![]() |
![]() |
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
drops 15.06 | julho 2006 [Re]Visitando Roca
Entre os extremos das revistas européias, repletas de arquiteturas cada vez mais inacessíveis, tanto pelo custo das arquiteturas, quanto pelo das revistas, e dado o contexto regional, infreqüente nas publicações, além de tudo pouco visitadas pelos estudantes, alguns professores destas plagas têm se voluntariado a servir de guias obstinados da arquitetura nativa/ regional. Na FAU-UniRitter e na FARQ/UFRGS, esse turismo cult, tem se oportunizado a partir do processo de [re]conhecimento e investigação da arquitetura meridional brasileira e latino-americana, feito através de viagens de estudos realizadas nos últimos dez anos, as quais, já há algum tempo, haviam desaparecido como instrumento didático. As viagens de estudos retornaram ao cenário acadêmico em episódios densos de experiências memoráveis relacionadas à arquitetura e à vida urbana contemporânea no sul da América do Sul, proporcionando intercâmbio com personagens emblemáticos, boa convivência, camaradagem, acontecimentos pitorescos, além de alguns percalços e riscos nem sempre bem calculados. Essas incursões têm se sucedido, como um dos principais meios de acesso à alguma arquitetura de interesse, para estudantes que muitas vezes nunca saíram de sua região e freqüentemente não [re]conhecem os valores de seu próprio contexto, tanto por falta de referências advindas da vivência, como pela ausência de experiências concretas em espaços construídos com qualidade. As viagens históricas de Arquitetura Brasileira (FARQ/UFRGS) do Prof. Arq. Júlio N. B. de Curtis, na década de 1970, às turras com estudantes e motoristas, varando sítios de interesse histórico-cultural longínquos Brasil afora, em percursos extenuantes e inesquecíveis; as de Arquitetura no Rio Grande do Sul (FAU-UniRitter) do Prof. Arq. Maturino Luz, nos anos 1980 e 1990, embrenhadas por localidades esquecidas, às turras com proprietários e mal-feitores da arquitetura local, são um bom substrato da memória de muitos estudantes e arquitetos. São também uma parte da história do ensino de arquitetura que ainda está por se escrever.
Desde os anos 90, no Núcleo de Projetos da FAU UniRitter, realizamos, com a colaboração de estudantes motivados, algumas dessas jornadas de exploração de cenários conhecidos exclusivamente pela lente de fotógrafos, ou seguidamente ausentes do repertório coletivo disponível (1). Temos, juntamente com os estudantes envolvidos, a cada viagem, conduzido um processo que envolve pesquisa, preparação e montagem de roteiros, contatos com os autores e instituições a serem visitados, organização de documentação disponível dos projetos e lugares, além da sistematização de informações úteis sobre as cidades. Esse material, depois de impresso, serve de base para as viagens e de consulta para futuros viajantes. Durante as viagens, o material é enriquecido com imagens, desenhos, mapas, registros e outras informações. Finalmente, os materiais organizados geram uma exposição e um pequeno acervo sobre o local visitado. Em cada destino, o tempo generosamente cedido por arquitetos locais é indispensável para o sucesso da programação, no auxilio à montagem dos roteiros, acompanhamento em visitas, encontros nos escritórios, fornecimento de dicas específicas, palestras para os estudantes, além da boa confraternização que grassa nas viagens (2). Dentre essas excursões, duas visitas a Córdoba e uma a Rosário, na Argentina, reavivaram alguns debates e suscitaram outros, com personagens protagonistas destes e de outros tempos.
Córdoba, nos anos 1980, consagrou-se entre as cidades latino-americanas precursoras das novas abordagens urbanas, com os temas do desenho urbano fortemente marcados pelo debate pós-moderno, a revalorização da memória, o contexto como matéria prima do projeto, a prevalência da cidade coletiva sobre o edifício individual. Miguel A. Roca, secretário do planejamento urbano de Córdoba na época, e autor de inúmeras intervenções no espaço público como as peatonales, a Plaza San Martin, o quarteirão Jesuítico, a Plaza España, ingressou no seleto grupo de arquitetos latinos de expressão internacional e teve considerável influência no meio acadêmico brasileiro no período. Chegou a ser convidado para paraninfo da turma de formandos da FARQ/UFRGS de 1989/2. Aceitou e não apareceu para uma platéia acalorada, que se refrescava com abanicos no formato da Plaza España. Roca é um viajante inveterado, a quem a intensa circulação desde Alta Gracia e sua casa natal na Calamuchita, passando pela Cátedra Roca na FADU em Buenos Aires, a direção da FAU/Córdoba, a atuação política e os projetos para Argentina e o mundo, valeu uma mala com rodinhas, sempre incorporada e uma recente publicação sobre arquitetura do século XX (3) com fotos tiradas por ele próprio...
