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Edifício
antigo e anexo contemporâneo |
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3º
Lugar – Arquitetos
Danilo Matoso Macedo; Elcio Gomes da Silva; Fabiano Sobreira;
Newton Godoy. Colaboração: Christian-Moser
Brasília DF
Conceito
geral
Dualidades
“Combinar
de forma dinâmica e harmoniosa os binômios (às vezes considerados
equivocadamente como excludentes) de cultura regional x cultura
universal; cultura tradicional x cultura moderna e contemporânea;
e cultura erudita x cultura popular“
Termo de Referência do concurso
O
projeto parte do agenciamento destas dualidades, às quais pode-se
ainda acrescentar outras inerentes ao tema tratado, prenhe de
significados.
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Edifício
antigo e anexo contemporâneo |
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A
cultura musical é um fenômeno coletivo. Como outras formas de
arte, a música de determinada época traz em si parte da história
da sociedade que a gerou. Da trova, que carrega em seus versos
as narrativas, às sinfonias, que carregam em sua notação a reflexão,
as expressões musicais diversas só completam seu sentido no momento
de sua execução, que emociona o ouvido intérprete. No caso aqui
tratado, em sinfonias – passíveis de execução apenas por orquestras
– este sentido de coletividade se faz mais visível e patente como
manifestação cultural social.
Por
outro lado, a percepção da música é um fenômeno individual. No
instante em que o som atravessa o ar e atinge o ouvinte, a harmonia,
o ritmo, e a melodia sacralizam aquele momento, suspendendo e
modulando a realidade e levando o homem a um contato com as esferas
interiores de seu íntimo.
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Acesso
público pela praça |
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As
preferências da individualidade agregam grupos sociais, unindo
pessoas pela afinidade desta religação íntima, celebrada a cada
execução da obra. Visto deste modo, cada concerto de uma orquestra
é, a uma vez, um rito coletivo de comunhão e um momento de transcendência
individual.
Nesse
ritual integram-se o indivíduo e a coletividade; o evento – contemporâneo
na execução – e a tradição – na forma musical permanente –; o
erudito – na instituição – e o popular – na audiência; o regional
– no lugar – e o universal – na origem.
Se
associamos os conceitos de coletividade, tradição, permanência,
popularidade e regionalismo à relação do edifício com o restante
do conjunto do Circuito Cultural da Praça da Liberdade e sua inserção
no tecido urbano, podemos, pela metáfora corpoedifício, associar
à sua leitura interna os conceitos de individualidade, fugacidade,
erudição e universalidade.
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Acesso
à sala de concertos |
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Cabe
no projeto, portanto, desenvolver a idéia de individualidade,
de unidade introspectiva autônoma dentro de um invólucro externo
integrado ao seu contexto.
Desta
premissa fundamental, optou-se pela manutenção integral da feição
externa do edifício da Secretaria de Fazenda, mantendo a harmonia
cívica já destilada no imaginário popular. De modo oposto, a sala
de concertos interna destaca-se como um lugar único, autônomo,
visualizado como tal e destacado dentro da casca social histórica.
É na sala de espetáculos que se processa o ritual do concerto,
jornada íntima da qual se emerge ao acenderem-se as luzes dando
lugar à congregação coletiva da praça pública.
Estratégia
de preservação e inserção urbana
Ao
longo do tempo, a Praça da Liberdade vem acolhendo em seu conjunto
exemplares arquitetônicos de sucessivos momentos históricos. Dos
fundamentais edifícios do Palácio da Liberdade e das Secretarias,
em estilo eclético, pontuada pelo Déco da casa do bispo, passando
pelas abordagens da arquitetura moderna expressada nos edifícios
de Oscar Niemeyer, Sylvio de Vasconcellos e Raphael Hardy Filho,
ao expressionismo contextual do “Rainha da Sucata”, o modo como
a cidade pensa e constrói o seu espaço público vem sendo simbolizado
neste locus cívico – também sucessivamente modificado em seu desenho
urbano.
