2º
lugar
Arquitetos Ana Paula Polizzo, Carlos Eduardo Spencer
de Vasconcellos, Duarte Vaz Guedes e Silva, Gustavo Leivas da
Costa Araújo, Gustavo Martins e Marco Milazzo
O
início
Por
sua gente e geografia, a cidade do Rio de Janeiro evidencia um
aspecto singular de apropriação dos territórios físicos. Estes
dois fatores combinados a um conjunto de forças naturais da atualidade,
fazem desta cidade um importante campo de prova, aberto a curiosas
experiências e inspirações.
Não
é de hoje, que este tema atrai nossa insanidade e nossa razão.
Em 1929 o arquiteto francês Le Corbusier em visita ao Rio, deixa
em forma de croquis, alusões a um projeto de edifício-viaduto,
que se assemelha a uma estrutura urbana composta de um corpo central
com ramificações. Este esboço de Corbusier, intuitivamente nos
estimula à formação de um conjunto de referências atemporais,
que se refletem na maneira de interpretar a inserção de um objeto
arquitetônico no tecido urbano.
No
edifício-viaduto de Corbusier, é marcante a idéia de conexões
viárias e de habitação como principais funções arquitetônicas,
que naquele objeto, deram origem a sua forma estimulando assim,
sua identificação como um objeto arquitetônico composto por funções
plurais.
Este
exemplo atemporal sugerido por Corbusier é o ponto de partida
para a nossa compreensão do tema que envolve o tratamento acústico
e paisagístico do Viaduto da Avenida Perimetral. A partir destas
reflexões, é fundamental compreendê-lo não somente como uma estrutura
viária isolada do contexto urbano, mas como um objeto arquitetônico
passível de mutações e releituras das dinâmicas e complexas necessidades
da vida contemporânea.
Contexto
Nas
décadas de 30 e 40, diversos projetos foram feitos pela Comissão
do Plano da Cidade (PDF), tais como a abertura da Av Presidente
Vargas, o projeto de urbanização do Alto da Boa Vista, a proteção
paisagística do Outeiro da Glória, além de outros. Em 1944, este
departamento prevê a ligação da área do Calabouço, atual Aeroporto
Santos Dumont, até o cais do porto, através da atual Avenida Perimetral,
finalmente executada na década de 60.
Como
geralmente ocorre quando uma área é utilizada por indústrias que
se deterioram, a área adjacente ao Porto de Rio de Janeiro transformou-se
num bairro de passagem, fato acentuado desde que, nos anos 70,
esta via elevada eliminou a relação do tecido urbano com a frente
marítima.
A
Avenida Perimetral (Elevado Juscelino Kubitschek), uma via-expressa
com 7 quilômetros de extensão, insere-se no sistema viário da
cidade do Rio de Janeiro como uma importante via que interliga
as Zonas Sul e Norte da cidade. Sua construção obedeceu a dois
objetivos bem definidos: criar alternativas de tráfego para as
vias existentes, já congestionadas e sem condições de serem ampliadas
e, sobretudo, permitir a ligação das Zonas Sul e Norte sem que
os veículos passem pelo centro urbano da cidade, o que retrata
os mesmos princípios adotados pelas grandes metrópoles do mundo.
A
área Portuária do Rio de Janeiro, próxima ao centro histórico
e empresarial mantém ainda uma tipologia peculiar nos sobrados,
casarões e grandes galpões do início da industrialização, apresentando-se
hoje, como uma área degradada, em lastimável estado de conservação.
Este
quadro de obsolescência tende a se modificar e dar uma grande
guinada de rumo. A Prefeitura do Rio de Janeiro, através do Instituto
Pereira Passos (IPP), deu início em 2001 ao plano de recuperação
e requalificação da Região Portuária. O plano leva em consideração
diversas propostas anteriores e a contribuição das comunidades
afetadas. O objetivo principal gira em torno da idéia de resgatar
a habitabilidade deste local, agregando em seu conjunto áreas
de lazer, moradia, trabalho, comércio e cultura, sem esquecer
o necessário respeito ao patrimônio histórico e a estrutura social
existente. Segundo o IPP, este plano de resgate possui dois eixos
fundamentais: a criação de um novo sistema de circulação e a criação
de sete núcleos temáticos de desenvolvimento.
