IV Congresso Ibero-Americano de Gráfica Digital
PROURB - Programa de Pós-Graduação em Urbanismo - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade Federal do Rio de Janeiro

Resultado do Concurso Público Nacional de Arquitetura Telemar
Centro Cultural da Telemar, rua 2 de dezembro, Flamengo, Rio de Janeiro

O Museu do Telefone está agora sendo repensado como uma nova proposta arquitetônica e museológica, escolhida em concurso nacional por votação unânime da comissão julgadora. No Espaço da Comunicação experimentos e terminais de computadores serão instrumentos de apoio e de facilitação para o entendimento do processo tecnológico.

O projeto do novo Museu do Telefone se baseia na sobreposição de duas malhas. Para contrastar com a estrutura ortogonal rígida do edifício antigo, criamos uma malha que determina todas as novas linhas da intervenção. Para esta malha, escolhemos um tema que fizesse referência à comunicação: as ligações - forma de comunicar, telefonar - entre todas as capitais dos estados do Brasil.

Pretendendo não só manter a fachada antiga, mas também as características volumétricas, o projeto prevê a ampliação em um único volume, separado e conectado com o edifício antigo por um grande vão de transição que contém os elementos da circulação vertical, representada pelas escadas e pelo elevador.

A entrada ganha um novo significado devido à atual implantação: localizada na fachada lateral, na interseção entre o novo e o antigo, ela pode ser vista dos principais pontos de chegada, das Ruas Dois de Dezembro e Projetada.

As fachadas lateral e de fundos do museu possuem um painel com aspecto funcional de controle de iluminação natural, e artístico representando a imagem do edifício para o exterior.

Memorial
Museu do Telefone. Um Espaço da Comunicação

Quando se pensa sobre o que é o espaço da comunicação se pensa instintivamente em lugares como um fio de telefone, a platina de um grande servidor, um satélite. Mas o arbítrio destas imaginações revela que afinal o espaço da comunicação é bem mais abstrato: comunicação não acontece num determinado lugar, acontece no éter, o elemento que se define pela ausência de toda matéria perceptível, a passagem da energia. Assim se chega na conclusão que comunicação acontece na ausência de um espaço real.

Mas como então se apresenta um Museu Espaço da Comunicação? Arquitetura sem dúvida tem como um objetivo a criação de um espaço real, existente e acessível. Mas será que não é possível criar um espaço que inclui a ausência dele mesmo?

Espaço real se define por seus limites (parede, teto, etc.) que estipulam o tamanho, as proporções, o ambiente.

Se os limites fossem virtuais, ou não existentes, ou existentes mas invisíveis, ou desfocados, ele poderia transmitir a ausência dele mesmo através de sua indefinição.

A forma

Para dar forma ao Espaço da Comunicação, pretendemos recriar a densidade que a informação e a comunicação hoje possuem, ampliando a edificação existente num único volume: uma caixa que contenha todas as funções necessárias (desde acesso até exibição). Para passar a mensagem da virtualidade dos limites, as paredes deverão ser integradas e múltiplas, podendo ser ora cortinas de água, ora fachadas de mídia como meio de comunicação, limites desfocados, reais ou irreais.

A sobreposição das malhas

No terreno retangular o prédio existente segue rigidamente a malha ortogonal. As intervenções e a ampliação querem contrastar com as formas do prédio existente. Para tal, eles ou ficam arbitrários ou seguem uma malha que define uma ordem superior. Para esta malha escolhemos as ligações - forma de comunicar, telefonar - entre todas as capitais dos estados do Brasil.

Esta malha resultante cria uma densidade suficiente para conseguir uma funcionalidade, cria ângulos livres contrastando da ortogonalidade do prédio, e foi escolhida subjetivamente (existem outras malhas possíveis), mas é determinante para estabelecer uma matriz para toda a intervenção. Esta ordem não será reconhecível tanto quanto uma estrutura ortogonal, porém percebida pelo próprio circuito da exposição.

Os limites do real espaço virtual

Como forma de concretizar as idéias de indefinição dos limites do edifício, experimentamos as imagens de algumas paredes, tornando-as transponíveis ou intransponíveis. Para isso, usamos barreiras de luz, paredes de vidro transparente ou fosco, ou ainda cortina de água. Este jogo de estruturas, não mais permite perceber o limite do espaço, mas de repente senti-lo.

Com a abertura da nova rua lateral, o novo "Espaço da Comunicação" ganha uma implantação privilegiada na esquina de duas ruas, valorizando suas três fachadas e o conjunto que este faz com o IAB. Esta situação requer uma volumetria marcante que segue todas as exigências urbanas e torna legível a organização interna do museu.

