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A casa modernista, o pior crítico do mundo e outras considerações
Oswald de Andrade

Gregório Warchavchik tem sido compreendido pelo público que acorre em massa curiosa à casa estranha e sóbria da rua Itápolis. Talvez porque duas fitas excelentes que passam no écran paulista lhe dão razão. Basta olhar para os interiores apresentados por Greta Garbor em Mulher Singular e Joan Crawford em Donzelas de Hoje, para qualquer indivíduo, por mais curto, compreender que uma arte da casa atual, intransigente, lógica, unida nos demais diferentes detalhes, reivindica para si o lugar de vitória no mundo transformado de hoje.

Mário de Andrade anunciou mais ou menos isso num artigo de massuda erudição. Dentro em pouco só haverá casas modernas em São Paulo e a obra pessoal de Warchavchik se perderá confundida entre os tijolos de bananada arquitetônica que passarão a fazer o Sr. Dácio de Moraes – que já se anuncia dadá – e o peso pesado da engenharia copista, o Sr. Christiano das Neves!

Eu sempre tive e anunciei uma opinião: que Mário de Andrade, sendo o poeta que é e, quando puro, conseguindo conduzir Macunaíma ao mais alto céu das pátrias literaturas – consegue também ser o pior crítico do mundo.

Se outras coisas não bastassem, sobrava esse artigo que qualquer preto escreveria. Digo preto, porque, infelizmente é mania de gente de cor saber o que branco sabe e daí a perdição, pois geralmente quem sabe mais é preto, quando preto mesmo.

De fato, nunca li de Mário coisa tão copiosa de erros soleníssimos.

O velho critério da arte desinteressada aí põe as orelhinhas de fora. Critério medieval, abestalhado, recobrindo como defesa as sublimações que Freud ainda não estudara. Mário, como muito fingido por aí, ignora perfeitamente que depois de Freud e da antropofagia, nada é desinteressado. E se ele põe mesmo uma cadeira Luiz XV na sua casa modernista, deve ser por qualquer malícia escondida. Negue se for capaz!

Senão vamos psicanalisar essa cadeira Luiz XV. Será uma chaise percée?

A casa modernista de Warchavchik não se poderá nunca perder, como não se perderá Le Corbusier, na massa de construção de estilo geométrico, que inundará sem dúvida São Paulo, a América, Sidney, Jaboticabal e Rouen, dentro de alguns anos. Mais dia, menos dia, veremos até o atentado comerciante Sr. José Mariano nos dizer – "Quero lhe mostrar um cordeirinho cubista!" Evidentemente não haverá vantagem para a modernidade, pois deve ser por causa de Olegário, grande precursor etimológico dessa escola.

Mário aí confunde o valor técnico de Warchavchik, que um ou outro bom construtor também poderá garantir para as suas encomendas – com a personalidade de Warchavchik que é para mim de alta poesia.

Por exemplo, a bandeja geométrica em que Warchavchik situa as suas construções, o encaixotamento vivo dos volumes, em que ele arma a obra vivíssima, a cor distribuída nos interiores, as vidraças de luz artificial.

Será possível que um bom pedreiro como o Sr. Christiano das Neves possa conseguir o mesmo arranjo maravilhoso? Não e não!

Quanto a dizer que a gente decora o nome dos pintores e não dos arquitetos, é questão de grau de sabença. No Brasil, a gente começa nas escolas públicas primárias a soletrar o nome de Victor Meireles e Benedito Calixto. Mais tarde (falo da nova geração escolar), poderão vir a saber até o nome de Tarsila e Brecheret. Quem sabe?

Fato é que uma elitezinha não ignora que Miguel Ângelo fez certas baitas janelas que até podem ser admiradas nas revistas da rua Lopes Chaves. Não se ignoram os nomes de construtores gregos e renascentistas. E sabe-se até que quem construiu a torre Eiffel foi o Sr. Eiffel.