Orientados
pelo rumo conduzido pelo processo de recuperação da Área Portuária,
procuramos fazer deste conjunto de intenções nossa rede de referências,
tornando o resultado do trabalho proposto compatível com toda
reflexão da área.
O
conceito
Entendemos
o viaduto como um “antígeno” ao corpo da cidade, um objeto que
fora introduzido com a função única de fazer a conexão suspensa
entre Sul e Norte, uma grande cicatriz isolada do contexto urbano,
que segrega e cria limites.
O
viaduto forma dois espaços, o “sob” e o “sobre”, que possuem freqüências
e ritmos distintos. A parte superior do viaduto é exclusiva para
veículos. Neste caso, eles são os principais agentes responsáveis
pela dinâmica do lugar, visto seu acentuado grau de interferência
sonora e visual. A parte inferior do viaduto é cercada por vias,
edifícios, largos, praças ou espaços apropriados como estacionamentos.
Esta área praticamente isola-se da relação com o entorno imediato
que não a absorve.
Propomos
pensar o viaduto como um objeto arquitetônico, que conseqüentemente
responde às necessidades de integração contextual com a vizinhança.
Portanto, deve-se reverter o entendimento deste elemento como
um objeto isolado e desfragmentado da cidade, sendo necessário
que este participe da dinâmica urbana, busque relacionar-se com
toda a sobreposição temporal e espacial desta área da cidade.
Em
nosso mundo contemporâneo onde tudo é fluxo, rede, interface e
comunicação, o espaço construído adquiriu novas dimensões e significado.
Propomos,
então, entender sua constante necessidade de mudança, já que ele
é interpretado por nós como resultado dos tempos. A idéia de movimento
contamina este elemento arquitetônico, participa de suas respostas,
para obter a compreensiva necessidade de absorção de características
da cidade contemporânea. Há movimento em todos os sentidos, forma-se
a idéia de uma arquitetura seqüencial.
O
conceito proposto para o objeto arquitetônico vai além do estatuto
de mera construção ou equipamento, mas tem a capacidade de superar
e subverter o sentido de fechamento e alinhamento estáticos. Aspira,
assim, a transformação da malha urbana no seu sentido mais amplo,
integrando a cidade e operando em seus elementos respostas às
novas dinâmicas urbanas.
O
projeto
Tratar
do viaduto como um objeto arquitetônico que responda ao contexto
urbano significa interrogar-se sobre as mutações da cidade e da
sociedade contemporânea; questionar-se sobre reconversões e “deslocalizações”;
refletir sobre as múltiplas velocidades que marcam o ritmo da
vida moderna, as novas práticas de apropriação do espaço.
Visto
isso, propõe-se valorizar uma “arquitetura do entorno”, que incita
ao movimento e a dinâmica do corpo, ou seja, de uma arquitetura
que cria deslocamentos e desenraizamentos, mas que também é capaz
de criar novas interfaces entre o modo de viver do homem moderno
e de sua relação com as permanências históricas da cidade.
Buscou-se
então, pensar a proposta através da compreensão deste objeto arquitetônico
como um todo único, porém, diferenciado seus trechos de estudo,
de acordo com as suas características e suas potencialidades singulares.
Respondendo de maneira diferenciada cada demanda e refletindo
na materialização da proposta o tratamento acústico e da paisagem.
Assim,
para a proteção acústica, criou-se um elemento que buscasse maior
flexibilidade, durabilidade e economia conforme sua necessidade
e distribuição ao longo dos trechos. Este elemento, logicamente,
deve ter interpretações distintas, já que, como parte integrante
da cidade, ele responde aos agentes internos (veículos e motoristas)
e externos (urbis).
De
acordo com a norma NBR 14313 vigente para os agentes internos,
estas placas devem formar um elemento legível homogeneamente que
conseqüentemente não interfere no contexto geral da via e na visibilidade
dos motoristas. Neste caso, o tempo e o ritmo da velocidade empregada
pelos veículos configuram-se como elementos de grande importância.
Para
os agentes externos, estas placas formam uma segunda pele que
envolve o objeto arquitetônico e que responde ao entorno através
de seus aspectos funcionais e estéticos, tais como o emprego de
texturas, materiais, cores e volumes.
