| O
Prêmio Pritzker outorgado este ano a Paulo Mendes da Rocha pôs em
foco uma das personalidades mais interessantes da Arquitetura Contemporânea.
Em
Israel, o fato foi amplamente noticiado, e o jornal “Haaretz” –
atualmente o mais sério aqui publicado – lhe dedicou uma reportagem
especial.
Isto
não é um fenômeno desprezível, pois a arquitetura brasileira (e
em geral a latino-americana) não é freqüentemente lembrada na imprensa
e nos meios profissionais locais, fortemente inclinados e influenciados
pelo panorama europeu e norte-americano.
E
quando sim lembrada, a figura logo indicada é a de Oscar Niemeyer,
cuja obra é automaticamente associada a uma imagem superficial que
se tem dessa arquitetura, imagem formada nos anos 50 do século passado.
Pessoalmente,
vejo nesta premiação não só o reconhecimento de um grande valor
artístico (que tenho a satisfação de ter conhecido de perto), quanto
um motivo de reflexão e otimismo sobre tendências atuais da arquitetura.
Acabo
de regressar de uma viajem a Berlim, onde confesso que – mais do
que a exuberante “explosão” arquitetônica que se seguiu à queda
do Muro e à reunificação da Alemanha – atraía-me a constatação in-loco
da destruição física e cultural de uma das mais vibrantes e fecundas
comunidades judaicas da Europa.
Mas
mesmo dentro desta escala de preferências, não pude deixar de observar
também o aspecto arquitetura moderna, seja nas suas origens históricas,
seja nas manifestações atuais num de seus centros ativos de hoje.
Uma
das mais comentadas dessas manifestações é justamente o novo Museu
Judaico, de autoria de Daniel Libeskind, construído em anexo ao
existente edifício barroco, que agora abriga dependências auxiliares
do Museu.
Também
presenciei dias atrás a uma palestra do arquiteto israelense Zvi
Hecker, que em muitas de suas obras recentes em Israel e na Europa
denota tendências semelhantes às de Libeskind.
Cito
estes dois exemplos pois um e outro me provocaram profunda desilusão:
porque vejo neles uma confirmação a mais de uma “enfermidade” presente
em muitas das produções atuais da arquitetura: uma acentuação exagerada
do “ego” do arquiteto, em detrimento do conteúdo da obra (que em
casos como o do Museu Judaico, em especial mereceria ser tratado
com mais modéstia e humildade, sem arbitrariedades formalistas e
exercícios filosóficos de duvidosa relevância); uma quase doentia
necessidade de impressionar pelo excêntrico, pelo irregular, pelo
anticonstrutivo (características que hoje não são mais empecilhos
práticos de execução, tornadas possíveis pelo desempenho quase ilimitado
do computador).
Em
contraste com este endereço, a obra de Paulo Mendes da Rocha ganha
uma dimensão de seriedade, coerência e habilidade, sem perder nada
em expressividade e originalidade criativa, e dentro de uma disciplina
estrutural severa mas simples e arrojada.
Viciada
no hábito de “catalogar” os arquitetos dentro de definições monolíticas,
a crônica local classificou a figura de Mendes da Rocha entre os
“Brutalistas”: colocação simplista que – sem ter nada de ofensivo
e podendo até ser vista como um crédito de qualidade – desconhece
e ignora a atuação deste arquiteto em numerosos projetos em que
escala e texturas denotam uma preocupação por um relacionamento
amistoso com o objeto da obra, com a pessoa dentro dela, com o ambiente
ou com realidades pré-existentes que através de seu tratamento respeitoso
e cuidadoso adquirem nova vida e novo vigor.
Espera-se
que não seja demasiado otimismo afirmar que – com esta premiação
sancionada em Istambul – a arquitetura brasileira reassume no panorama
internacional um papel de lúcida vanguarda, que seus representantes
de talento sempre mantiveram em reservado anonimato e em tímida
postura, mas que merece ser reconhecida.
As
obras de Paulo Mendes da Rocha mostram-se em contraste com ruidosas
e pretensiosas exclamações de proveniência européia e americana,
que são afirmações não de uma interpretação poética de necessidades
objetivas, mas sim de um exibicionismo megalômane, posto a serviço
dos grandes interesses do deus-mercado. |