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SOS
Park Hotel, já! No dia 13 de setembro de 2008, no início da tarde, chegou a Nova Friburgo um ônibus com dezenas de arquitetos, professores e alunos de pós-graduação de escolas de vários estados brasileiros. A delegação estava cumprindo a última etapa da programação do 1º Encontro Regional do Docomomo-Rio: uma visita técnica ao Park Hotel projetado pelo arquiteto Lucio Costa. No dia anterior, em uma exaustiva mas entusiasmada jornada, os participantes puderam fazer um balanço sobre o “Panoramas do Moderno Fluminense”, tema do encontro, que aconteceu no Fórum de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no bairro da Urca, um palácio neo-clássico magnífico, memória da antiga capital imperial (1). Havia uma apreensão coletiva no ar, pois as informações não eram muito boas: o hotel do Dr. Lucio está em risco. O nervosismo da viagem – surpreendentemente demorada para uma distância relativamente curta – se dissolveu com o riso diante do equívoco do motorista, que entrou por uma rua errada e nos atrasou ainda mais. A primeira visada foi da rua abaixo do hotel, de um ponto de vista muito próximo da famosa foto da época de sua inauguração publicada no livro de Henrique Mindlin, Modern Architecture in Brazil, de 1956, e tantas vezes republicada. Primeira surpresa também: a idéia que eu tinha de um edifício solto em meio a um imenso terreno foi desmontada de imediato. O hotel está encaixotado entre duas ruas paralelas muito próximas, com uma rua lateral fechando o terreno. Os automóveis passam a quatro ou cinco metros da fachada aonde se localiza a entrada. Confesso a decepção: não era nada do que eu esperava. Contudo, ao contornar a esquina e me aproximar do hotel, sua presença por detrás de uma árvore revelou o fundamental: uma arquitetura síntese de um pensamento superior. O Park Hotel que surgia diante dos meus olhos era aquele que eu havia ideado há muito tempo como a primeira obra-prima de Lucio Costa, aonde o mestre pôde confeccionar ele mesmo aquilo que havia ensinado a tantos arquitetos: a somar a arquitetura moderna funcionalista à tradição vernacular colonial que ele aprendera a amar como ninguém. A apreensão voltou, para não mais me abandonar, ao verificar que o delicado alpendre que marcava o acesso dos hóspedes tinha desaparecido. “Caiu”, foi a informação dada, para logo ser completada com a reconfortante (ao menos era para ser) frase: “mas está guardado em um depósito”. Dentro, os indícios que as coisas não andam bem vão se avolumando: tábuas do assoalho se soltando, esquadrias vergando sob o peso excessivo de madeiras encharcadas, banheiros desabilitados, móveis amontoados, fiação exposta. Nada disso abala a qualidade impressionante dos espaços gerados por uma articulação muito engenhosa de estrutura de madeira apoiada no maciço de pedra que conforma parte do térreo. Sempre achei que foi uma estratégia do arquiteto para contraventar e dar estabilidade para o uso inconveniente de pilares e vigas de madeira usadas como se fossem de concreto. O que vi parece confirmar a hipótese. Mais doloroso do que observar o desgaste do tempo – de resto, sempre passível de reversão enquanto o edifício se sustenta – é constatar que o mundo que dava sentido àquele edifício desapareceu. “Não se vai mais a veraneio para Nova Friburgo”, fico sabendo. “Não é economicamente viável um hotel de dez quartos”, isso eu já sabia (2). Com um esforço enorme guardei minha melancolia para acompanhar o breve debate que ocorreu a seguir. O tema não poderia ser outro: o estado de conservação do hotel. Como chegou a esta situação? Quais suas reais condições? Há risco de ruir? Quais as alternativas de restauro? Que destino dar ao edifício uma vez reabilitado? Estas e outras questões surgiram. Formando a mesa, Maria Helena Flores Guinle – filha de César Guinle, construtor do hotel – ladeada por Marlice Azevedo, Roberto Segre e Renato Gama-Rosa. Na platéia, Maria Elisa Costa, filha de Lucio Costa e que já havia feito a apresentação final da sessão carioca do Docomomo no dia seguinte justamente sobre o Park Hotel, também respondia às questões. O balanço provisório que posso fazer da conversa realizada na varanda do hotel é de que há alguma esperança. As alternativas existem e – condição principal – as pessoas que se importam também. A começar pela família, que parece ter entendido que a sobrevivência do hotel passa por modificações profundas para se ajustar a situação às demandas da nossa sociedade atual: o hotel já não é mais viável, ao menos da forma usual; por ter uma importância cultural que transcende sua condição de imóvel explorado comercialmente impede que a família continue como proprietária convencional, mesmo porque ela não têm condições financeiras para arcar com os custos altíssimos implicados em um restauro bem feito. A criação do Instituto César Guinle aponta para um encaminhamento institucional, seguramente o único viável. As idéias que estão sendo cogitadas são muito interessantes – hotel para arquitetos e estudantes de arquitetura e hotel-escola do SENAC – e não excludentes. Eu mesmo tive minha ideiazinha, de que o hotel pudesse ganhar um anexo contemporâneo que lhe permitisse de fato a flexibilidade necessária para usos diversos. O fundamental, de qualquer forma, parece que já está acordado: enraizar ainda mais o Park Hotel na cidade, abrindo seu espaço para a comunidade (e a escola seria uma solução fantástica para isso ocorrer); e espraiar ainda mais seu significado artístico, cultural e histórico para outras plagas, seja Brasil ou exterior (e o hotel renovado seria muito oportuno para abrigar os interessados). Na entrevista que se segue será possível ir mais longe do que esta breve e lacunar apresentação, pois quem nos responde são aqueles que mais conhecem a história e a situação atual do Park Hotel de Lucio Costa. Notas 1 2 |
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