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O desconhecido Oscar Niemeyer na revista Manchete

1953. A revista Manchete encomenda uma reportagem sobre a visão do arquiteto Oscar Niemeyer “ainda não muito conhecido pelo público brasileiro”, sobre a cidade do Rio de Janeiro (1). O arquiteto responde a uma entrevista e faz alguns desenhos, esboçando conceitos urbanísticos que já orientavam sua obra e que orientariam projetos posteriores.

Em 2007 o arquiteto completará 100 anos. Em 1953, com 46 anos, portanto, sete anos antes de Brasília, esboça na revista Manchete conceitos sobre a paisagem da cidade do Rio de Janeiro, sobre Copacabana, sobre densidade urbana e sobre o público e o privado. São elementos que constituem um léxico que nos permite pensar a cidade. Projetar a cidade. Léxico este, hoje infelizmente, afastado das administrações públicas. São conceitos básicos para a construção de uma política urbana efetiva.

As políticas hoje em aplicação nas nossas cidades ficam entre o clientelismo e os diagnósticos de demanda. Falta conexão entre a análise e o estabelecimento de diretrizes em projetos. Desta forma, o processo de intervenção urbana fica truncado. O papel do poder público não pode ser substituído, há que se ter vontade política para enfrentar as complexas questões das nossas cidades. Na revista Manchete de 1953, Niemeyer esboça os conceitos que estava elaborando sobre o urbanismo. Brasília estava germinando e nasceria sete anos depois.

Oscar Niemeyer fala sobre a relação entre o oceano e as montanhas do Rio de Janeiro, sobre o espaço público e sobre a casa. Chamam a atenção os croquis do arquiteto justificando a liberação do solo, a contraposição entre a ocupação do pequeno lote cercado e a construção unifamiliar isolada e o bloco multifamiliar com o solo liberado para o uso público. Impressiona o croqui que critica a ocupação densa de Copacabana. Naquele momento não se imaginava a que ponto chegaria a sofisticação das soluções de segregação.

Cabe o destaque para algumas citações do arquiteto:

– Sobre as favelas: “as soluções protelatórias nada resolvem sob o ponto de vista prático ou humano, podendo quando muito , representar experiência útil, para realização posterior, em época de maior equilíbrio e compreensão”. Vendo as nossas cidades hoje, ainda há que se construir bastante equilíbrio e compreensão.

– Sobre o crescimento das nossas cidades: “da falta de condições indispensáveis nasceu este crescimento desordenado das nossas cidades, que carecem de um plano-diretor que disciplinasse sus diversos setores, em função das distâncias, da circulação e das necessidades da vida e do trabalho humano. Suas perspectivas, portanto, são melancólicas e pouco animadoras. Dentro dessas dificuldades e limitações, os planos, em geral, ficam no papel, deslocando-se nossas atividades para algumas realizações mais objetivas de prédios isolados”. 7 anos depois, o arquiteto inaugurava Brasília.

Os desenhos, e a entrevista, ainda que datados, induzem a reflexão do processo de construção das nossas cidades – daquela época e de hoje – a nossa atuação (dos arquitetos) e a necessária construção de intervenções possíveis.

Nota

1
MENDES, José Guilherme. “Niemeyer destrói e reconstrói o Rio”. Fotos de Salmão Scliar. Desenhos de Oscar Niemeyer. Manchete nº 54, Rio de Janeiro, 02 maio 1953, p. 29-34.

   
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Coluna de José Armênio Brito Cruz
     
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Hoje ontem, nº 6, setembro 2006. Coluna de José Armênio Brito Cruz. São Paulo, editoria Documento, Portal Vitruvius
 
           
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