte-americanos. A fábrica Fiat é um modelo sublime de fábrica moderna e arranha-céu já tem por aí tudo no mundo. De todos os estilos e tendências estéticas firmados e aparecidos depois da Guerra, a arquitetura é mesmo a única que conseguiu uma solução verdadeiramente internacional. Nem mesmo o Cubismo purista conseguiu isso e a gente pode muito bem verificar o hispanismo de Juan Gris e o francesismo de Gleises. Porém uma solução moderna de casa ninguém não dirá se é alemã, brasileira ou russa.

Sob esse ponto de vista, considerando a tendência pro universalismo em que está a sociedade humana, pode-se falar que a arquitetura é a mais socialmente avançada e a mais satisfatoriamente humana de todas as artes.

Diante dessa constatação as nações que nem o México, Argentina, Brasil que andam pelejando por adquirir estilos arquitetônicos nacionais, que papel fazem? primeira vista um papel desumano, anti-social e necessariamente arara. São nações importantes, não tem dúvida, porém não possuem aquele domínio social, econômico ou intelectual sobre a sociedade humana que permita-lhes impor uma tendência delas. As tendências que se universalizam são ainda e não sei por quanto tempo serão, as que saem de certa grandes culturas européias e dos Estados Unidos. E assim é não temos que discutir. Ora a arquitetura moderna que esses países estão impondo pro mundo é perfeitamente internacional. Os que estão na América do Sul trabalhando por criar uma arquitetura separatista, nacional, brasileira, mexicana, peruana, etc..., estão trabalhando no falso, estão perdendo tempo, são atrasadões.

Isso é a conclusão mais imediata que a reflexão traz em mim. Porém já estou distinguindo certas maneiras de a contradizer. O que farei amanhã.

II

Tendo constatado ontem que a arquitetura moderna é a única das artes que chegou mesmo a uma realização internacional, verifiquei que um país tentando no tempo de agora uma realização nacional, estava trabalhando no falso e no desumano. Essa tendência nacionalizante parece francamente separatista, dum exclusivismo anti-social defeituoso. E nisso estão todos os arquitetos brasileiros que andam por aí se batendo por esse estilo a qual chamam de Neocolonial.

Mas isso não passa duma primeira afirmativa e o problema talvez seja mais complicado. Primeiro: Qual é a situação atual da arquitetura modernista?

Francamente é a situação duma tendência ainda. Não se pode falar que esteja firmada, unanimizada e muito menos tradicionalizada. Só mesmo as soluções impostas por uma obrigação imperativa do momento social é que já se generalizam: a fábrica e o arra-céu. E aquilo que a gente constata de mais importante neles sob o nosso ponto de vista estético é que são mais função da engenharia do que da arquitetura. A fábrica deu no que deu por causa da fatalidade da estandartização dos produtos, coisa que matou o trabalho individual e desenvolveu a fábrica prodigiosamente do dia pra noite. Carecendo de abrigar multidões, dar ar pra elas, abrigar máquinas Guaçus e de formas assombradas, e ao mesmo tempo carecendo de ser não um monumento arquitetônico (luxo, brinquedo, prazer pelo prazer) mas edifício de utilidade prática (coisa que é interessada e sai fora do domínio das belas-artes), carecendo sobretudo de ser econômica, edifício barato, a fábrica deu as formas simples, primárias que apresenta nas milhares de soluções que tem tido até agora. É pois obra mais de engenharia que de arquitetura. E tanto isso é certo que os estetas modernistas chamam sempre atenção pra engenharia de agora, a confundem ou geminam com a arquitetura. Coisa falsa porque se como a acústica dá elementos pra música, as experiências fonéticas dão elementos pra poesia: a engenharia também dá elementos pra arquitetura, porém se distingue fundamentalmente dela. Uma é ciência outra é arte. Uma é dedução, é experiência, é lei. outra é invenção, expressão, pode ter normas porém não possui lei intrínseca. Não tem lei de que um artista não possa escapulir, falou Beethoven. E de fato pelo fenômeno psicológico de fadiga, a evolução das artes tem sido um eterno fugir das pseudo-leis artísticas.

