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arquitetura é arte e ciência Arquitetura é arte e ciência Se com tal expressão se quer significar que a arquitetura, como fenômeno artístico, está sujeita a uma classificação à parte, comete-se grave erro. A Arte é uma só. Ela se manifesta de várias maneiras, quer pela pintura, pela escultura, pela música ou pela literatura, como também pela arquitetura. Tais manifestações constituem fenômenos afins, sem diferenças substanciais na parte que realmente caracteriza a arte como manifestação do espírito. Também é absurdo classificar-se a arquitetura como arte secundária ou como "mãe das artes", de acordo com conhecida expressão; o valor da arte mede-se pelas emoções que ela desperta em nós, e pela permanência, através dos anos e das gerações dessas emoções e sentimentos. Do mesmo modo, em relação às outras manifestações artísticas, errado não ser considerá-la diferente no sentido de dispor de meios de expressão, mais ou menos extensos e profundos; seria como colocar a obra de um Giotto, de um Donatello, de um Mozart, ou de um Shakespeare, acima ou abaixo da obra de um Bramante. Todos esses gênios alcançaram tal nível de expressão que qualquer confronto entre eles seria impossível. No que diz respeito aos meios de expressão, estamos sempre verificando o aparecimento de novas manifestações de arte. É o caso do cinema, que nos apresenta imagens em movimento, sincronizadas com palavras e sons. Trata-se de um acontecimento inédito, e o que parece mais extraordinário nele, é o desenho animado, pela sua relação, sob certos aspectos, com a pintura, uma pintura em movimento próprio e além do mais acompanhada da palavra e da música. É o caso, dos famosos "mobiles" de Alexander Calder. Estes constituem o resultado das mais avançadas pesquisas no campo da escultura. Uma escultura toda dinâmica, não de pedra e bronze ou terracota, como estamos habituados a ver, mas expressa com materiais jamais usados nessa arte. O mais extraordinário é a multiplicidade de formas que adquire, quando acionada pelo vento ou artificialmente. O seu movimento, combinado com a luz, produz sombras e efeitos fantásticos. Além da lata, do arame e cacos de vidro, entram em jogo o ar e a eletricidade. As raízes do cinema e dos "móbiles" de Calder devem estar em qualquer parte que nos toca muito de perto. Essas são bem expressões típicas da nossa era, procurando exprimir anseios e ideais, por caminhos jamais trilhados antes. Definições da arte Existem muitas definições de Arte, mas nenhuma, para mim, é completa, e nem pode ser, pois a Arte é um fenômeno que na sua constante evolução se traduz por um desenvolvimento contínuo de expressão e formas. Nós percebemos tal evolução. Cessado o impulso renovador, por esgotamento da capacidade criadora, fatalmente advêm a decadência. O poder de renovação do artista depende de sua capacidade em manter sempre viva a sua personalidade, bem como da ampliação constante da sua cultura. Por seu lado esta é ligada a contingências do meio e a influências estranhas. O verdadeiro artista tem a intuição do valor dessas circunstâncias. Ele se sente impelido por uma força estranha, e mergulha em conjecturas e dúvidas, que fazem dele, permanentemente, um espírito irrequieto e insatisfeito. Por sua vez, a apreciação crítica e o julgamento da obra de arte obedecem a regras imutáveis, fugindo a qualquer explicação objetiva. Esse fenômeno depende de circunstâncias fortuitas, qual sejam a moda e o ângulo de visão do momento e ocorre em virtude das modificações que se verificam na mentalidade e na sensibilidade do indivíduo, com o passar dos anos e da coletividade, através das gerações. O que parece certo é que a arte só se manifesta com pujança verdadeira num clima de liberdade absoluta. Quaisquer injunções da sociedade ou de indivíduos no sentido de dirigi-la para objetivos pré-determinados é fatal. Assim também, o trabalho artístico, realizado de acordo com fórmulas preestabelecidas, fugindo da criação extenuante, seja por comodismo ou por incapacidade, resulta apenas em obra reflexa que só encontra eco na massa inculta. De todas as manifestações humanas, a arte é a que mais e melhor exprime a personalidade. Nela o artista retrata a si próprio, embora inconscientemente. Há nesse fenômeno certa analogia com a inconsciência da criança e a do psicopata. O grande público é incapaz de se adaptar ao espírito inovador, peculiar à arte, pelo qual sente viva repulsa. Aceita passivamente a rotina, sem admitir qualquer possibilidade de contestação, pois ela representa para ele, um refúgio cômodo e seguro. Dessa incapacidade resultam preconceitos de toda