A
intervenção aqui abordada não deve ser diferente. Entretanto,
completada a arcada urbana da praça, resta ao presente a tarefa
de restaurar e adaptar, em lugar de complementar. E modificar
com o devido entendimento dos valores arquitetônicos e urbanísticos
ali presentes, intervindo de modo a torná-los mais patentes, dentro
da estratégia de responsabilidade social na preservação, apontada
anteriormente.
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Interior
daà sala de concertos |
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A
leitura urbana dos edifícios das Secretarias vem sendo consolidada
no imaginário da população. É clara a relação hierárquica simétrica
precedendo a culminação da expressão de poder no Palácio da Liberdade.
De modo a preservar esta clareza de civismo didático, optou-se
por manter íntegra a leitura externa do edifício da Secretaria
da Fazenda, conservando a importância da entrada principal
de público externo pela Praça da Liberdade e usando o interior
restaurado e preservado do terço frontal do prédio como
foyer da sala de espetáculos, esta última adaptada no tramo
onde permite-se a intervenção. A adição situa-se no pátio
posterior, voltada para a rua da Bahia, com altura igual à das
cumieiras existentes do edifício antigo.
Estabelece-se
assim uma gradação externa de níveis de intervenção, visível pela
Praça Carlos Drummond de Andrade e pela Rua Gonçalves Dias:
- restauração
e preservação plena junto à Praça da Liberdade;
- adaptação
interna e manutenção integral externa nos dois terços posteriores
do edifício – a intervenção é visível apenas por cima, na união
das antigas cumieiras laterais por um plano horizontal.
- adição
de novo volume no pátio posterior, conciliando visualmente o
novo e o antigo entre a Rua da Bahia e a Praça da Liberdade.
Setorização
e fluxos
A
setorização é a decorrência natural da gradação estabelecida entre
novo e antigo.
O
salão nobre, com a escada em ferro fundido, delicados detalhes
de piso e forro, bem como cuidadoso tratamento cromático das paredes,
foi mantido como entrada principal de público. Os amplos cômodos
adjacentes a este foyer são destinados à Área de Recepção do público,
à Área Administrativa, à Sala de Música de Câmera e à Sala do
Coral. Estas duas em relação de simetria no terceiro pavimento,
de modo a tornar possível também o uso para apresentações desta
última – por similaridade com a primeira.
Complementa
esta área um acesso direto de veículos de passeio ao semi-enterrado
– na Rua Gonçalves Dias –, permitindo o acesso universal a deficientes
e idosos, bem como o desembarque confortável de autoridades em
separado ou do público em geral em dias chuvosos. Desta área,
o público atravessa, por passarelas, um vazio interno que permite
a visualização da Sala de Espetáculos como volume autônomo. Neste
vão, a iluminação zenital – natural durante o dia e artificial
durante a noite – intensifica o caráter de sacralidade desejado,
preparando o espírito do ouvinte para o concerto.
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Elevação
Praça Carlos Drummond de Andrade |
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A
Sala de Espetáculos propriamente dita fica elevada com o piso
do palco na altura do primeiro pavimento atual, liberando o térreo
para o espaço do patrocinador. Sob o palco, suspenso sobre o vão
destinado ao patrocinador, encontram-se os depósitos de apoio
ao espetáculo – com acesso permitido por elevador monta-cargas
ligado ao pátio de serviço posterior. O pé-direito de 12 metros
necessário ao palco induz à interligação das cumieiras periféricas
acima, mantendo-se o telhado original nas faces voltadas para
a rua e para a praça. O público acede à Sala por três níveis,
relacionados à altura do palco, ao fundo das arquibancadas inferiores
e à altura do balcão superior – equivalente ao último pavimento
do edifício original. Permite-se assim o uso sob as arquibancadas
laterais, com teto inclinado, pela Biblioteca e pelo Café – ligando-os
pelas janelas à Praça C. D. de Andrade e à Rua Gonçalves Dias,
respectivamente.