Do seu lado o arranha-céu de generalizou no mundo unicamente em função da engenharia. Jamais não foi até agora uma solução arquitetônica e Le Corbusier numa nota chamava atenção dos arquitetos modernos pra que estudassem a engenharia norte-americana mas não a arquitetura porém. Por esse mundo já vi arranha-céus em renascença italiana, francesa, em estilo gótico. No Cairo já existe um edifício de seis ou sete andares, não me lembro, em estilo árabe, com muchabien. Na praça Verdi já temos um de vários andares e em neocolonial. O edifício no Intransigeant é modernista em Paris. A Chilehans, de Hamburgo não é modernista e se aproveita com o peso e a simplicidade germânica de certas soluções arquitetônicas modernas como a da reentrância gradativa de terraços à medida que a casa se eleva.

Mas, e o resto? E a verdadeira arquitetura moderna? pois que arranha-céu e fábrica dependem mais da engenharia por enquanto que da arquitetura. O resto inda está na tendência. os arquitetos modernista inda fazem mais obra de escola, obra pra mostrar as idéias deles, que a obra de invenção e de expressão fatalizadamente moderna. Se algumas feitas os trabalhos já realizados são de fato bonitos e artísticos, na maioria enorme das vezes são meros trabalhos de escola, arquitetura de combate, útil pra mostrar mas não bonita ainda, não artística propriamente. É bom, é razoável, é útil porém inda não há arte porque as belas-artes estão além, ou aquém se quiserem, do razoável do útil e do bom. E o que é mais importante pro nosso caso: tudo isso inda não se generalizou.

Não existem senão casas pequenas em estilo moderno. A apresentação dum projeto tendenciosamente modernista pro palácio das Nações em Genebra valeu pra Le Corbusier um prêmio, porém não foi aceito. Na Alemanha e na Áustria já existem alguns edifícios importantes seguindo a tendência moderna porém nenhum deles não é propriamente, tendenciosamente moderno. Fazem concessões ou o modernismo deles está discretamente disfarçado.

Todas essas realizações modernistas ou disfarçadamente modernistas, já são numerosas e ficam. Por fim, o estilo art noveau também ficou em documentos medonhos e numerosos porém o estilo não ficou. E graças a Deus!

Ora se a gente não sabe se a arquitetura moderna é de aceitação consumada e universalizada não é lícito continuar e inventar outras tendências? É. Por mim acho que a arquitetura modernista acabará se impondo definitivamente porém eu sou torcedor e sou um só. Minha contribuição pessoal, minha torcida não basta pra resolver um fenômeno destes. Por aí se justifica em parte a procura dum neocolonial pro Brasil.

Mas não por aí só. Inda resta o caso da evolução da arquitetura moderna e o caso da atualidade psicossocial brasileira. Mas sobre essas havemos de imaginar outro dia.

III

Cheguei ontem à conclusão que se ninguém pode afirmar já definitivamente que a arquitetura modernista se generalizou, era lícito um arquiteto brasileiro tentar uma orientação mais racial e separatista.

E fiquei de comentar hoje mais duas circunstâncias que permitiam-lhe esta orientação nacionalista: a da evolução da arquitetura moderna e a da atualidade psicossocial brasileira.

É incontestável que o estilo arquitetônico inventado pelos artistas avançados apresenta por enquanto uma ausência tamanha de caráter étnico e mesmo individual que a gente o pode considerar como internacional e anônimo. Esse aspecto social do anonimato da casa modernista, eu acho bem comovente. Não me basta verificar que a arquitetura modernista se libertando do caráter étnico como nenhuma das outras belas-artes, é a mais moderna e a mais humanamente exata das orientações de agora. Além dessa libertação dos tiques, preconceitos e fatalidades raciais a arquitetura modernista coincide com a manifestação folclórica. Isso que me comove. É interessantíssimo constatar que se as artes à medida que foram evoluindo e se refinando, se afastaram da mais primária, mais fatal das manifestações artísticas, a arte folclórica, a arquitetura modernista que é socialmente falando a mais adiantada das manifestações eruditas da arte, voltou de novo a se confundir com a essência fundamental do folclore: a presença do ser humano com abstenção total da individualidade.

