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| Brasil, a potência dos arquitetos e a impotência da arquitetura 6 de dezembro de 1952, 57 anos atrás. A matéria de capa da revista semanal Manchete (1) discorre sobre a importância da arquitetura moderna brasileira no mundo e o seu respectivo reconhecimento em diversas instituições internacionais (como a manifestação do diretor do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque – Philip L. Goodwin) e revistas especializadas como a L’Archictecture d’Aujourd’hui, Architectural Rewiew, Progressive Architecture, Forum e Architectural Record que haviam recentemente se dedicado ao assunto. A reportagem cita a importância deste reconhecimento internacional incorrendo em alguns trechos, através de um ufanismo nacionalista colonialista, como quando menciona a arquitetura boomerang. “Ismos”e “istas” à parte, a arquitetura moderna brasileira já estava neste momento, e a matéria em um órgão de imprensa leigo como a revista Manchete confirma isto, colhendo os frutos de um incansável trabalho de indiscutíveis talentos. O momento do país era único. A crise política que se anunciava, a pressão americana na injunção dos negócios do país e a pressão dos trabalhadores as greves por aumentos salariais que logo explodiriam (greves de 1953 e 1957 com 300mil e 400mil trabalhadores mobilizados), pintavam o panorama da época (2). Em 1951 realizou-se em São Paulo a I Bienal Internacional de Artes Plásticas e o país estava fervilhando. Agora, no futuro, sabemos os próximos fatos que se sucederiam – o suicídio de Getúlio, a eleição e posse de Juscelino Kubitschek, a construção de Brasília, o golpe de 1964 e a ditadura militar. 50 anos determinantes para as nossas vidas (mais precisamente os nossos quase 50 anos). E a arquitetura fazia parte. O Brasil ainda é a potência da arquitetura, só precisamos avisar ao Brasil. Se existe de fato (e existe) uma força na arquitetura brasileira, ela deve ser creditada ao esforço e insistência de alguns que se dedicaram e dedicam à construção do país com uma visão livre e orientada aos interesses da maioria do povo. A potência da arquitetura persiste ainda que as instituições nacionais insistam em se manter imunes a estes esforços. A recente premiação do arquiteto Paulo Mendes da Rocha com o Prêmio Pritzker é a confirmação desta força da nossa arquitetura hoje e o seu reconhecimento internacional. As administrações públicas em diversos níveis – municipal, estadual e federal –, independente do partido ao qual estão ligadas, insistem em colocar a arquitetura como “bibelô”. Uma compreensão íntegra do território necessariamente nos dirigiria a formulação de políticas públicas com arquitetura. Isto seria um amadurecimento da democracia sobre a gestão do território. Iniciativas de outros países, no plano institucional, podem ilustrar sociedades democráticas se mobilizando pela Arquitetura. A Alemanha (3), a Dinamarca (4), ou a Holanda (5) são exemplos de países que reconheceram na arquitetura uma forma de afirmação de sua identidade nacional. Fica aqui registrada uma idéia neste momento em que os governos estão se rearticulando, seja o federal, os estaduais ou os municipais (por tabela). Uma articulação entre Ministérios, entre Secretarias no Estado ou ainda na cidade de forma mais ágil entre os diversos órgãos afeitos à construção da cidade pode construir este fomento institucional à Arquitetura, seja através de fundos fomentadores e canais de discussão ou formulação de políticas, mas fundamentalmente na articulação e potencialização de ações e decisões que são tomadas diariamente. A questão não causa aumento de custos, pelo contrário, constrói uma racionalidade da gestão sobre o território e pode gerar economia aos cofres públicos. Este alerta foi dado em 1952, onde os arquitetos entrevistados na reportagem relatam a preocupação com o futuro desta “potência da arquitetura”. O futuro deles fomos (somos) nós. Copio algumas, ainda que datadas, e dentro das paixões daquele momento, me pareceram significativas. Lucio Costa afirma que ”a arquitetura brasileira de agora, como estão as européias, já se distingue no conjunto geral da produção contemporânea e se identifica aos olhos do forasteiro como manifestação de caráter local, e isto, não somente porque renova uns tantos recursos superficiais peculiares à nossa tradição, mas fundamentalmente, porque é a própria personalidade nacional que se expressa”. Afonso Eduardo Reidy, então diretor do Departamento de Urbanismo da Prefeitura do Distrito Federal, completa: “resta agora, aos intensificarem a luta pela formação de uma nova mentalidade urbanística, já que foram vencidas as últimas resistências ao movimento renovador, cujos princípios doutrinários e novas expressões plásticas, conquistaram gera aceitação. Deverão eles mostrar agora as vantagens, a conveniência e a necessidade de serem atacados os problemas urbanos, em profundidade e com visão de conjunto, empregando, para solucioná-los, novos métodos de planejamento”. A declaração dos irmãos Roberto é incisiva: “Não nos chegam a orgulhar o sucesso individual de nossas realizações, a influência indiscutível que elas vem exercendo aqui e ali. Ao contrário, somos indivíduos melancólicos: sabemos que, para a nossa gente, pouco ou quase nada contribuímos para a ‘humanização da vida urbana’ e que esse titulo contem toda a justificação de nosso destino”. Mais adiante, Álvaro Vital Brasil afirma que ”a falta de uma consciência urbanística tem prejudicado muito mais ainda o maior progresso de nossa arquitetura. É pena que, arquitetos, só pudéssemos fazer até hoje obras isoladas e divorciadas do sentido de conjunto, separando o inseparável, isto é, o urbanismo da arquitetura, apesar dos esforços de alguns técnicos que tudo tem feito para dar às nossas cidades um plano diretor”. A construção coletiva do pensamento, além dos interesses imediatos, pode de fato fazer do Brasil – além de uma potência de arquitetos – uma potência da arquitetura. Notas 1 2 3 4 5 |
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