
ephemeralMATTER, f-u-r, Alemanha, 2003 |
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“Com
projeto e curadoria de Fredy Massad e Alicia Guerrero Yeste, o
programa Arquitetura Artificial, integrante das atividades
do Festival
de Música Avançada e Arte Multimídia de Barcelona / SONAR,
ocorrido entre 17 e 19 de junho de 2004, apresentou uma seleção
de obras audiovisuais realizadas por arquitetos e uma série de
três conferências através das quais se apresentou uma reflexão
sobre a criação de novos entornos e experiências arquitetônicas,
enfatizando a importância da dimensão visual na arquitetura e
no arquiteto contemporâneo”.
A
capacidade de visualização que oferece à arquitetura a atual tecnologia
digital e sua conseqüente transformação em um produto mediático,
acaba gerando formas diferentes de construir um espaço, abrindo
novas possibilidades de se refletir sobre as variações da forma,
das texturas, do espaço...
Defendemos
que estamos assistindo à emergência cultural de uma geração de
arquitetos desconcertados e superados pelas concepções e expectativas
visuais que os conduzem. Com o objetivo de promoção espetacular
se produz uma arquitetura muitas vezes feita puramente de matéria
visual, que não busca nada além de ser vista, estática ou
posta em movimento mediante processos digitais, sem possibilidade
de vivência ou de consciência, nem tampouco de materialização eficiente.
Pensamento sem dúvidas ou questionamentos. Sustenta-se uma cultura
arquitetônica cuja visibilidade deriva da saturação de imagens de
projetos e citações pseudo-filosóficas que pretendem visualizar
ou ser visualizações indiscutíveis do que é a arquitetura
da época da Revolução Digital. Chega-se a projetos marcados pelo
hermetismo, em colocações que tendem à criação de um novo purismo
acadêmico, a um mundo povoado por entes abstratos que em sua origem
seriam factíveis, mas que carecem de vigor para provocar o conflito
e o estímulo intelectual.
Às
vezes, de forma crescente, fica evidente, dentro do território da
prática da arquitetura digital, como a linguagem audiovisual constitui
um laboratório de procedimentos de exploração e materialização de
uma nova sensibilidade formal, que possibilita formas de ocupação
de espaço coerentes com as demandas psicológicas, morfológicas,
intelectuais, culturais e sociais do indivíduo contemporâneo.
Alguns destes experimentos, que expandem os limites dos constituído
pela arquitetura real e nos forçam a re-imaginar nossa consciência
de estar e ser (constituem a arquitetura artificial,
a outra natureza da arquitetura atual), têm tomado parte da “Arquitetura
Artificial”.
Perceber
as dimensões geradas pelas conotações / compreensões do artificial
revela e questiona a obsessão pela literalidade. Do confronto das
dimensões possíveis da artificialidade (algo realizado pela mão
do homem ou algo falso) apresentamos uma atitude que pressupõe o
escrutínio do produzido e visualizado mediante ferramentas digitais
para sugerir um olhar crítico e voltado para a arquitetura
atual.
Estímulo
e meio. Vivemos em uma cultura que visualiza elementos que não são
em si mesmas visualizáveis. As ferramentas digitais proporcionam
uma liberdade ilimitada, que possibilita uma cultura que transformou
a noção da consciência da presença visualizar e ter extrema consciência
de qualquer de suas diversas expectativas de experiências espaciais.
A partir de uma tela se amplia o território da prática e vivência
da arquitetura a outro território, até a essência de um artifício
arquitetônico distinto, coerente com nossa capacidade e potencial
mental e sensorial, afirmando que se está redefinindo a realidade
do que é a arquitetura.
Os
experimentos arquitetônicos digitais são uma espécie de proto-arquitetura
(alguém os definiu assim há pouco tempo), como antecipação de
uma arquitetura por vir. Torna-se ainda mais estimulante quando
observamos o que resultam tais obras experimentais audiovisuais
arquitetônicas para a essência da arquitetura artificial sob a perspectiva
do filósofo Mijaíl Epstein, que as situam dentro do fluxo de um
contexto temporal:
“O
período em o que estamos ingressando já não é a época pós alguma
coisa, seja pós-comunismo, pós-modernidade ou pós-indústria. É mais
precisamente um período proto, engendrador de novas formações
culturais. (...) existe tanta necessidade de futuro desconhecido,
que mais borra o desejo definido de nossos projetos do que contribui
para a sua realização. Proto não preanuncia ou determina
o futuro, mas suaviza o presente, confere a todo texto as qualidades
de um livro de apontamentos em branco, algo incompleto e cru. Proto
é uma atitude nova, anti-autoritária frente ao futuro, proporcionando
o ‘pode ser’ no lugar do anterior ‘deve ser’
e ‘que assim seja’. Proto é a época dos projetos
sempre mutantes, que não submetem à sua vontade nossa única realidade,
mas que multiplicam suas possibilidades alternativas”.
ephemeralMatter,
I Love Paris, 16 hrs., Seed Animation, reversed Normal, 5, 6, Eisenman’s
House ou o Clone into my World são alguns exemplos de
um fenômeno arquitetônico de pesquisa intelectual e sensorial que
se coloca como experimentação mediante técnicas e processos visuais,
que amplia a natureza da arquitetura, definindo e descrevendo
a indissolubilidade das essências do natural e do artificial
como matéria da realidade. Estes experimentos, nas margens
da arte, expandem os limites dos elementos constitutivos da arquitetura
real e nos forçam a re-imaginar nossa consciência de estar e ser:
constituem a arquitetura artificial, a outra natureza da arquitetura
atual.
Gerar
espaços, inventar paisagens, conceber novamente a presença
no espaço, dar novamente forma à forma, solidificar texturas
líquidas... Artificializando a natureza da arquitetura, convertendo-a
em matéria de outra classe, é possível efetuar um olhar sobre a
arquitetura através da qual se intensifica sua complexa essência
e transforma nossa percepção dela.
Afirmamos
que a dimensão da experimentação é imprescindível no processo de
configuração da arquitetura para nossa época, a época da Revolução
da Tecnologia da Informação, para além dos empenhos de gerar arquitetura
pelo uso do computador até a obsessão de uma literalidade formal,
pois possivelmente será necessário amplificar ou reconhecer a
capacidade mental e sensorial que dispomos para perceber espaços,
desejar formas... Pois possivelmente é necessário aprender a
chegar até a arquitetura, seja para desenhá-la e construí-la, seja
para senti-la.
Imagens
de arquitetura, reflexo essencial de uma época proto, na
qual devemos escolher deixar de crer em promessas, para, em seu
lugar, aceitar a experiência. |