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Centro de São Paulo: um copo meio cheio ou meio vazio?

Já se vão mais de 20 anos de planos e projetos para a revitalização do centro da cidade de São Paulo. É uma boa hora para se fazer uma avaliação para ver onde chegamos. Muita coisa foi falada, escrita e feita, mas em que direção estamos caminhando? Este copo está meio cheio ou meio vazio?

Primeiro, levantemos alguns números. Dados da Fundação Seade e da Secretaria Municipal do Planejamento (Sempla) confirmam o que podemos constatar: uma cidade se reestruturando e uma nova perspectiva surgindo. Entre 1980 e 2006, os distritos Sé, República e Santa Cecília apresentaram um decréscimo populacional de 62.406 pessoas, ou seja, 33% de sua população original. Um vazio se enunciou, abrindo espaço para outras camadas da sociedade. São empresários, profissionais liberais, assalariados, funcionários públicos, artistas, moradores de rua, tudo no mesmo bolo. E é justamente este o diferencial do centro de São Paulo: ele abre espaço para tudo e todos, fazendo com que as pessoas convivam com a diversidade.

Esboça-se um “pseudoconflito” com o qual os discursos políticos partidários se encantam: o centro deveria ser ocupado por uma faixa de baixa renda ou pela classe média? Há ainda aqueles que defendem a convivência com a diferença, seja ela de renda ou de modo de vida.

O centro é uma região consolidada e ocupada com construções históricas, prédios residenciais e comerciais, cinemas, avenidas, praças, monumentos e teatros. Uma análise das tipologias construtivas que configuram a região nos mostra um enorme potencial de idéias e soluções, com as quais podemos aprender muito. Tomemos como exemplo a densidade populacional, que mostra o índice de habitantes residentes em uma certa região e a maneira como as construções, os usos permitidos (comercial, residencial ou industrial), as ruas e quadras se organizam em uma cidade ou um distrito.

A consolidação da região central de São Paulo obedeceu a um desenho que potencializa a densidade, valorizando os espaços públicos, praças e áreas de convivência. Comparados aos índices de outras regiões do Brasil, a densidade do centro da capital é alta, apesar do seu crescente esvaziamento. Porém, se comparada a outras grandes cidades do mundo é incrivelmente baixa. Enquanto São Paulo tem uma densidade média de 65 habitantes por hectare, em Paris, este número chega a 244.

Considerando uma densidade aplicável na região em função da tipologia de suas construções, a evasão relatada dimensiona, em termos brutos, uma subutilização de 25% da área em questão. Isto demonstra que suas estruturas espaciais poderiam ser bem mais utilizadas.

Contudo, há uma ilegalidade e informalidade na forma de ocupação do centro de São Paulo. Um exemplo recorrente: muitos prédios da região não dispõem de garagens — deixando claro que o tipo de cidade que a área central consolida é baseado no transporte público — e é comum a exploração imprópria das lojas térreas de edifícios como estacionamentos. Um prédio que não oferece condições de segurança na ocupação do primeiro ao décimo andar, não pode ser usado comercialmente no piso térreo.

As lojas térreas têm valores imobiliários por metro quadrado condizentes aos shopping centers mais luxuosos da cidade, ao mesmo tempo em que sustentam a desocupação dos andares superiores. E falando em shoppings, a região não é “a cidade dos shopping centers”. As iniciativas realizadas nesse sentido não foram bem sucedidas. O que é positivo, já que os shopping centers sugam a cidade, enfraquecem o comércio de rua e privatizam o público.

A região central pode e deve ser melhor aproveitada, melhor ocupada. Ela indica novas e inúmeras possibilidades de vida na cidade. Já é hora da sociedade enfrentar novos conceitos urbanísticos e perceber que a ocupação não deve se dar apenas sob a égide do que o mercado imobiliário preconiza de “viver bem”. A otimização desta infra-estrutura pressupõe a recuperação de princípios urbanos de convivência e o embrião desta postura está presente na região central.

A densidade do centro é a densidade da coragem, não do medo. O medo nos remete aos condomínios fechados, às cercas elétricas e ao distanciamento entre os cidadãos. É muito caro e chato viver com medo. O modelo de construção encontrado no centro abriga o espaço da convivência, da diversidade.

Devemos considerar a necessidade de modernização das construções: os edifícios que configuram o espólio do centro são, em sua maioria, muito eficientes. Precisam de atualizações no que se referem às instalações e equipamentos, entre outros itens, mas exemplos já executados mostram que edifícios reformados não deixam nada a dever aos empreendimentos mais modernos da cidade. Os vãos das estruturas são próprios para os usos, as condições de iluminação natural são boas e os pés-direitos, em geral generosos, possibilitam uma ocupação contemporânea.

A cidade não se desenha apenas com monumentos, mas importantes edifícios públicos e alguns grandes exemplares do nosso patrimônio histórico e cultural — como a Pinacoteca do Estado, a Estação da Luz e a sede da Prefeitura — já foram reformados, adequados e reintegrados às necessidades e demandas atuais de São Paulo, de seus moradores, visitantes e transeuntes. O copo está meio cheio. Uma sociedade criativa, mais feliz e menos medrosa está presente no centro. É preciso investir nesta perspectiva.

Nota

Artigo publicado originalmente na Gazeta Mercantil, 31 ago., e fim de semana, 1-2 set. 2007, Caderno de Cultura, p. 4.

   
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Coluna de José Armênio Brito Cruz
     
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