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Luís Gravito, Malveira, Portugal. ARX Portugal, 2002 |
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Pedro
Jordão: Existem,
no vosso trabalho alguns conceitos ou objetivos permanentemente presentes?
Já se pode dizer que há um estilo ARX?
Nuno
Mateus: Eu acho que é mais um modo de estar na vida profissional.
Uma certa insatisfação metodológica, permanente, de cada projeto começar
do zero. Tentar que cada projeto seja genuíno em si, tenha a sua própria
história, o seu próprio universo de ingredientes dados à partida – o contexto,
o programa, os clientes, a proveniência... Essa é uma idéia mais
ou menos sistemática de recorrência. Nós próprios temos discutido essas
questões da recorrência, que obviamente existem, porque existe uma memória
e é difícil trabalhar sempre fora dela. As recorrências que nós temos,
e desde logo a palavra ARX, ou Architexture, têm a ver com uma
idéia de não hierarquização do território, uma democratização da
geometria, de certo modo. Todos os pontos são iguais, não há perímetro,
não há centros, não há eixos... É uma espécie de equivalência de cada
pixel, de cada plano... É o que chamamos arquitextura, desmontável
em três grandes palavras – arquitetura, texto e textura.
José
Mateus: No início, como quaisquer jovens arquitetos, vivíamos
de um modo mais tenso com essa questão, porque, quando um ateliê
está a iniciar-se, tem um problema de identificação muito claro. Quer
desenhar uma série de coisas, quer construir uma série de coisas que caracterizem
o que é o seu trabalho. E cada projeto de um jovem arquiteto é, normalmente,
muito sobrecarregado de intenções. Hoje em dia estamos mais tranquilos.
Perceberão melhor o que é a nossa arquitetura observando cinco ou seis
projetos lado a lado. Com o tempo, passamos a ganhar a consciência de
que tínhamos que nos libertar desse stress. Por outro lado, mantivemos
a nossa característica de sermos autocríticos, no sentido em que valorizamos
muito o experimentar. Há algum tempo li um texto do [escultor basco Eduardo]
Chillida em que ele dizia que valoriza menos a experiência e mais o experimentar.
E isso interessa-nos bastante. Somos assim. Estarmos a fazer sempre a
mesma coisa, sempre numa determinada lógica, não nos interessa. E depois
existem as coisas que vemos, as coisas que lemos, as coisas que ouvimos,
que acabam por ajudar, em cada caso, a desenhar um projeto. Às vezes aparecem
de um modo muito claro, outras vezes estão cá na nossa biblioteca mental,
mas criando situações específicas em cada projeto. E só sabemos qual é
esse tipo de especificidade quando estamos completamente obcecados por
aquele projeto que vamos construir, por aquela idéia. Idéia
essa que deve ser tão forte que permita todas as coisas que num processo
de projeto podem entrar e subverter. Houve épocas em que andávamos muito
interessados em algumas coisas do [artista plástico francês] Marcel Duchamp
que acabavam por também entrar, ou ter consequências, na nossa produção.
NM:
Ao falarmos do seu Nu Descendant Les Escaliers, estamos a falar
de questões de dinâmica muito associadas ao cubismo e à cronofotografia,
que tinham para nós implicações, no sentido em que a arquitetura é, por
excelência, estática. Muitas vezes, o desenvolvimento conceitual utiliza,
como método, o oposto como motor de procura. E essa questão da dinâmica,
ou da não estabilidade, é uma questão que eu considero estar tão presente
hoje como há dez anos atrás. A relação estabilidade/instabilidade é uma
procura de tensão que nós estamos e continuamos cada vez mais a procurar
como um lugar de dimensão e poética do nosso trabalho. Eu diria que, a
certa altura, nós adaptamos a um certo tipo de construção, um conceito.
E a experiência leva-nos a poder ir mais longe com essas investigações.
Aliás, a parte construtiva começa a ser integrada muito mais cedo no sentido
conceitual. No meio dos nossos projetos, há alguns que são parte da mesma
família, em que a arquitetura é feita de matéria moldável. Seja ela qual
for, é matéria moldável. O espaço cartesiano é muito interessante, tem
uma série de possibilidades, mas obviamente tem limitações, sobretudo
quando trabalhamos com escavações, com luz, com toda uma série de ilusões
na aplicação das materialidades do edifício. Eu acho que os nossos projetos
começam a ter uma diversidade cada vez maior. Estamos, por um lado, a
tornar os projetos e as construções mais simples e, por outro, a torná-las
cada vez mais tensas e complexas. Que é uma coisa que sempre nos interessou
muito e continua a interessar, a complexidade. E o [Álvaro] Siza disse
isso melhor que ninguém: o simples é o oposto do simplismo. E
isso é extremamente interessante, porque de fato o simples e o complexo
podem ser uma e única coisa.
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Casa Luís Gravito, Malveira, Portugal. ARX Portugal, 2002 |
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