Poesia, pintura, música, volta e meia estão agora bichando a vista na manifestação artística do povo. mas fazem isso como objeto de estudo, pra readquirir normas fundamentais perdidas através do refinamento, pra readquirir caráter nacional, etc... E não deixam por isso de perseverar no individualismo exacerbado. Ao passo que a arquitetura modernista, se fundamentando numa ciência, baseada em valores e dados científicos que o povo ignora, eruditíssima, fazendo abstenção por assim dizer total do ensinamento arquitetônico popular, coincide com a arte popular no que esta possui de mais inconscientemente refinado, no que tem de mais humano e fecundo: ausência de indivíduo.

Porém a arquitetura modernista se acha apenas no começo da evolução dela, mal nasceu. Ora não será da sua infantilidade necessariamente descaracterística, que ela possui esse dom de apresentar fisionomias étnicas e individuais? Pode muito bem ser que sim. Eu creio que sim.

Nos tempos de agora com jornais, revistas, livros em penca, facilidade enorme de comunicação, generalização universal das línguas francesa, inglesa e alemã: uma tendência, uma idéia nova pregada por um logo fica sabida de toda gente. E encontra adeptos no mundo todo. Foi o que se deu com a arquitetura modernista. As idéias, as fórmulas, as soluções iniciais se expandiram com facilidade e como estão ainda na infância, apresentam, como falei ontem, mais o aspecto de explicação e prova duma teoria que aquela fatalidade de expressão, aquele ex-abrupto da invenção, que formam o próprio mecanismo da criação artística. Vem daí o caráter anônimo que as soluções modernistas de grandes ou pequenos edifícios apresentam até agora. São obras de combate, são obras teóricas. Mas o dia em que o estilo se normalizar e o sentimento arquitetônico moderno se tornar inconsciente em nós, as criações nascidas da invenção na certa que irão refletindo cada vez mais o indivíduo e necessariamente a raça dele. No início do cubismo também as obras de Derais, Picasso, Braque, Léger se confundiam. Hoje todos esses ilustres se distinguem à primeira vista. São até das manifestações mais exacerbadas (e nesse ponto de vista: odiosas) do individualismo em todos os tempos. Um Léger inda é mais inconfundível que um Rembrandt ou um Scopas.

Se nas obras arquitetônicas mais primitivas do gótico também se nota um tal ou qual internacionalismo: na terceira fase do estilo, o gótico alemão, o francês, o inglês, o espanhol são bem característicos. O fenômeno inda é mais intenso com a arquitetura do Renascimento em que a pastichação da Grécia internacionalizou as culturas inovadoras de França, Itália e Espanha. Porém só no começo.

A arquitetura modernista, a meu ver, não permanecerá nem no anonimato nem no internacionalismo em que está agora. Se se normalizar ela virá, fatalmente, a se distinguir em frações étnicas e a se depreciar em função do indivíduo.

Se assim é, nada mais justo que a procura e fixação dos elementos da constância arquitetônica brasileira. É com eles que, dentro da arquitetura moderna, o Brasil dará a contribuição que lhe compete dar.

IV

Entre as circunstâncias que justificam a tentativa dum estilo arquitetônico brasileiro agora, apesar de contrariar sob vários pontos de vista a orientação da arquitetura moderna universal, resta falar creio que só do fenômeno de nossa atualidade.

É incontestável que em todas épocas e principalmente e cada vez mais do século dezenove pra cá, certos países e certas cidades é que dão o ponto pra atualidade do momento histórico. Não é possível, por exemplo, a função representativa do Romantismo musical que Leipzig tomou. Durante todo o século dezenove a França é que representou o momento histórico das artes quase todas ou todas. A função de contemporaneidade de Dresden e de Paris nas artes plásticas de antes da Guerra, a de Paris ainda na plástica e na música, a de Moscou e da Alemanha no teatro depois da guerra, não é possível contestar. Na verdade, o que a gente chama de atualidade embora possa tomar seus elementos e manifestar as tendências em todos os países do mundo (coisa muitíssimo discutível e provavelmente falsa), a tal de atualidade é a coisa mais relativa, mais hipotética, mais falsa mesmo que existe, se a gente a considera sob o ponto de vista universal. Existe mas é uma atualidade duma região mais ou menos vasta, que é imposta ao mundo por causa da função histórica de interesse universal que essa região está representando no momento da humanidade. E por isso a atualidade dessa região ecoa por toda a parte, quer pela influência da moda; quer pela simples macaqueação pastichadora; quer pela eficiência ou possibilidade de progresso que essa atualidade estranha pode trazer pra outro país.