O
objeto e a paisagem
O
Rio de Janeiro é conhecido mundialmente pelos seus atributos naturais,
a paisagem formada por morros sinuosos que emergem do mar é tema
de importantes composições musicais e ilustra imagens que ultrapassam
as fronteiras da Cidade Maravilhosa. Ao contrário de outras metrópoles,
não é a arquitetura, mas a paisagem o principal ícone presente
no imaginário das pessoas.
Mas
essa tão celebrada “natureza” foi em vários momentos da história
da construção da cidade profanada, principalmente sob argumentos
“desenvolvimentistas”. As matas foram dizimadas, os manguezais
aterrados e os morros postos abaixo. A área que hoje conhecemos
como Centro se confundia com os limites da própria cidade e assim
era a mais atingida.
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Uma
das obras mais polêmicas foi a do Viaduto da Perimetral. A sua
inserção entre o mar e a cidade deu origem a uma ruptura de difícil
solução afastando virtualmente a cidade do que lhe é característico,
a proximidade com o mar, e ainda reforçando alguns dos malefícios
do urbano contemporâneo com a presença maciça de veículos, a poluição
sonora, visual e atmosférica.
O
viaduto, em nossa proposta, articula-se com a paisagem e seu entorno
através de três ações principais:
- ao revestimos
com uma “pele” o viaduto, possibilitamos uma nova percepção
da relação deste elemento com o sítio, sugerindo a continuidade
das edificações do entorno.
- ao reduzirmos
a pressão sonora nele emitida, reduzimos também sua influência
no entorno e tornamos viável a permanência de pessoas sob o
mesmo onde existe apenas a circulação de veículos.
- as duas
ações anteriores possibilitam novas funções serem agregadas
ao viaduto, articulando as áreas sob ele aos espaços públicos
livres próximos.
Com
as apropriações novas resultantes dessas ações adicionaremos ao
viaduto características que impulsionarão a vitalidade de toda
a região a ele limítrofe. De objeto “fragmentador” territorial
passará a ter a importante função de integrar em alguns trechos
a área central da cidade à orla. De objeto exclusivamente viário,
o viaduto abrigará atividades que favorecem o convívio, a troca,
a comunicação e a pluralidade.
O
elemento acústico
Para
o desenvolvimento de elementos que pudessem reduzir o nível de
pressão sonora gerado pelos veículos no elevado da Perimetral
em direção às edificações vizinhas, propomos barreiras com painéis
acústicos que respondam às necessidades funcionais, ao local da
inserção e às percepções visuais sobre e sob o viaduto.
Nesse
sentido amplo, as estruturas laterais convencionais existentes,
destinadas à limitação e contenção de veículos, designadas como
“New Jersey”, atuam como pequenas barreiras acústicas para o ruído
gerado no contato pneu-pavimento. Para os ruídos de motor, especialmente
seus componentes de baixa freqüência, requerem-se barreiras mais
elevadas (cerca de 3,00m), como as propostas neste projeto.
As
barreiras acústicas laterais têm efeito mais limitado sendo menos
eficazes, porém, para o bloqueio do ruído dos veículos passando
na via oposta. Este poderá ser atenuado com uma barreira absorvente,
de pequena altura (cerca de 1,2 m), instalada entre as duas vias.
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Segundo
nossas propostas, as barreiras acústicas serão acessórios instalados
nas laterais das vias elevadas, acima e por fora das estruturas
de contenção mencionadas, em forma de painéis verticais, destinadas
à proteção das áreas públicas e demais imóveis lindeiros em relação
ao ruído provocado pela passagem de veículos.
Para
avaliação da eficiência de isolamento de uma barreira acústica,
é importante a configuração geométrica envolvendo as posições
das fontes e receptores em relação ao topo da barreira. Deve-se
considerar que o evento da passagem dos veículos é um evento dinâmico,
que evolui com a velocidade do veículo. O efeito real da barreira
deve, assim, ser avaliado sob a ótica de uma integral de contribuições
das diversas fontes.
Barreiras
acústicas usualmente podem fornecer atenuações na faixa de 10
a 15 dB. Em situações muito favoráveis, podem-se obter atenuações
maiores, mas não são admitidos valores maiores que 25 dB, devido
a efeitos de espalhamento atmosférico.