Pretendendo não só manter a fachada antiga, mas também as características volumétricas, o projeto prevê a ampliação em um único volume, separado e conectado com o prédio antigo por um grande vão de transição que contém os elementos da circulação vertical, representada pelas escadas e pelo elevador.

O volume novo tal como o vão seguem consequentemente a malha das ligações, contrastando com a estrutura ritmada e modulada do museu existente.

Da mesma forma, os espaços internos foram organizados seguindo esta ordem maior. Apesar do edifício antigo e o novo volume permanecerem como duas visões diferentes, dois momentos da arquitetura, estas áreas constituem um todo integrado havendo a todo momento um diálogo entre passado e presente (e até mesmo futuro). Para concretizá-lo, sobrepomos as duas linguagens: do antigo para o novo, os pilares cilíndricos acrescentados e o volume dos banheiros e da escada de incêndio seguem a ortogonalidade da estrutura antiga; e do novo para o antigo, algumas das principais linhas da malha foram marcadas no piso.

Com todas as suas características, o novo "Espaço da Comunicação" toca todos os sentidos e cria emoções, combinando formas, texturas e volumes, havendo portanto uma fusão harmônica entre conceitos tecnológicos, ambientais, estéticos e funcionais.

Conexão

O elo de ligação entre o edifício antigo e a nova intervenção se define como um grande vão livre. A luz natural penetra pelo vão gerando um eixo que se torna um elemento orientador do edifício e das exibições. As circulações verticais, escadas e elevador, se desenvolvem neste vão, interligando de maneira interativa as áreas de exposição, uma vez que os pavimentos antigos, preservados, são ligados a quatro novos pavimentos intermediários, que se desenvolvem na área nova. Esta diferença de níveis é uma forma de marcar claramente a intervenção, além do emprego de materiais diferentes para o revestimento do piso.

Por este vão se tem a clara visibilidade de todos os pavimentos que compõem o espaço. Pode-se entender aonde se está, aonde se vai e aonde se quer ir. O movimento através do vazio permite experimentar esta dinâmica dos espaços, onde as escadas - que seguem a força maior do projeto, a direção das linhas da malha - são parte do trajeto dentro da arquitetura.

O espaço interno

O Museu do Telefone, está agora sendo repensado como uma nova proposta arquitetônica e museológica, como museu de tecnologia, devendo estar em constante transformação e crescimento. A evolução da tecnologia não nos permite delimitar um tempo ou período para uma exposição de longa duração, pois corremos o risco de deixarmos de levar ao público as conquistas que a técnica impõe ao mundo moderno. Não podemos estagnar a exposição num recorte de tempo e/ou técnicas escolhidas num critério muitas vezes equivocado do que é passado e por conseguinte, musealizar somente o que entendemos como antigo.

O conceito de Museu de Tecnologia é hoje, em todo o mundo, um conceito novo, em que a interatividade é a tônica. No Espaço da Comunicação experimentos e terminais de computadores serão instrumentos de apoio e de facilitação para o entendimento do processo tecnológico não só passado como também em evolução. A exposição dos objetos que compõem o acervo, com segurança para a sua preservação, ao lado de inovações que podem ser manipuladas proporcionam, ao visitante, uma experiência sensorial que lhe permite apreender com mais prazer a mensagem que o museu está lhe transmitindo. A exposição deve assim, seguir uma lógica dentro da arquitetura, podendo ser fragmentada e não cronológica. A arquitetura do novo espaço da comunicação e esta nova proposta museológica, se complementam para enfatizar a todo momento a interatividade presente nos vários espaços do museu e nas suas exposições.

Para aumentar as possibilidades de organização dos espaços destinados às exposições, buscou-se uma maior liberação destes ambientes. A relação entre cheios (piso) e vazios (vão) valorizam o espaço orientando-o de maneira livre.

Para enfatizar a idéia de espaços difusos, criou-se uma cortina d'água que pode ser usada para projeções, formando um jogo entre fechamentos transponíveis e intransponíveis. Os espaços de exibição se mostram assim sem limites, uma vez que tudo passa a fazer parte da exposição.

As áreas destinadas às exposições na parte nova se diferenciam tanto quanto possível às da parte antiga, se afastando dos elementos tradicionais da arquitetura como paredes e aberturas, formando porém uma textura com todas as qualidades de adaptação às exigências do espaço interno.

A arquitetura do "Espaço da comunicação" participa do tema, ou seja, ela comunica e interage, ela passa para o usuário o que ela realmente é.

