| principal  | hoje ontem | arquitetos | patrimônio histórico | boletim óculum |
 
           
 
       
 

Exposição duma casa modernista (considerações)
Mário de Andrade

Uma das coisas que mais distinguem a Arquitetura das outras Belas-Artes (caso se a reconheça como uma das Belas-Artes, coisa discutível), é a sua libertação do individualismo. Nós falamos no Inferno de Dante, nas Ninfas de Velasquez, no Discóbulo de Mirão. E mesmo quando a gente fala nos Lusíadas ou na Ronda da Noite, o autor dessas obras está funcionando em nossa complexidade estimativa das coisas, não só como parte integrante, mas como parte primeira e absolutamente fundamental, e até valorizada delas. E quando a gente escuta uma música ou olha um quadro bonito, logo pergunta sem querer: - De quem é?

Ora, com a Arquitetura verdadeira isso em geral não se dá. Ninguém lembra de perguntar quem fez a sublime abside de São Pedro e é quase uma dissonância de erudição dizer-se em público os nomes dos arquitetos dos palácios florentinos. E se examinarmos bem a nossa complexidade estimativa, percebemos que incontestavelmente pra totalidade duma obra arquitetônica, o nome do seu autor não funciona quase nada. Funcionará apenas e posteriormente como curiosidade, prurido carioca de erudição ou desfastio de conversa fiada.

Já o mesmo não se dá quando a Arquitetura falseia os seus princípios e vira totalmente uma Bela-Arte desinteressada. São chavões de conversa artística "a colunata de Bernini", a ópera de Guarnier", "Torre Eiffel". Muitos modernistas poderão refugar aqui, me vendo atacar a torre Eiffel, porém se essa tentativa arrojada de Exposição Universal pôde ter conseqüências úteis pra Engenharia, ela foi e será sempre uma falsificação arquitetural. Os destinos que já lhe deram não são dela, e outros dispositivos arquitetônicos os preencheriam melhor.

Estas observações com alguma rara exceção, são incontestavelmente verdadeiras. Ora, se ninguém pensa nos arquitetos góticos ou renascentes italianos, ao lhes sentir as obras admiráveis, é porque a arquitetura escapa muito ao individualismo criador. Escapa da própria imaginação criadora, não só pelos fins imediatamente práticos que tem de preencher, como pela importância mais primordial que tem nela o determinismo histórico, na sua mais lata concepção.

Nós atualmente ainda estamos falando nas "casas do engenheiro Warchavchik", como falamos na casa neogótica do engenheiro Fulano de Tal, apenas porque Gregori Warchavchik foi o primeiro e é quase o único a construir casas modernistas em São Paulo. Mas que mais três engenheiros principiem construindo casas assim aqui e o nome de Warchavchik desaparecerá das deles. Ficará sempre honradíssimo em nossa história arquitetônica, está claro, mas isso é refinamento. Pro mundo e pra nossa sensação, as casas de Warchavchik serão apenas casas... de ninguém: Arquitetura.

Acontece uma coisa também interessante e que esclarecerá inda mais o que afirmo: se um engenheiro qualquer construísse uma casa parecida com as de Ramos de Azevedo ou do sr. Dácio de Moraes, todos saberiam que esse um era plagiário. Foi mesmo o que se disse muito na sombra, e aliás sem razão, a respeito do nosso Teatro Municipal, por adotar o seccionamento em três corpos da Ópera de Garnier. Pois se alguém quiser casas no estilo das de Warchavchik, ninguém dirá dele que é um plagiário. É um arquiteto modernista. Está fazendo arquitetura.

Tudo isso prova bem, creio, que a época atual está conseguindo essa coisa rara, que sucede só nas civilizações isoladas ou nas mutações fundamentais duma civilização: atingir em arquitetura um estilo próprio.

Se eu possuísse uma casa modernista (é lógico, inteiramente revestida modernisticamente que nem esta casa exposta), entre os móveis modernos da sala-de-visita eu colocava uma cadeira Luiz XV. Imaginemos isso em nossa cabeça: qual a sensação que dá? A única legítima atualmente a respeito duma cadeira Luiz XV: a sensação dum objeto de arte. Uma cadeira Luiz XV não é cadeira, é objeto de arte e como tal pode decorar a nossa vida. Não tenho a culpa se a gente daquele tempo andou sentando em objetos de arte em vez de sentar em cadeiras, mas carece lembrar que as duquesas e duques de então eram objetos de arte também.