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Para
a barreira lateral, são previstos três tipos de painel, sendo
composta pela paginação adequada dos elementos de acordo com as
demandas de cada trecho:
1.
Painel opaco fono-absorvente
Face
externa em chapa de aço galvanizada com espessura mínima de 2
mm.
Face
interna em chapa de aço galvanizada perfurada com espessura mínima
de 2,6 mm e com no mínimo 20% de área perfurada.
Enchimento
interno em lã de rocha ou lã de vidro de alta densidade.
2.
Painel transparente fono-refletor
Painéis
em policarbonato transparente maciço com 20 mm de espessura com
filetes em fibra de poliamida para retenção de fragmentos e sinalização
para pássaros.
3.
Painel opaco fono-refletor com disposição em forma de “escamas”
criando uma certa “porosidade”
Painel
modular “sanduíche” com faces em chapa de aço, pintura eletrostática,
miolo em poliuretano expandido, espessura 60 mm. Nas faces internas
de sobreposição, as superfícies devem ser fono-absorventes através
do emprego da chapa de aço perfurada.
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Para
a barreira central, indicada apenas em trechos críticos, deve
ser usado um elemento modular de painel fono-absorvente (dupla
face absorvente) devido à necessidade de evitar múltiplas reflexões
entre barreiras paralelas.
No
caso dos painéis dispostos em forma de escamas, as placas suspensas
se inclinam e se sobrepõem afastando-se paralelamente em 50 cm.
Assim, asseguramos a “porosidade” na percepção total deste elemento,
permitindo a uma determinada distância e velocidade (com ângulos
visuais menores do que 60 graus), criar a nítida visibilidade
da cidade, além de manter íntegro o controle dos níveis de pressão
sonora decorrentes do tráfego e a devida proteção ao motorista,
de maneira estimular a apreciação da vista sem ter a necessidade
de se fazer movimentos laterais com os olhos (sempre em linha
reta). Conseqüentemente, criou-se um efeito estético diferenciado
em relação a esta estrutura, pois, quando percebida sob o viaduto,
a sobreposição de placas permite enfatizar a iluminação dos logradouros
e estruturas do próprio elemento, contribuindo para leituras noturnas
do conjunto.
A
principal característica dos elementos propostos é sua flexibilidade,
tornando prática e econômica sua instalação. Criou-se, para tal,
uma estrutura metálica com um único ritmo, de maneira a não interferir
fisicamente com a percepção visual do motorista. Esta estrutura
será chumbada quimicamente na face externa das muretas em concreto,
resultando em um afastamento em relação às laterais do viaduto
de aproximadamente 70cm, formando assim, uma passarela de manutenção
garantindo o acesso às estruturas do viaduto em operações rotineiras
de vistoria, sem interferir com os edifícios vizinhos e pista
de velocidade.
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As
estruturas verticais em aço estrutural soldado, com tratamento
anti-corrosivo, são fixadas em vãos regulares com um espaçamento
de 4m entre elas. Estas recebem o conjunto de placas de fechamento
da estrutura que forma a “pele” do viaduto. As partes externas
a estas placas são tratadas como conseqüência à estética do entorno,
através dos tipos de materiais, cores e texturas empregadas.
Em
outros momentos a configuração volumétrica destas placas deverá
mudar, buscando adaptar-se às necessidades locais, sem perder
de vista, no entanto, a nítida noção de conjunto. É o exemplo
da transição entre os trechos da Polícia Federal, da Praça Mauá,
do Mosteiro de São Bento, do Edifício da Bolsa de valores e da
Praça XV.
Nestes
casos, variações visuais e materiais das placas de proteção acústica
são necessárias, mantendo, no entanto, o mesmo módulo estrutural
metálico. Sendo assim, sugerimos fechamentos acústicos que alternam
gradativamente de materiais e opacidades quando for o caso, criando
desta maneira, um gráfico de altas e baixas “graduações visuais”.
O
sistema de iluminação
O
sistema de iluminação também entende o elevado como uma estrutura
única, com respostas singulares em cada um de seus trechos, de
maneira que buscou-se uma solução não fragmentada, ainda que muito
distinta no que diz respeito ao tratamento dado para os espaços
sobre e sob a Perimetral.