A casa de Warchavchik encerra o ciclo de combate à velharia, iniciado por um grupo audacioso, no Teatro Municipal, em fevereiro de 1922. É a despedida de uma época de fúria demonstrativa. Estou certo de que nunca mais se reunirá em mostras coletivas Celso Antonio e Pagu, Ester Bessel e John Graz, como eu nunca mais hei de fazer berreiro literário junto com os bigodes irados do Sr. Graça Aranha. Em matéria de barba feita, o homem da Viagem Maravilhosa é uma fera da modernidade. Parece John Gilbert, um pouco mais cabeludo por causa da latitude.

Da Semana de Arte Moderna à casa vitoriosa de Warchavchik vão oito anos de gritaria para convencer que Brecheret não era nenhuma blague, que Anita Malfatti era a coisa mais séria deste mundo, que a literatura da Academia Brasileira de Letras era uma vergonha nacional, etc, etc.!

Hoje, já não há uma aura que atinja este ou aquele felizardo. Brecheret coloca muito bem a sua obra presente, Segal chega a ter preço excelente, e Menotti del Picchia vende o que tem de passadismo por ser modernista.

Pelo menos desmoralizou-se definitivamente a turma que vai do Sr. Olegário Mariano, passando pelo adesista Júlio de Dantas e pelo lívido plastron mental, do Sr. Renato Tiollier. Estão fritos!

Agora o coronel Lupércio de Camargo vai mandar construir uma casa por Flávio de Carvalho, decorada por Cícero Dias com móveis de Pagu e literatura de Geraldo Ferraz. Uma lindeza!

Os veteranos da Semana de Arte moderna, que fazem bonito na casa da rua Itápolis, são: a grande e dramática Anita Malfatti, que pervertida pelos conselhos estéticos do senador Freitas Vale deu depois de fazer concessões acadêmicas, mas agora está reagindo como uma fera; Brecheret, que expõe no jardim uma estátua esplêndida; John e Regina Graz, casal incansável a quem se deve um grande progresso decorativo em São Paulo. Para lembrar Villa-Lobos, não há música nenhuma. E entre os visitantes o Sr. Carlos Pinto Alves, que nos vaiava sincronizadamente em 22, e agora chora de emoção no ambiente "futurista", e o já citado e ilustre senador Freitas Vale, que brecava a ida de Brecheret para a Europa, promovida por Júlio prestes (em 21) e a de Anita, conseguida pela Sra. Washington Luiz (em 22) – o qual agora se expande rigorosamente a favor de tudo. Ambos muito distintos amigos mas de quem divirjo diametralmente em crítica e lógica.

Os que vieram depois em grande ascensão. Segal, Celso Antonio, Tarsila, Oswaldo Goeldi, Gomide que ainda julgo amaneirado, se bem que senhor de uma técnica rara. E as revelações para o público, o enorme Cícero Dias, Ester Bessel, ilustradora de Freud, Pagu que nem pretendia expor mas cujo lindo Vaso de Feira, duma poesia nova e marcada pela violência, foi requisitada à última hora por Warchavchik e Jenny Klabin Segal, também de segura individualidade. Em literatura, cavalices e coisas sérias reunidas sob a benção de vidro de um lampadário moderníssimo – mas tudo felizmente mudado. Não mais o miolo do Sr. Coelho Netto escorrendo fantasias de penitenciária nas páginas, nem o nefandíssimo cacófato que é Olavo Bilac. Um desaforo!

E pairando numa organização de poesia, de serenidade, de conforto, de atualismo, a personalidade estupenda de Warchavchik, que se dissimula nos móveis, paira nas cortinas, floresce em cactos nos jardins e reúne a copa, a escada, a garagem e os dormitórios num sossego bom e esportivo, comercial e vitorioso – como deve ser o cenário otimista da vida de cada dia neste século bendito.

Século bendito! Século de Greta Garbo, de Georges Bancroft, das Donzelas de Hoje, século em que a gente faz o que quer! Apesar dos anacronismos que persistem, apesar da legislação portuguesa que nos afoga, apesar da gente cretina que não sabe que a vida de 1930 tem que ser plasmada naquele milagre de Marconi, iluminando Sidney de bordo do seu iate ancorado numa dobra geográfica da Itália.

   
  Oswald de Andrade
São Paulo, 1890/1954

Publicado no Diário da Noite, São Paulo, em julho de 1930. Republicado na Arte em Revista nº 4, São Paulo, em agosto de 1980.

 
           
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