
Objeto / ferro, vidro, bola de gude (20x11x07cm)
|
|
Pensei
em elementarismo, despojamento, abecedarismo geométricos mas
acabei por optar pela idéia do nudismo abstrato, para tentar
caracterizar a postura e a impostação de Almandrade ante suas
criações e criaturas sígnicas que hesitam entre a bi e a tridimensionalidade,
em duas ou três cores, em duas ou três texturas.
A
parcimônia desses objetos franciscanamente contundentes, desenhados,
signados (designed), compostos segundo uma grafia de
cartilha, porém enganosamente sig-nificada e simplista, posto
que metafísica.
Criam
um campo significante que parece rechaçar instruções extratexto,
mesmo quando inclui algum elemento metafórico in memorian
Dadá.
Meteoritos
geométricos do pensamento, taquigrafia precisa de uma claríssima
visão cuja totalidade se ofuscou, indício e impressão minimal
de um evento artístico-mental; ocorrido no panorama ecológico
da arte do século XX, como um pássaro em extinção, aparição
de ordem inegavelmente metafísica, essência e forma divinas
(diria Baudelaire) do pássaro nu da poesia e de seus amores
descompostos.
Um
nudismo Proun (El Lissitsky) nos trópicos, lembranças metonímica
do paraíso, graciosas construções-instalações não habitáveis,
amostras quase-duchampescas, quase-vandoesburguesas de um
ex-Éden artístico, onde a provável ironia embutida não passa
de meio-sorriso.
Esses
seres correta e rigorosamente nus, o olho os colhe por inteiros,
como objetos cabíveis no bolso. E há música neles, mas não
é sequer de câmara – é de cela, nicho e escrínio: são microtonais,
minideogramas sólidos à Scelsi.
O
Almandrade capricha nas miniaturas de suas criaturas, cuja
nudez implica mudez, límpido limpamento do olho artístico,
já cansado da fantástica história da arte deste século interminável,
deste milênio infinito. |