Além dessa atualidade representativa do momento histórico mais ou menos universal, mas que de fato é regional, existe um despropósito de atualidade. Cada país já principia por ter a dele. A atualidade do Brasil não é a mesma da China, está claro. Porém, dentro de cada país mesmo além duma atualidade nacional definida principalmente pela economia, pela política, pela cultura nacional, existem várias atualidades. Mesmo sob o ponto de vista exclusivamente artístico cada classe social tem a dela. Por exemplo entre nós existe atualmente uma contradição profunda e mesmo dolorosa entre a atualidade estética dos artistas representada pelos modernos (coisa incontestável porque é pelo modernismo que a maioria absoluta da mocidade está aparecendo), existe uma contradição profunda entre a atualidade estética dos artistas e da elite social. E como nem mesmo o esnobismo inda conseguiu levar esta pra aqueles, o momento econômico de arte brasileira é profundamente angustioso. Os artistas plásticos vivem de expediente, não há revistas, não tem casas editoras, ar está faltando.

Dentro do Brasil também a atualidade representativa do momento histórico universal nos veio da Europa (via França e Itália) e dos Estados Unidos. Essa atualidade tinha aqui uma possibilidade vasta de funcionar em proveito do país. E funcionou de fato. Pra ficar só no meu terreno: é impossível a gente contestar a transformação inconcebível e a vitalidade agente, palpável, que se manifesta na arte brasileira, depois de 1922. Os jornais, espelhos da vida, estão aí mostrando e provando isso, atacando, repudiando, comentando, insultando, elogiando arte como jamais se fez tanto nesta terra.

E o maior benefício que a atualidade estranha trouxe pra gente foi, não coincidindo com o regionalismo e o nacionalismo que já existiam por aqui, levar pela liberdade, pela procura do novo e da realidade nacional, que se levou os modernistas a matutarem sobre o dualismo do fenômeno universal-nacional. Resultou, foi uma consciência mais imediata, mais livre da realidade nacional, que aí levou uns pobres pra patriotada artística, que está produzindo muita arvinha reles, muito cambuci, etc... generalizou no sufragante a consciência artística nacional e levou toda a gente quase pro trabalho de fazer coincidir a realidade individual com a entidade nacional. Esta coincidência quando estiver normalizada e inconsciente entre nós, dará pros artistas brasileiros a mais justa, a mais fecunda e nobre libertação.

E como este problema de acomodar a invenção artística nossa com a entidade nacional era importante por demais, ele evitou que a atualidade histórica universal que nos vinha de França e de outros países da Europa, continuasse aqui como simples reflexo, simples macaqueação. Dum momento pra outro a inquietude européia (produto de excesso de cultura, produto de esfalfamento, produto de decadência) não coincidiu mais com a inquietude brasileira (produto de problemas nacionais ingentes, produto de progresso, produto de terra e civilização moças, principiando apenas). Com efeito as capelas artísticas européias deixaram de repente de influir na criação brasileira. Nos interessam agora como curiosidade. Não têm mais pra nós uma importância funcional. Ninguém mais entre os espíritos já formados, se amola de estar no dernier bateau parisiense ou florentino. Se volta ao metrô como se foge dele, se pinta palmeiras como esculpe banhistas, sem mais a preocupação da atualidade européia. Porque já readquirimos o direito da nossa atualidade.

Ora os arquitetos que estão trabalhando por normalizar no país um estilo nacional Neocolonial ou o que diabo se chame, estão funcionando em relação à atualidade nacional. A função deles é pois, perfeitamente justificável e mesmo justa. O que resta saber é se estão funcionado bem.

   
  Mario de Andrade
São Paulo, 1893/1945
   

 

Publicado no Diário Nacional, São Paulo, de 23 a 26 de agosto de 1928. Republicado na Arte em Revista nš 4 (Arquitetura Nova), CEAC, São Paulo, agosto de 1980.

 
           
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