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A
via expressa que caracteriza o "sobre" recebe um único
tratamento em toda sua extensão, decorrente de sua função de passagem
ser constante em todo o elevado. Por ser este uso, o único presente,
pensou-se em uma solução bastante objetiva e limpa, na qual ilumina-se
apenas a pista de rolamento e de maneira homogênea em todo seu
percurso, através de calhas de luz contínuas embutidas nos guarda-corpos
e na mureta central do elevado, com um controle anti-ofuscamento
por meio de aletas, que direcionam a luz para o piso. A instalação
destas lâmpadas a uma altura baixa permite a iluminação total
da pista. Esta solução não interfere visualmente em nada que se
encontre acima do próprio guarda-corpo, permitindo que o tratamento
criado pelos painéis esteja livre de interferências estéticas
não desejadas.
Nos
espaços sob o elevado pensou-se em unificar ao máximo as soluções
para cada um dos trechos, de maneira a tornar o sistema mais econômico.
Servindo-nos dos elementos propostos pelo tratamento arquitetônico
em si, chegou-se a conclusão de que a interface entre a luz e
os materiais destes elementos já proporciona tipos de iluminação
distintos entre si.
A
fim de interpretarmos cada trecho estudado, propomos como metodologia
de análise a identificação de elementos “chave” para a formação
do espaço da cidade. Assim, pontuamos estes elementos com o intuito
de relacionar cada parte integrante do contexto.
As
vias, calçadas, edifícios, mobiliário urbano, pessoas, animais,
vegetação, texturas, materiais de revestimento, além de outros
elementos fazem parte deste conjunto heterogêneo que forma a paisagem.
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Sabendo
que o espaço físico caracterizado pela presença da avenida Perimetral,
em cada trecho, é resultante do somatório entre sociedade e paisagem,
buscamos entender as diferentes escalas de percepção existentes
em cada um dos três trechos, selecionando nossa apreensão aos
elementos “chave”.
Área
A – Trecho Porto – Polícia Federal
Este
trecho é hoje caracterizado pela linearidade e longitudinalidade
formada por elementos como o próprio viaduto, sua rampa de acesso
na Avenida Rodrigues Alves e o continuum denso de fachadas muito
próximas ao viaduto. Com a demolição da rampa de acesso ao viaduto,
propomos um sistema de “costuras” transversais à Perimetral, considerando
que neste trecho o viaduto é um espaço público de transição, que
separa os Armazéns, de um lado, dos edifícios, do outro lado,
inclusive o edifício da Polícia Federal.
Propomos
então, esta costura transversal em vários níveis, através de estacionamentos
subterrâneos, acessos elevados como passarelas entre os edifícios,
vegetação, paginação de piso, mobiliário urbano e outros equipamentos.
Os
primeiros elementos a demarcarem esta nova dinâmica serão os pilares
do viaduto, que funcionarão como “marcos gráficos” de referência
para o acesso e identificação das inúmeras atividades que se desenvolverão
na área portuária, como espetáculos de dança e música, feiras,
gastronomia, comércio, e outros. Estruturas físicas estáticas,
que agora se transformam em painéis urbanos que interagem com
a população e que não mais se mantêm inertes diante da renovação
urbana, mas que compartilham de suas atividades, respondem a suas
necessidades e geram comunicação.
Foram
criados também, jardins verticais nos vãos resultantes da demolição
do acesso ao viaduto pela Av. Rodrigues Alves, fazendo o “link”
entre o “sobre” e o “sob” o viaduto, funcionando como grandes
lâminas que vazam o chão e marcam este trecho. Confeccionadas
em perfis e treliças metálicas, oferecem suporte para fixação
de telas sintéticas com sistemas de irrigação e drenagem.
Possibilitando
a fácil implantação e manutenção que espécies arbustivas e mais
especificamente epífitas bastante comuns nos ecossistemas de costões
rochosos e mata atlântica.
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No
trecho sobre o viaduto, voltado diretamente ao edifício da Polícia
Federal, propõe-se a aplicação de barreira acústica através de
painéis opacos dispostos na forma “escamada”. Estes painéis são
dispostos inclinados e possuem faces em sobreposição, possibilitando
a percepção visual para quem passa em movimento pelo viaduto.