Os projetos de Roca dos anos 1980 e 1990, armados sobre uma base compositiva figurativa, de filiação iluminista, com a abstração clássica que alguns pós-modernos procuravam nas obras “pré-modernas” da ilustração, como em Boullé e Ledoux e a reprodução tipológica de sistemas de volumes articulados, variando sobre o mesmo tema, como em um catálogo de Durrand, se integram em um grupo, que, de acordo com Segawa em publicação recente, viajavam pela história, guiados por Louis I. Kahn. Roca potencializou o sistema compositivo polivolumétrico, a partir dos Centros Comunales, realizados em Córdoba e no conjunto de equipamentos públicos, realizados para La Paz nos anos 1990. Hoje, chama a atenção em Córdoba, cidade de escala semelhante à de Porto Alegre, o bom estado das intervenções dos 1980, em continuidade à cultura de valorização do espaço público, visivelmente mais disseminada nas cidades argentinas que nas brasileiras. O Quarteirão das Luzes, as intervenções nas construções jesuíticas, o mobiliário e sinalização urbana determinam um cenário de qualidade para uma estrutura edilícia controlada por padrões urbanísticos adequados e uma qualidade média da arquitetura recorrente, que faz toda a diferença. A homogeneidade construtiva do ladrillo, dentre arquiteturas pós-modernas de Togo Diaz como os Edifícios Zigurats, Florida ou Sant’Angelo e/ou mais abstratas como de Gramatica, Guerreiro, Morini, Pisani e Urtubey no edifício Nazareth II, todos feitos com apuro técnico e projeto esmerado, transcende o debate estilístico e impõe os atributos necessários à ambiência urbana: qualidade individual predominante das edificações e articulação na identidade do conjunto. A qualidade média da arquitetura produzida pelo mercado imobiliário e o controle urbanístico dessa produção, dentro de padrões técnicos e morfológicos coerentes, oferecem a substância predominante para a qualidade do espaço urbano, sobre o qual as realizações públicas e as obras excepcionais agem, tornando cidades como Córdoba e Rosário lugares aos quais vale a pena viajar para conhecer.
As obras recentes de Roca, encontradas no Campus da Universidade Nacional, oferecem, no entanto, muito mais que a média. Sua migração arquitetônica para uma decomposição dos volumes em planos volta a sorver da inesgotável fonte neo-plasticista da arquitetura moderna dos anos 30, explorada pela vanguarda européia e apropriada sinuosamente pelos brasileiros e vigorosamente pelos mexicanos. Desde os anos 1990 essa arquitetura constituída de panos transparentes justapostos a uma interpretação expressiva da natureza construtiva, através dos planos de concreto, contrapostos por painéis de madeira, foi retomada pela investigação racionalista de paulistas, como Angelo, Bucci, e Álvaro Puntoni; chilenos, como Mathias Klotz e Alejandro Aravena; rosarinos, como Rafael Iglesia e cordobeses, como Monica Bertolino, Carlos Barrado e o próprio Roca. Inicialmente, em Córdoba, o Jardim Botânico de Barrado e Bertolino, estrategicamente como o de Ferrater, em Barcelona, dialoga com o meio, através de planos texturizados, percursos que interpenetram nas edificações e espaços abertos, a modelagem do terreno de forma a conjugar arquitetura e natureza. Roca adota a mecânica dos planos e os justapõe ao jogo de volumes, retornando ao sistema matriz de variação sobre um mesmo tema. No tabuleiro da universidade, várias faculdades estão construídas basicamente com planos e volumes de concreto aparente, trespassados por superfícies transparentes e/ou amortecidos por superfícies de madeira em um resultado que impressiona pela sofisticação de detalhes e a riqueza do conjunto. Visitando Roca em sua casa na Calamuchita, na região Jesuítica de Alta Gracia, deparamo-nos com o mesmo sistema organizado em escala doméstica. A ala social, aberta à paisagem através de planos ladeados e coroados por volumes figurativos que mediam introspecção e extroversão constitui uma ponte entre os anos 80 e hoje. Chegamos a Calamuchita, no início da tarde, aproximadamente 40 estudantes e professores da FAU UniRitter, quase simultaneamente com um grupo de Buenos Aires, um de Córdoba e um pequeno da FAUFRGS, capitaneado pela Andréa Machado. Éramos aproximadamente 150 almas. Roca não estava. Circulamos pela casa, que se encontrava aberta, andamos pelos jardins, descansamos na grama, comemos uma torta de dia do professor, providenciada pelos alunos. Mais tarde Miguel apareceu, feliz com os 150 visitantes. Ordenou a todos que tirassem os sapatos para andar pela casa, mas já era tarde, e comeu da torta no entardecer do pampa argentino. Esse nível de “globalização” que conecta e [re]conecta cursos e [per]cursos distintos, que se entrelaçam de forma meândrica em tempos e lugares esparsos, é de uma riqueza vasta para os estudantes, arquitetos (que foram e serão) e outros tantos viventes. Apresentam passado e futuro simultaneamente, e mais. Retomando momentaneamente linhas de tempo e fluxos com personagens e lugares que já estiveram presentes em outros tempos, sedimentam-se os valores de cada época, de cada momento e os valores que transcendem, tempo e lugar. Vale a pena, [re]visitando Roca, ver que, acima de qualquer produção datada, de época, remanesce qualidade urbana e uma produção arquitetônica que se renova mais uma vez, sempre repleta de talento.
Notas 1 2 3 4 Sergio M. Marques, Porto Alegre RS Brasil Sergio Marques – Prof. FAU UniRitter – Coordenador Núcleo de Projetos, Prof. Depto. Arq. FARQ - UFRGS, Doutorando PROPAR – FARQ - UFRGS, Escritório MooMAA Outubro de 2005. Ônibus - em algum ponto entre Rosário e Córdoba, na Argentina. Texto revisado por Liria Romero Dutra |
|
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| | Arquiteturismo | Arquitextos | Cadastro | Concurso | Documento | Entrevista | Evento | Institucional | Livraria | Minha Cidade | Noticiário | Resenhas | RG | Vitruvius | | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||