Mas, está claro, eu havia de enfeitar a minha sala com uma cadeira Luiz XV legítima e não um "falso". O "falso" pode ser muito bem feito e bonito, mas é um falso, e a vida não é feita apenas de beleza. O falso pode pode possuir muita brilhação exterior, mas isso é vaidade, coisa desprezível. Ele não não possui aquela orgulhosa e interior razão-de-ser que legitima qualquer passado. Entre um admirável Da Vinci falso e um medíocre Ettore Tito legítimo, só os novos-ricos de todas as riquezas exteriores e interiores, preferirão o falso.

Ora, a arquitetura modernista não desmente ou destrói nenhum dos "verdadeiros" estilos de arquitetura que história enumera. Mas se a gente imagina Amiens junto do Partenão, está claro, os dois templos hurlent d'être ensemble. Da mesma forma uma casa modernista, como as de Gregori Warchavchik berra junto desses bangalôs, chacrinhas neo-coloniais, pudins, marmeladas e xaropes que andam por aí.

Há uma diferença: o Partenão junto de Amiens, os dois berram. Berra o Partenão e berra Amiens. Uma casa de Warchavchik junto dum neo-colonial seja espanhol ou portuga, berra sozinha. O bangalô não berra não. Está bem calmo na sua desmandibulada inconsciência, na sua ignorância beata e beócia. Nós é que ficamos envergonhados por ele, da mesma forma com que qualquer pessoa bem nascida ante as pabulagens dum novo-rico, os manejos dum arrivista, sofre em vez de rir.

Reduzindo esta sensação de vergonha nossa a uma linguagem um bocado mais técnica, a gente percebe que o caso é sempre a mesma questão do "falso". O néo-colonial, o bangalô, o néo-florentino são "falsos", tanto quanto uma pérola Tecla, um objeto de Flosel ou o não culpável Rafael duma coleção paulistana. Lhes falta aquela orgulhosa força de legitimidade que justifica e valoriza até os defeitos. Já nem me interesso com serem eles, na infinita maioria dos casos, falsificações hediondas. Não é o conceito de falsificação deturpadora de princípios arquiteturais que me preocupa agora, é a noção do faux, do que é feito pra enganar, da prática extratemporânea. Uma mulher prefere um brilhante legítimo a um falso. Nós preferimos um quadro do douanier Rousseau aos falsos que estão aparecendo dele, ou uma peça de Stravinsky a outra dum dos seus numerosos imitadores. Uma casa de Warchavchik berra junto das outras, berra orgulhosamente porque é legítima. Ela é uma força da natureza, tanto como a existência de Alexandre ou da tempestade. Uma tempestade do teatro poderá ser admiravelmente teatral mas será jamais horrível. E é por isso que o destino do teatro não será jamais imitar a natureza (homem incluso), mas transportá-la como fazem Chaplin, Shakespeare e o Bumba-meu-Boi. Tomei teatro no sentido mais geral pra incluir nele a Cinematografia.

Ora a Arquitetura também possui um destino, que não consiste nela ser bonita, mas agasalhar suficientemente, não um corpo mas um ser humano, com corpo e também alma. As almas florentinas se agasalharam bem na Renascença. E as gregas e as chinesas. E ainda os mamelucos e emboabas da Ouro Preto setecentista, que jamais não cogitara de construir uma São Francisco em estilo gótico ou manelino. Pois nós também, se almas atuais, temos que agasalhar nossas almas nas casas atuais a que chamam de "modernistas". Tudo mais é desagasalho, é desrespeito de si mesmo e só serve pra enganar. É o "falso".

   
  Mario de Andrade
São Paulo, 1893/1945
   

 

Publicado no Diário Nacional, São Paulo, em 05 de abril de 1930. Republicado em Depoimentos nš 2, Centro de Estudos Brasileiros, GFAU, São Paulo, 1966, e em Arte em Revista nš 4 (Arquitetura Nova) em agosto de 1980.

 
           
| Arquiteturismo | Arquitextos | Concurso | Documento | Drops | Entrevista | Evento | Institucional | Livraria | Minha Cidade | Noticiário | ResenhasRG | Vitruvius |