ordem, condenando e ridicularizando todo artista que se entrega ao trabalho de investigação. O arquiteto, cuja atividade depende de terceiros, mais do que qualquer outro artista, é vitima dessa situação, com a qual está perfeitamente habituado. Não é raro que, antes mesmo de receber as informações básicas sobre o tema, lhe sejam feitas exigências de ordem plástica. Resulta daí, uma situação ambígua, da qual só poder sair dignamente desde que saiba vencer tais imposições. O que é a arquitetura O certo é que se classifique a arquitetura como arte plástica, de caráter essencialmente abstrato. A função do arquiteto é o estudo da forma, em ligação com o ambiente e o clima, dentro de condições funcionais e técnicas, visando a criação harmoniosa de ritmos, ordenando volumes, cheios e vazios, jogando com a cor e a luz. A arquitetura abrange, como disse, todos os campos da forma, desde o objeto mais comum, até a organização, nas coletividades humanas, da habitação, do trabalho, do recreio e do transporte. Contrariamente à pintura e à escultura, a arquitetura é vista por fora e por dentro. O exterior e o interior estão intimamente ligados numa continuidade de concepção. De todas as artes, a arquitetura é talvez a que necessite hoje de conhecimentos científicos mais extensos e variados e só nesse ponto se justifica a expressão "arquitetura é arte e ciência". Digo hoje, por que a construção antigamente obedecia a um número relativamente reduzido de regras mais ou menos empíricas, transmitidas de geração a geração e que se conservaram quase imutáveis durante séculos. Com o progresso das ciências e com o advento dos laboratórios de pesquisas, bem como da produção em série, realizaram-se nesse particular, modificações que alteraram consideravelmente a vida do homem civilizado. Em virtude dessas novas condições, a arquitetura tornou-se de tal forma complexa, que necessita freqüentemente, de uma colaboração íntima com determinados especialistas. Estes compreendem duas categorias, os que colaboram na parte funcional e os que intervêm na técnica construtiva. A vida humana é intimamente ligada à casa, no sentido de abrigo. Em conseqüência, todo indivíduo tem sugestões a fazer a respeito da parte funcional da arquitetura. Assim os problemas escolares, hospitalares, industriais, ou residenciais, não podem prescindir da experiência do educador, do médico, do industrial ou de qualquer um. Na parte propriamente construtiva, o arquiteto dever por-se em contato com engenheiros e técnicos, reunindo e coordenando todas as informações e dados do problema em estudo. Como se dá freqüentemente em outros setores da atividade do homem, resulta daí um trabalho de equipe. Vejamos, por exemplo, o projeto de um hospital. Na sua elaboração reúnem-se, num trabalho coordenado, o engenheiro de mecânica do solo, que investiga a natureza do terreno e determina o tipo de fundação adequada, o engenheiro calculista que fornece o desenho minucioso da estrutura, os engenheiros eletricista e hidráulico que estabelecem as complexas redes elétricas, telefônicas, de esgoto, água, vapor, o homem do ar condicionado, que projeta, calcula e distribui dutos, máquinas refrigeradoras, ventiladores; o especialista dos serviços domésticos, que organiza e desenha a cozinha, a lavanderia, o almoxarifado e os serviços afins; até os fornecedores de materiais cada qual apresentando as características de seu produto, indispensáveis à especificação; e muitos outros, todos trazendo uma contribuição indispensável ao trabalho. Para a realização da obra são convocados, em seguida, engenheiros construtores, aos quais cabe a importante tarefa de realizar o projeto, organizando o canteiro, bem como providenciando a mão de obra e os materiais. O papel do arquiteto Um projeto de arquitetura adquire sua fisionomia definitiva aos poucos, num trabalho lento que às vezes se prolonga por meses. No seu início, existem apenas alguns dados mais ou menos vagos sobre o tema. Este desenvolve-se paulatinamente, com os primeiros esboços, os estudos preliminares e o anteprojeto. Até então o arquiteto trabalha sozinho, valendo-se das suas noções sobre as especificidades envolvidas pelo assunto. Em seguida, como vimos, organiza-se o trabalho em equipe a fim de discutir e solucionar os problemas relacionados aos vários casos visando o melhor rendimento, conforto e técnica. Uma vez reunidos e assimilados todos os dados, o arquiteto, valendo-se da sua capacidade criadora, emprestando ao conjunto a sua fisionomia definitiva, entrosando todos os elementos num organismo funcional, técnico e plástico. Essa fase de definição da obra é única. Nela o arquiteto se sente completamente