A memória

O projeto propõe a manutenção e restauração da fachada principal, que é a fisionomia da edificação. Ela marca a técnica e o gosto de uma época que precisa ser conservada, como testemunho de um certo período da história. Além disso, a edificação que é ocupada atualmente pelo museu do Telephone é geminada ao edifício sede do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), bem tombado, antiga Casa de Máquinas dos Bondes da Companhia Ferro Carril Jardim Botânico, formando com este um conjunto que serve de referência para o bairro.

A fachada principal preservada se integra com o todo, sendo parte fundamental do conjunto do edifício. Ela passa a idéia original de solidez, uma vez que se mantém parte da parede original lateral, que contribui para sua volumetria.

Propomos também a preservação dos pilares e lajes originais e seus revestimentos como forma de manifestar uma preocupação com a manutenção das raízes do edifício. Estas raízes não se resumem a apenas funções estruturais, e sim a bases históricas, momentos culturais, políticos e econômicos sobre os quais o edifício foi construído.

A entrada

A nova entrada proposta para o "Espaço da Comunicação" ganha um novo significado devido à nova implantação: localizada na fachada lateral, no vão formado pela interseção entre o novo e o antigo, ela pode ser vista dos principais pontos de chegada: das Ruas Dois de Dezembro e Projetada. Esta fachada opaca em vidro fosco é inclinada e tem função de conduzir os visitantes para a entrada, que é mais recuada em relação ao alinhamento. Resulta desta composição, uma cobertura, ressaltando ainda mais sua característica de principal acesso.

A integração entre interior e exterior do museu se dá pelo rebaixamento do nível de parte do primeiro pavimento, nivelando-o à calçada. Desta forma o museu se abre para a cidade, estimulando no observador o desejo de se aproximar e ver o que existe no interior.

Na antiga porta de entrada intervimos de maneira a deixar claro que esta não tem mais função de entrada principal, ao mesmo tempo que nos preocupamos com sua integridade em relação à fachada. Para tanto, propomos a colocação de um painel informativo em vidro fosco neste local que tem função de orientar os visitantes a respeito da programação do "Espaço da Comunicação".

As novas fachadas

As fachadas lateral e de fundos do museu apresentam o prédio para o novo espaço urbano e se mostram como um elemento único. Elas têm a tarefa de determinar todas as condições de iluminação natural. Seguindo a visão de que arquitetura não mais é rígida, permanente, mas transformável, e que um prédio é capaz de se adaptar às exigências ambientais, a fachada tem nos seus vários "layers" diferentes possibilidades de transformação.

Todos os "layers" têm características funcionais, tal como o vidro que regula a ventilação e o "layer da textura", formado por canos metálicos de 20 x 20cm, os quais contém um elementos giratórios regulados por computador, controlando a passagem de luz natural. Assim a fachada para dentro cria situações diversas de iluminação e para fora passa a sua mensagem digital, aberto ou fechado, 0 ou 1.

Neste projeto a distância entre espaço interno e invólucro aumenta até que a fachada não mais revela o que acontece dentro. Enquanto o espaço interior brinca com a ligação de novo e antigo, com a gráfica da malha, com a fragmentação, a fachada oferece uma imagem homogênea para a cidade.

Materiais

Os materiais propostos cumprem a exigências de resistência e simplicidade, mantendo sempre a autenticidade e a verdade deles.

Para a estrutura da parte nova, propõem-se lajes e vigas em concreto armado e pilares cilíndricos metálicos internamente preenchidos de concreto.

Como o revestimento do piso, propõe-se a manutenção do piso de madeira na parte antiga do edifício e na parte nova especificamos cimento queimado com marcação das linhas da malha em vidro fosco que continuam até a parte original.

Nas fachadas novas, utilizamos fechamento em planos de vidro com esquadria de metal e painéis de controle de iluminação.

Para as divisórias na área da administração, prevemos placas soltas de aço corten que não tocam as paredes existentes e o teto.

Como sombreamento propomos a utilização de um painel metálico de brises solto sobre a clarabóia e brises móveis na fachada de vidro do vão.

Equipe

André Lompreta, arquiteto, formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Thorsten Nolte, arquiteto, formado pela Universidade de Ciências Aplicadas FH LIPPE, Detmold, Alemanha

Marco Milazzo, engenheiro civil com pós graduação em engenharia de segurança pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e estudante (9º período) de Arquitetura e Urbanismo na Benett

Ana Paula Polizzo, estudante de Arquitetura e Urbanismo (10º período) da Universidade Federal Fluminense (UFF)

Gustavo Martins, estudante de Arquitetura e Urbanismo (10º período) da Universidade Federal Fluminense (UFF)