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drops 09.04 | setembro 2004 | versão em espanhol

Imagens existenciais de um colapso anunciado
A queda da Faculdade de Arquitetura, Urbanismo e Artes da UMSA

 

“A casa se partiu e as portas se descompuseram (...) e logo se abriu uma tenebrosa rachadura e se viram obrigadas a abandonar a casa precipitadamente, em circunstâncias tão tristes como lamentáveis

— tudo ali estava; e sem dúvida tudo faltava”. [SAENZ, Jaime. Los Cuartos, La Paz, Ediciones Altiplano, 1985, p. 10-11]

 

A sala desceu para uma profundidade outrora subterrânea e se alojou no espaço resultante do cimento solapado. Levitando, suspendido por teias de aranha empoeiradas, permanecia solitária a tela branca esticada em um quadro retangular.

 

Os cubos azuis pintados nela, como em El Aleph de Borges, pareciam ter capturado em seus centros amarelos o espetáculo simultâneo das coisas e acontecimentos de todos os tempos e lugares. Parecia que tudo poderia ser visto repetido neles, sem diminuição de tamanho, e desde infinitos pontos no universo.

  Alfonso Claros. Estereografia, óleo sobre tela, exercício complementar da aula de Teoria da Cor, Faculdade de Arquitetura, Urbanismo e Artes da UMSA, La Paz, 2002
     

 

“vi em um gabinete de Alkmaar um globo terráqueo entre dois espelhos que o multiplicavam infinitamente, vi cavalos de como redemoinho em uma praia do Mar Cáspio na aurora, vi as sombras oblíquas de samambaias no solo de uma estufa, vi tigres, êmbolos, bisontes...” [BORGES, Jorge Luis. El Aleph, La Paz, PERIOLIBROS – UNESCO, Presencia, domingo 27 de junho de 1993, p. 31]

  María Elena Vieira da Silva (nascida em Portugal, 1908). Composição, 1951. Coleção Pública de Arte, Basiléia e Biblioteca (1949). Museu Nacional de Arte Moderna, Paris
     

No panorama devastado pelo colapso, as secções hexagonais dos cubos pareciam estar entretecidas com todos os abusos impunes, as carências, injustiças, conflitos e corrupção do planeta. As linhas de composição da estereografia, aparentemente rigorosas e simétricas, se projetavam por corredores insondáveis que penetravam nos labirintos da memória, resgatando frustrações mais familiares e próximas: a Guerra do Chaco, a Revolução Nacional, a ditadura, os desaparecimentos forçados, o terremoto de Totora, a chuva de granizo que arrasou La Paz, o Fevereiro Negro, a Guerra do Gás, as Jornadas do Crédito Facultativo, os projetos desconhecidos, as obras não projetadas, as fissuras a cada dia mais abertas, as advertências não ouvidas, dia a dia, mês a mês ... até o domingo crepuscular de junho em que as paredes da sala da Faculdade de Arquitetura, Urbanismo e Artes da UMSA se abriram de par em par, desmaterializadas sobre uma perspectiva de janelas sobre outras janelas, com os pontos de vista multiplicados em um espaço surrealista, mágico e fantástico, transfigurado por novas profundidades e projeções intemporais.

“— tudo ali estava; e sem dúvida tudo faltava”.

  María Elena Vieira da Silva (nascida em Portugal, 1908). Composição, 1951. Coleção Pública de Arte, Basiléia e Biblioteca (1949). Museu Nacional de Arte Moderna, Paris
     

Cristina Damm , La Paz, Bolívia

 
     
     
     
     
     
     
         
         
         
           
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