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Parque Ibirapuera: admirável mundo novo

Nesse mês de inauguração da 27ª Bienal de São Paulo, uma antiga reportagem na revista Manchete me chamou a atenção. Edição de 21 de agosto de 1954, dia oficial da inauguração Parque do Ibirapuera, a matéria falava sobre o estágio de construção da mais importante obra comemorativa do IV Centenário da cidade de São Paulo.

A primeira página da reportagem traz a rampa do “Palácio das Indústrias” – como era chamado na época o Pavilhão que hoje chamamos de Bienal. A nomenclatura de origem explica a escala dos ambientes. Sempre achei – talvez por ter gravado uma imagem infantil de freqüentador mirim do parque – que aquele espaço era destinado à exposição de tratores ou grandes máquinas com pinturas reluzentes prontas para início de operação. Desde então, sempre que vou a uma Bienal de Arte espero encontrar tratores, colheitadeiras, caminhões ou grandes máquinas rotativas.

A legenda da fotografia da rampa é: “No Palácio das Indústrias, Oscar Niemeyer criou uma escada em rampa (sic), crescendo em espiral, a mais bela peça arquitetônica do Ibirapuera”. Esta legenda denota o espírito da sociedade na época, que vivia às voltas com a comemoração do IV Centenário da cidade. Esse sentimento intriga e motiva. Passamos há dois anos pelos 450 anos. Qual era o sentimento? Comemoramos o quê?

Lendo a matéria, percebemos que a intenção do arquiteto Oscar Niemeyer – “transmitir aos pósteros, em linguagem arquitetônica, o grau de desenvolvimento técnico e industrial de São Paulo , alcançado no quarto século de sua existência” – foi bem sucedida, por ser um anseio presente da sociedade na época. Sendo hoje um dos “pósteros”, entendo o que se dizia: a ciência, a busca pelo conhecimento e a técnica tinham lugar na cidade e a sociedade tinha isto como um valor.

Uma imagem muito marcante dos meus 4 ou 5 anos é a de um passeio “de mão dada” com meu pai (o mesmo que guardou as revistas Manchetes que ora servem de pretexto para estes assuntos). Era possível sentir seu orgulho como cidadão em me mostrar as recém inauguradas obras, como se ele próprio tivesse participado da concepção e construção do conjunto. E meu pai era mais um morador da cidade, como milhões de outros, não era arquiteto tampouco cientista.

A importância do Parque Ibirapuera e o valor da atitude visionária de projetá-lo e construí-lo na cidade é hoje reconhecida e valorizada por nós, os quase 20 milhões de habitantes. A recente recuperação de alguns dos edifícios do Parque (Oca, Planetário e outros), bem como a complementação do projeto original com a construção do grande teatro são bem vindas (falta tirar a ponta da marquise além dos numerosos “puxadinhos” definitivos).

Fica uma questão que parece permear o dia a dia de quem pensa a cidade: qual o papel do poder público nas últimas décadas no fomento de equipamentos como este? Porque nenhum dos nossos outros parques – Parque Villa Lobos, o Parque do Estado, o parque Ecológico do Tietê, o Parque da Aclimação, o Parque do Carmo – é como o Ibirapuera?

O Ibirapuera tem um projeto, um partido forte. Técnica e a arte juntas. São Paulo precisa de mais projetos como este.

Atualmente uma área originalmente pertencente ao Parque Vila Lobos, no Jaguaré, de aproximadamente 140.000 m2 e de propriedade da Prefeitura, corre o risco de ser vendida. Outra área, de aproximadamente 1 milhão de metros quadrados, na Barra Funda, é objeto de discussão de modelos de ocupação. Será que não seria papel dos administradores públicos responsáveis pela administração da cidade pensar outros Ibirapueras ao invés de eliminar as chances de sua existência? A análise dos índices de densidade populacional de São Paulo nos mostra vazios construídos. Os vazios ainda não construídos devem ser vistos como oportunidade de espaços públicos qualificados, não como oportunidades para o mercado imobiliário. São oportunidades de estruturação do tecido urbano da cidade a partir da sua essência, o espaço público qualificado.

Precisamos de espaços públicos, de parques públicos, de espaços públicos de qualidade. Precisamos de ao menos mais dez Ibirapueras integrados entre si para que os nossos “pósteros” possam sentir orgulho das decisões que tomamos hoje. Precisamos adensar, parar de ocupar estes vazios construídos , qualificar os espaços públicos e “fazer cidade” de uma vez por todas.

Nota

1
LINGUANOTTO, Daniel. “Parque Ibirapuera: admirável mundo novo”. Fotos de Salomão Scliar. Manchete nº 122, Rio de Janeiro, 21 ago. 1954, p. 26-31.

   
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Coluna de José Armênio Brito Cruz
     
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