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Elevação
Rua Gonçalves Dias |
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No
pátio posterior foi implantado o bloco destinado às Salas Especializadas
e à Área de Preparação do espetáculo. Dividido em cinco pavimentos
elevados sobre pilotis, este pequeno edifício articula a entrada
exclusiva de artistas pela Praça C. D. de Andrade, ao mesmo tempo
em que cria uma doca de carga e descarga aberta por um portão
curvo para a Rua Gonçalves Dias. O volume é austero, fechado com
vidro espelhado na face colada à fachada antiga da Secretaria.
Desse modo, permite-se aos artistas – usuários do edifício – uma
apreciação da fachada histórica em detalhe. Uma suave dobra neste
plano abre a reflexão do vidro para a rua, possibilitando uma
visualização redobrada do edifício existente e amenizando a compressão
do bloco novo entre a antiga Secretaria e a Biblioteca Pública.
O
projeto desta última – publicado na imprensa especializada – revela-nos
que é possível o bloqueio de iluminação natural pelo bloco novo
mantendo-se os níveis de conforto internos dentro do aceitável,
já que trata-se ali de salas de acervo e consulta vazadas para
a rua e fundos. A fachada voltada para a Rua da Bahia abre-se
de modo ritmado e discreto – compatível com a orientação desfavorável
– noroeste – em seteiras intercaladas por “caixas” de madeira,
expressando a subdivisão interna dos pavimentos e estabelecendo
uma unidade de material com o volume interno da Sala de Espetáculos.
O
funcionamento dos pavimentos internos do bloco anexo é articulado
a partir do segundo pavimento, local do hall dos camarins, ponto
de passagem dos artistas para o palco em nível por meio de duas
passarelas. No primeiro e terceiro pavimentos situam-se os camarins
masculinos e femininos, de modo eqüidistante. Acima, seguem-se
as salas especializadas e, por fim, o apoio logístico no último
pavimento. Sua circulação vertical é um núcleo compacto, implantado
junto à entrada dos artistas, podendo ser usado como saída de
emergência secundária para a Sala de Espetáculos – em cumprimento
à normatização vigente.
Complementa-se
a entrada de carga do pilotis em pé-direito duplo com uma entrada
de serviço para funcionários no edifício histórico, feita pela
Rua Gonçalves Dias, aí neste semi-enterrado encontram se os Serviços
Gerais e a Sala de Climatização – com condensadores a gás – de
modo a reduzir-se a dutagem até a Sala de Espetáculos.
Tecnologia
construtiva e acústica
Tecnologia
construtiva
Na
porção mantida e restaurada, as intervenções são direcionadas
a:
- recuperação
de feições originais dos afrescos, peças metálicas, pinturas
especiais, pisos etc;
- adaptações
não destrutivas para instalações elétricas, sanitárias e de
isolamento acústico nos pisos e entreforros – sobretudo do último
pavimento;
- adaptação
do elevador existente de modo a possibilitar acesso universal;
- instalação
de painéis de condicionamento ambiental por irradiação em painéis
de gesso acartonado com serpentinas de gás ou água gelada embutidos,
devidamente complementados por um desumidificador que controle
o ponto de orvalho – evitando a condensação.
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Esquema
estrutural da Sala de Espetáculos |
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Na
porção adaptada, correspondente à Sala de Espetáculos, segue-se:
- demolição
devidamente documentada de todas as paredes internas e das coberturas
com escoramento das paredes perimetrais;
- execução
de fundação e quatro colunas metálicas, que sustentarão de modo
independente toda a nova estrutura interna;
- execução
e içamento das treliças da cobertura e da grelha de perfis “U”
central;
- execução
de treliças e vigas Vierendeel de sustentação do palco – em
sua alma estão localizados os depósitos de apoio ao espetáculo;
durante o funcionamento da sala, todo o equipamento será elevado
por um monta-cargas;
- atirantamento
das estruturas do balcão superior e da arquibancada – em vigas
metálicas –, incluindo os montantes curvos de sustentação do
fechamento do hall de entrada.
- transferência
da função de contraventamento das paredes perimetrais para a
nova estrutura metálica interna;
- execução
de cobertura, pisos, vedos verticais e forros com gesso acartonado,
painéis tipo “wall” e madeira, devidamente instalados em “sanduíche”
com tratamento termoacústico interno.
