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| Evolução
da arquitetura O tema desta aula foi objeto de interessante polêmica, nestes últimos anos a propósito do projeto de Frank Lloyd Wright para um edifício a ser construído em Veneza, no Canal Grande. Projeto moderno, suscitou de imediato forte oposição, sob a alegação de que iria destoar naquele quadro de caráter profundamente tradicional. Um exame do projeto, evidencia, na realidade, que seu autor preocupou-se com a ambientação do edifício. Ele considerou, certamente, que Veneza apresenta grande variedade de estilos, românico, bizantino, gótico, renascentista e barroco, que lhe dão aspecto variado e peculiar, e não possui, em toda sua história, precedente de imitação do passado. Porque, então, não se admitir um edifício com as características próprias da nossa época? Wright escolheu os materiais com cuidado e preocupou-se com a cor, elemento importante no quadro policrômico da cidade. Preocupou-se, particularmente, com a escala, fazendo com que seu edifício se harmonizasse com a altura dos demais edifícios do Canal Grande. Em conclusão, seu projeto é honesto. No intuito de não se sobressair no quadro local, possui, até, um ar despretensioso, tal a preocupação de respeito pelo quadro de Veneza. Através de milhares de anos, a arquitetura sempre teve desenvolvimento lento e progressivo, de acordo com as condições sociais, políticas e econômicas de cada região, desenvolvimento esse que jamais sofreu interrupções ou saltos acentuados. No estudo do fenômeno dividimos a arquitetura em fases que chamamos de estilos. Cada novo estilo teve sempre origem no estilo imediatamente anterior e por sua vez, sempre deu origem ao que imediatamente o seguiu. Cada estilo apresenta variedades de aspectos, de acordo com as particularidades geográficas da região e com grau de cultura dos povos. As causas dessa evolução, de ritmo lento e progressivo, próprio da antigüidade, são devidas a vários fatores. Durante milhares de anos, os materiais de construção, isto é, pedra, tijolo e cal, permanecem os mesmos, sem modificações apreciáveis. Igualmente, não sofrem alterações acentuadas, nesse período, a organização do trabalho, de caráter artesanal, e os métodos de construção, determinados pelos materiais e pela mão de obra, não apresentam variações acentuadas. Os elementos da arquitetura antiga, resumem-se, em síntese, em paredes, colunas, arquitraves e coberturas, isto é, em elementos pesados, que originam, pela sua natureza, planos rígidos. O maior progresso verificado durante o desenvolvimento da arquitetura antiga deve-se à descoberta do arco, da cúpula e da abóboda, que permitiram a construção de vãos bem maiores do que os que se vinham fazendo até então. Esse progresso, porém, também foi vagaroso. Implicando em apoios pesados e maciços, igualmente, não alterou as condições de rigidez da construção. Com a revolução industrial do século passado, verificou-se, no entanto, um fenômeno novo no processo de evolução da arquitetura. Pela primeira vez produziu-se um salto acentuado nessa evolução, determinando uma ruptura nítida. A revolução industrial criou a produção em série e o método científico em substituição ao trabalho manual e ao empirismo. Surgem novos materiais, assim como estruturas monolíticas. As novas possibilidades técnicas permitem a realização de imensas coberturas, assim como de estruturas ousadas. O plano torna-se livre e a construção flexível. A forma, na arquitetura, sofre alterações profundas. As maciças paredes de suporte são substituídas por delgados pilares, dispostos com liberdade. As divisões passam a ser leves e independentes da estrutura. A função simplesmente divisória das paredes permite torná-las transparentes ou eliminá-las por completo. Os espaços interpenetram-se e a casa prolonga-se para o exterior. O jardim, incorporado à casa, deixa de ser um complemento para tornar-se parte integrante da habitação. Leveza, flexibilidade e transparência, a par de novas possibilidades técnicas, são os pontos básicos da arquitetura moderna, que determinaram a ruptura a que nos referimos. A forma na arquitetura, acompanha a evolução da técnica construtiva, exigindo, hoje, do arquiteto, sólidos conhecimentos científicos, que deverão ser renovados e ampliados constantemente em virtude do progresso moderno. O problema estético, porém, não muda. Mudam os elementos da composição, mas não se alteram as leis e princípios que governam a plástica. Os problemas da disposição ordenada, da harmonia de ritmos, dos acordes, das proporções e da integração de todos esses fatores numa unidade, são sempre os mesmos. A estética baseia-se no ser humano, que, em sua essência, não varia. A atividade do arquiteto resumia-se, no passado, à aplicação de algumas regras empíricas, transmitidas de geração em geração, o que fazia dele um intuitivo. o problema apresenta-se, hoje, bem diferente. As condições da vida moderna tornam a arquitetura sempre mais complexa, exigindo do arquiteto sólidos e extensos conhecimentos técnicos, científicos e de cultura geral, embora conte, no exercício da sua atividade, com a indispensável colaboração de especialistas. Na sua diversidade e complexidade de aspectos é, porém, a capacidade criadora que caracteriza a obra do arquiteto. Qualquer que seja a obra, um móvel, uma casa ou uma cidade, a concepção só poderá ser válida desde que a forma plástica encontre, em cada caso, expressão própria e duradoura. O arquiteto é artista. Como tal, está sempre à procura da forma, portanto em luta permanente com os problemas inéditos. Com efeito, a arte é um fenômeno em evolução, que se manifesta pelo desenvolvimento contínuo e incessante da forma. A ampliação constante dos conhecimentos e da cultura representa estímulo permanente, que vivifica e enriquece a força criadora. Sem esse estímulo o trabalho artístico se reduz à repetição de fórmulas. Estas, poderão apenas ser do agrado da massa inculta, cuja tendência é sempre para o comodismo e a passividade. É errado supor que a bagagem de conhecimentos indispensáveis ao arquiteto possa limitar sua capacidade criadora. É errado supor, também, que o objetivo prático da obra de arquitetura, possa entravar a liberdade de concepção. O artista saberá encontrar sempre sua própria e vigorosa expressão superando quaisquer injunções. Os arquitetos da nossa geração, hoje maduros, colocados no início de um novo período, procuram vencer uma etapa ingrata: abrir novos rumos, em luta contra um meio hostil, não preparado ainda para as inovações espirituais da época moderna. Esse meio continua preso, em boa parte, ao ecletismo do século passado, que embora tenha trazido a contribuição inestimável de novas técnicas e de novos métodos de trabalho, se caracteriza, na arquitetura, pela reprodução formal dos estilos antigos. A esses arquitetos que se debatem na desorientação inevitável de um período em formação, cabe a missão de formular conceitos e visualizar, embora confusamente, as possibilidades futuras. Aos moços de hoje, no entanto, está reservada a tarefa mais significativa: a de conceber as realizações que irão caracterizar para o futuro o espírito arrojado e empreendedor dos nossos tempos. |
Aula inaugural da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Rio Grande do Sul, proferida em Porto Alegre, em 20 de março de 1958. Publicada in Abelardo de Souza, Arquitetura no Brasil - Depoimentos, Livraria Diadorim Editora / EDUSP, 1978, pp. 88-92. |
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