Estes são fono-refletores, exceto as superfícies internas de transpasse
das placas, que devem ser fono-absorventes, de maneira a evitar
a reverberação entre as placas. Para este caso podem ser também
utilizados painéis laterais totalmente fono-absorventes, porém
são mais onerosos e os primeiros atingem o objetivo principal.
Propõe-se também uma barreira central entre as duas pistas formada
por painel baixo de 1,20m fono-absorvente, a fim de reduzir ao
máximo os níveis de ruído nas proximidades da Polícia Federal,
evitando também, reflexões múltiplas.
A
iluminação proposta deverá evidenciar a textura criada pela sobreposição
das placas em forma de escamas, criando sombras ao projetar luz
de dentro para fora. Esta luz projetada vaza para o nível da rua
criando um efeito interessante, ainda que sutil, sem inviabilizar
uma iluminação segura e homogênea, que poderá ser ainda reforçada
por elementos pontuais. Levou-se em consideração também que a
revitalização de toda a Área Portuária criará uma ambiência com
nível de iluminação mais elevado, proveniente dos próprios edifícios
e principalmente das fachadas dos armazéns.
Área
B - Trecho Praça Mauá
Trecho
inicial de uma das principais avenidas do centro da cidade, a
Avenida Rio Branco, a praça Mauá é alvo de futuras intervenções,
assim como o conjunto formado pelos armazéns da área portuária.
Esta área, cercada pelo complexo da Marinha de um lado e pela
Policia Federal de outro, é o ponto de desembarque de inúmeros
navios turísticos que chegam à cidade. Segundo o projeto proposto
pelo IPP para esta área, prevê-se a reurbanização de toda a Praça
Mauá e do início da Avenida Rodrigues Alves, com a renovação e
reutilização do edifício da Portus, instalação do sistema de VLT,
e outros.
Buscando
dinamizar todo este processo de requalificação, e inspirando-se
na reutilização de edifícios, propõe-se para este trecho do viaduto,
pontos de serviços à comunidade e ao visitante, anexados ao seu
corpo, sem obstruir a visibilidade e o contato com o mar, dando
idéia de “criação de raízes” ao objeto – viaduto. Esta proposta
torna o viaduto uma grande escultura, fazendo a ponte entre atividades
turísticas e espaços públicos, entre porto e cidade.
No
que se refere à utilização de barreiras acústicas na parte superior
ao viaduto, propõe-se uma transição entre o trecho anterior da
Polícia Federal e o trecho da Praça Mauá, através do aumento gradual
da transparência dos painéis, que deixam de ser opacos e escamados
e se transformam em placas fono–refletoras transparentes com 20mm
de espessura e reticuladas horizontalmente com filetes de fibra
de poliamida, embutidos dentro da placa. Isto permite que, em
caso de acidente, os fragmentos fiquem retidos e não caiam pedaços
na rua abaixo, ferindo os pedestres. Além disso, as fibras servem
de sinalização para pássaros.
Para
regular os níveis de ruído nas proximidades do Mosteiro de São
Bento, propomos uma barreira central de 1,20m composta por painéis
opacos fono-absorventes. Deve-se ressaltar que devido ao ângulo
visual do motorista, a barreira baixa opaca ainda deixa o visual
lateral disponível, evitando o uso da barreira baixa transparente
que jogaria mais ruído para o Mosteiro.
Neste
trecho, pensou-se, basicamente, em uma iluminação que evidencie
a beleza da própria estrutura do elevado, com sua forma inclinada
ao longo da curva. Para isto, propomos uma iluminação de baixo
para cima que projete um banho de luz contínuo, com as fontes
fixas sob a pista do elevado, de maneira a não interferir fisicamente
na grande Praça que se configura sob a Perimetral. Neste espaço,
deverão haver fontes específicas para usos específicos como por
exemplo canteiros, bancos, brinquedos, etc.
Área
C - Trecho Praça XV
Historicamente,
a Praça XV ocupa um importante papel, como uma das áreas mais
representativas da ocupação da cidade.
Em
1997, com o projeto do arquiteto Flávio Marinho Rego, a Praça
XV foi alvo de importantes modificações estruturais e estéticas,
que resultaram em melhoramentos físico-ambientais para a área.