dentro do assunto e senhor absoluto do problema, com visão integral de todos os seus detalhes. Esse momento, não mais lhe aparece, nem mesmo após executada a construção, que o deixa frio, como se fosse coisa estranha à sua pessoa. Porque essa indiferença em relação à própria obra? Porque, como se verifica em todas as manifestações de arte, a necessidade de evolução do artista faz com que o seu espírito, eternamente insatisfeito, o leve então à novas cogitações. Os conhecimentos científicos contribuem vivamente para a concepção plástica do arquiteto. No entanto, é indispensável que sejam assimilados de modo a não constituir entrave e limitação à concepção artística. Eles agem no subconsciente como uma segunda natureza, integrada à personalidade. Assim a criação se processa, livre de quaisquer injunções técnicas, apesar de existentes. Se desdobrei o trabalho de concepção da obra em ciência e arte, fi-lo apenas para maior clareza da exposição. Na verdade verifica-se o entrosamento de uma a outra, sem ordem cronológica e método. O arquiteto, como todo artista, utilizando-se de uma intuição aguda e fantasia inquieta, inspirado pela visão plástica, antecipa-se freqüentemente ao especialista com soluções mais originais e ousadas. Às vezes, ao contrário, as indicações fornecidas pelo especialista assumem um papel de relevo no trabalho de criação. A primeira elaboração mental do arquiteto se manifesta numa seqüência de visões plásticas, seguindo-se ao trabalho longo e paciente do desenvolvimento do tema. Síntese das artes Não é descabido frisar um ponto da máxima importância: o fato lamentável hoje da pouca possibilidade para o arquiteto realizar nas suas obras trabalhos em colaboração com pintores e escultores. No passado essa colaboração era íntima e normal. Os exemplos que nos restam constituem testemunho insofismável disso, com resultados notáveis, principalmente quanto ao modo de compreender a interpenetração existente entre as três artes plásticas. Essa compreensão parece desaparecida a séculos. Nesse sentido, existe hoje inexplicável preconceito contra o afresco, um mosaico ou um motivo esculpido. À primeira vista esse preconceito poderá parecer medida de economia, no entanto, encontramos freqüentemente obras construídas com materiais até excessivamente suntuosos em relação ao objetivo plástico. Por outro lado, pintores e escultores vivendo afastados da construção e considerando-a com certo desprezo, perderam a verdadeira compreensão do assunto, no sentido do trabalho em comum, não querendo subordinar-se ao desenho arquitetônico. Resulta daí nítida separação entre as três artes. Arquitetura – arte social ? A arquitetura é freqüentemente classificada como arte social, pelo fato de envolver problemas de interesse imediato para a coletividade. Com efeito, do desenho do móvel ao da cidade, ela abrange todos os problemas essenciais da vida do homem, individual e socialmente. Nisso reside todo o aspecto científico-social da questão, entrando no terreno da engenharia e da sociologia. Mas esse aspecto foge da essência própria da arquitetura naquilo que é verdadeiramente característico nela, como fenômeno específico de criação. Em conclusão, verifica-se logo, que definição da arquitetura como arte social não subsiste, pois, se assim fosse, seria deslocar o assunto para um plano de arte dirigida com objetivos preestabelecidos, alheios à sua essência. O resultado de tal dirigismo só pode levar a uma arte sem vibração. Com efeito, a arte está em conflito permanente com a sociedade, encontrando estímulo na necessidade vital de se libertar da rotina e passividade servil do espírito. Não há dúvida, pois, que a arte só poder ser sentida por uma minoria com mentalidade integralmente livre. |
Este texto de Rino Levi foi publicado pela primeira vez pela revista francesa L'Architecture d'Aujourd'hui nº 27, em dezembro de 1949, e publicada em português na revista Óculum 3, FAU PUC-Campinas, março de 1993. Trata-se de parte selecionada pelo autor de uma conferência realizada no Museu de Arte de São Paulo, a convite da Associação Paulista de Medicina. A palestra foi publicada integralmente em "Depoimentos 1", coletânea de textos realizada pelo GFAU da USP em 1960, com o nome de Técnica Hospitalar e Arquitetura. Esta é a versão reduzida enviada para L'Achiteture d'Aujourdui, onde os cortes foram feitos pelo próprio autor, eliminando a parte mais específica sobre hospitais. O título em francês eliminou a interrogação, presente nos originais e na publicação do GFAU. O original encontra-se no arquivo do Escritório Rino Levi Arquitetos Associados. |
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