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| Mayer
Park Project, Lisboa, Portugal, 2002 |
Fábio
Duarte: Desde os anos 80 você trabalha com "Arquitetura Virtual",
tanto conceitualmente quanto em projetos. Levando em conta as transformações
tecnológicas nestes últimos 20 anos, quais as idéias de arquitetura virtual
permanecem? O que mudou?
Emanuel
Dimas de Melo Pimenta: Naquela época, no início dos anos 1980, as
pessoas estavam mais interessadas em tomar os computadores como espécies
de instrumentos que tornavam mais fácil e mecânico o desenho. Curiosa
primitivização do novo meio, uma vez que muitos percebiam o computador
como algo "mecânico". Mas, foi o que aconteceu. Tivemos, de
fato, muitas novas invenções nestas últimas duas décadas, entretanto todas
elas foram – de uma ou de outra forma – expansões daquilo a que chamamos
"computador". Há imagens interessantes através de duas palavras
chave. O termo computação surge do Latim putare, que significava
"podar árvores", "contar" e "pensar", "refletir".
Essa é uma pista para o fenômeno, através de uma poética imagem das árvores,
as suas ramificações fractais e uma espécie de fusão entre os atos de
contar e de refletir – a primeira indicando na segunda o ato de “cortar”,
selecionar. A outra palavra é ordenador, termo utilizado pela língua francesa,
que significa "colocar em ordem" e que surgiu do Latim ordiri,
que indicava o ato de iniciar um tecido, começar a tecer, a urdir. Curiosamente,
o Mahabharata diz-nos que «o conhecimento é um tecido contínuo» e julga-se
que a palavra Latina ordiri terá lançado raízes em oriri
que, por sua vez, faria surgir o nosso termo oriente que indica "o
nascer das estrelas no horizonte". Creio que as raízes etimológicas
dessas duas palavras iluminam a grande metamorfose que vivemos. Vinte
anos é um espaço de tempo muito pequeno em termos civilizatórios. Aquilo
que era futuro há vinte anos ainda não se tornou completamente passado.
E, ainda assim, tudo mudou. A arquitetura virtual é um método. Tomar todas
as coisas como elementos matriciais do pensar o tempo e o espaço. Ventos,
fluxos, histórias, linguagens, meta-espaços, topologias, luzes e assim
por diante. Tomar como nossas todas as tradições planetárias. Saber que
o coletivo surge do indivíduo, e não o contrário. Estabelecer um fluxo
contínuo entre os nossos sentidos e próteses inteligentes. Enfim, um método
para estabelecer a dimensão virtual, do virtus latino que significa
potencialidade total. Em março de 2005, a CNN apresentou os resultados
de uma pesquisa sobre as vinte e cinco mais importante inovações tecnológicas
dos últimos anos. A Internet, os telefones celulares, computadores pessoais,
fibras ópticas, emails, gps comercial, computadores portáteis, discos
de memória, pequenas câmaras fotográficas digitais... e assim por diante.
Em toda a lista apenas um ponto parece-me anunciar uma nova metamorfose:
a nanotecnologia. Ela representará uma fabulosa alteração de escala, e
com essa mutação todo o universo lógico estará igualmente transformado.
FD:
Pensando justamente nessas importantes inovações tecnológicas, parece-me
claro que se a tecnologia poderia até existir em si há 20 anos,
o que de fato importou foi sua inserção na sociedade de forma a se tornar
as extensões do homem, como dizia McLuhan, e seu impacto é, por
contraditório que pareça, maior na medida em que se torna “invisível”,
em que se infiltra pelos meandros do cotidiano. Neste sentido é que gostaria
ainda de explorar sua trajetória profissional por trabalhar com arquitetura
virtual desde final dos anos 80, quando os computadores eram tecnologia
de laboratório, até hoje, quando sua força está nas infiltrações possíveis
que têm em diferentes tecnologias que outrora não se comunicavam, e seu
uso cotidiano a ponto de tornarem-se invisíveis.
EDMP:
Para lhe responder gostaria primeiramente voltar a uma questão essencialmente
filosófica – esclarecida por René Berger pouco tempo atrás. Num ato falho,
de exuberante elegância, as sociedades contemporâneas têm confundido –
no sentido de fundir junto – os sentidos de tecnologia e de técnica. Em
termos gerais, tudo é técnica – apenas isso. Do uso do garfo, da caneta,
ás roupas ou aos computadores. O tecno logos é o estudo sobre a
técnica e não a sua aplicação, a sua vivência. Mas, trocamos, magicamente,
o uso da palavra técnica pela tecnologia, revelando a transformação que
a técnica implica na forma de pensar. Toda a técnica é conhecimento. Estrutura
de conhecimento. Ela torna-se invisível quando deixa de trazer em si,
em primeira instância, o meio anterior como conteúdo, e torna-se futuro
naquilo que se revelará à frente, no futuro. Às vezes, damos passos –
por acaso na teia do conhecimento – que antecedem o futuro. Provavelmente
foi o que aconteceu enquanto técnica. Tomando, aqui, uma abordagem essencialmente
prática, fazer arquitetura em espaços virtuais, modificando dinamicamente
desde a abertura angular do olhar – podendo rapidamente transitar entre
diversos desenhos de espaço, daquilo que seria uma objetiva “normal” à
uma grande angular – às flutuações gravitacionais em tempo real, era algo
incompreensível para muitos arquitetos. As pessoas estavam “agarradas”
ao papel. Tudo o que escapasse àquela iconologia era imediatamente classificado
como arte, como especulação, e não como arquitetura. A arquitetura era
restrita ao condicionamento do seu meio enquanto pensamento. Nesse sentido,
muita coisa mudou. Mas, nem tudo. É verdade que temos hoje arquitetos
geniais, mas continuam sendo incompreendidos. Paralelamente à essa abertura
– como a Natureza opera por contrários – também surgiu uma híper
cultura, super conservadora. Se, por um lado, surgiram alguns pensadores
do espaço munidos de um novo complexo cognitivo, também aumentaram as
leis e as regras burocráticas presas ao universo anterior. Hoje o mundo
virtual é invisível, pois é o ambiente geral, mas muito raramente esse
ambiente revela-se nas realizações arquitetônicas, que são fortemente
controladas pelas burocracias governamentais.
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