Hoje, mesmo com as descentralidades resultantes das múltiplas
necessidades da cidade contemporânea, esta área permanece como
um dos principais sítios do centro da cidade. O câmbio marítimo
entre Rio e Niterói, sua proximidade com os eixos viários compostos
pela Avenida Rio Branco, Avenida Presidente Vargas e Aterro do
Flamengo, além da presença de importantes edifícios e de centros
culturais fazem desta área objeto de múltiplas leituras.
Assim
sendo, acredita-se que sua atual potencialidade como espaço de
passagem, estar, história, lazer e cultura, possa impulsionar
novas formas de apropriação deste espaço através da forte presença
do elevado da Perimetral.
Propõe-se
neste trecho, fazer do viaduto um pórtico de acesso à cidade,
uma cobertura linear que se desmembre, quando necessário, em novos
espaços. Apropriando-se temporariamente dos espaços sob o viaduto,
é possível proporcionar ao pedestre que permanece e ao que simplesmente
passa, distintas formas de interação com o objeto arquitetônico
assumido. Esta apropriação pode-se dar através de grandes lonas
em Teflon que podem ser desprendidas da estrutura do viaduto criando
compartimentos ou pequenos pavilhões itinerantes para exposições,
eventos culturais, ou ainda servindo de superfície para projeções
diversas.
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A
iluminação procurou enfatizar o entendimento da estrutura do viaduto
enquanto pórtico através de uma iluminação da face lateral dos
pilares voltados para a Baía de Guanabara com luminárias embutidas
no piso da Praça, emitindo um facho de luz concentrado para cima.
O próprio forro de Teflon, que faz o acabamento sob o viaduto
poderá será convertido em um grande difusor com a instalação de
luminárias que emitem fachos de luz abertos sobre este forro,
criando, assim, uma cobertura luminosa difusa sobre a Praça. Quando
houver a abertura de partes do forro criando ambientes na praça,
a fonte de luz neste trecho deverá ser apagada e um “grid” interno
poderá ser utilizado para a instalação de iluminação temporária
para cada evento.
Na
parte superior do viaduto, situado em frente ao edifício da Bolsa
de Valores, propõe-se uso de barreira acústica composta por painéis
opacos fono-refletores na forma escamada. Estes devem ser fono-absorventes
nas superfícies internas de transpasse das placas, de maneira
a evitar a reverberação entre elas. No lado oposto, em frente
ao edifício da Conab, propomos o uso de barreiras fono-absorventes
opacas, dispostas linearmente com encaixes macho-fêmea. Propõe-se
também uma barreira central entre as duas pistas formada por painel
baixo de 1,20m fono-absorvente, a fim de evitar reflexões múltiplas.
Na
área sobre a Praça XV, voltado para o Largo do Paço, propomos
uso de barreira acústica formada por placas fono–refletoras transparentes
com 20mm de espessura e reticuladas horizontalmente com filetes
de fibra de poliamida, até a descida do viaduto frente ao Museu
Histórico Nacional, estimulando a percepção de uma paisagem que
se descortina.
Para
a entrada e a saída do “mergulhão” da Praça XV, aproveitamos a
estrutura existente para anexar a partes dela, elementos de reflexão
e absorção sonora. Entre uma pista e outra alocamos painéis fono-refletores
transparentes, para aumentar o angulo de incidência sonora entre
as pistas. Nas paredes do “mergulhão” propomos a utilização de
painéis fono-absorventes de concreto poroso hidrófugo texturizado,
e entre as vigas propomos estruturas “pergoladas” fono -absorventes
que possuem altura e espaçamentos variáveis conforme a necessidade
de direcionamento do som. Assim, evitamos qualquer barreira que
possa interferir visualmente acima dos desníveis e não permitir
a circulação de ar.
Ficha
técnica
Escritório
Responsável
Oficina de Arquitetos – Arquitetura e Urbanismo
Parceiros
Movle – Arquitetura e Paisagismo
Equipe
responsável
Arquitetos Ana Paula Polizzo, Carlos Eduardo Spencer de Vasconcellos,
Duarte Vaz Guedes e Silva, Gustavo Leivas da Costa Araújo, Gustavo
Martins e Marco Milazzo
Consultores
Diana Joels – Iluminação Pública
Moysés Zindeluk – Engenharia Acústica
José Carlos de Almeida – Estrutura Metálica |