A
nova cobertura receberá telhas francesas em suas faces perimetrais,
vidro sobre o vazio de entrada e chapas em aço patinável em sua
porção horizontal, sobre a grelha metálica em perfis “u”.
A
escolha de materiais foi feita em função da rapidez de execução
e limpeza do canteiro de obras- desejáveis numa obra de recuperação
– típicas do sistema industrializado coerente com a estrutura
metálica.
O
novo edifício, anexado, é elevado sobre pilotis com um pórtico
em “L” em concreto, de modo a distanciar as fundações novas da
fachada histórica, evitando danos maiores à sua constituição.
Os pavimentos superiores, em lajes “cogumelo”, abrem-se em vidro
espelhado para a Orquestra e em seteiras para a rua da Bahia.
Ripas de madeira complementam o acabamento externo em concreto
aparente, de modo a aumentar a inércia térmica desta parte excessivamente
insolada.
A
caixa d’água está pouco acima do último pavimento – de pouca demanda
hídrica – evitando volumes salientes indesejáveis na cobertura.
Dentro desta mesma filosofia de alinhamento pela cota de cumieira
do edifício antigo adjacente, optou-se pela adoção de elevadores
com casa de máquinas reduzida, instalada apenas no vão da própria
cabine – fornecidos por diversos fabricantes atualmente. A acústica
da sala de espetáculos foi elaborada de modo a propiciar um bom
isolamento acústico entre ambiente interno e ambiente externo
e de modo a permitir ajustes internos necessários a cada tipo
de espetáculo.
Acústica
Isolamento
acústico
De
modo a se evitar a propagação do som interno para o exterior e
principalmente a interferência dos ruídos externos na execução
dos concertos, a Sala de Espetáculos foi concebida como um “volume
dentro do outro”. Ou seja: permanecem as grossas paredes do edifício
original, acrescidos do revestimento termo-acústico que envolve
a estrutura da caixa interna. Esta sucessão de interstícios com
pouco ou nenhum contato entre si reduz drasticamente a potência
da onda sonora, impedindo sua passagem.
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Corte
no edifício antigo e anexo contemporâneo |
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Contribui
para este isolamento a existência de seqüência de portas duplas
e isoladas que constituem o percurso de acesso do público através
do vazio de entrada – à guisa de antecâmara acústica – minimizando
a possibilidade de ligação direta entre espaço interno e externo.
Tratamento
acústico interno
Todo
o revestimento parietal interno será feito em ripas de madeira
de reflorestamento. Esta configuração permite a adoção de diversos
tratamentos com a mesma leitura visual. Ou seja: podem-se elaborar
“armadilhas de baixo” em ripas desniveladas ao fundo da platéia;
painéis absorventes por meio do “efeito garrafa” decorrente do
distanciamento entre ripas etc. A fragmentação da geometria interna
decorrente da platéia – de piso revestido em carpete – impede
a ocorrência de eco palpitante que o paralelismo em planta parece
sugerir.
Dentro
da mesma preocupação, o forro sobre o palco é dividido em cinco
painéis levadiços que podem ter sua altura regulada mecanicamente.
Estes painéis são ainda divididos em placas corrediças horizontais
em madeira absorvente. Como o forro acima dos painéis é em aço
SAC – acusticamente refletivo, portanto – pode-se “afinar” a sala
de acordo com os tempos de reverberação desejados para cada tipo
de peça, orquestra, disposição dos músicos no palco, temperatura
e lotação da sala.
Aumentou-se
a área do depósito de praticáveis de modo a permitir flexibilidade
de lay-out de palco compatível com esta flexibilidade acústica,
evitando-se desníveis ou degraus de disposição fixa.
Plantas
e cortes
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Planta
Semi-enterrado - nível 0,10 |
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Planta
Térreo - nível 2,95 |
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Planta
1º Pavimento - nível 8,40 |
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Planta
2º Pavimento - nível 9,15 |
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Planta
3º Pavimento - nível 12,38 |
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Planta
4º Pavimento - nível 15,62 |
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Planta
5º Pavimento - nível 18,88 |
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Cortes |
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