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Habitação Popular – Concurso Público Nacional de Anteprojetos no Estado do Amazonas
Manaus, 10 de junho de 2005

2º lugar – Trabalho nº 13 – IAB/PR
Neli Ikue Takeda

  Perspectiva geral do Conjunto Habitacional
     

1. Introdução

No Brasil, os programas de habitação social estão sendo implementados sem haver uma preocupação maior com especificidades regionais. Assim, uma mesma tipologia é adotada em cidades com características distintas, sendo desconsideradas as diversidades socioeconômicas, cultural, climática e tecnológica entre as diferentes regiões do Brasil, o que resulta em construções de baixa qualidade construtiva que não atendem às necessidades de seus usuários.

A importância da relação entre clima e arquitetura se traduz no estudo do Conforto Ambiental que é dividido em conforto térmico, lumínico, sonoro e ergonômico. Na Amazônia, de clima equatorial, o conforto térmico é relevante em relação às demais.

2. Aspectos físicos de Manaus

Manaus encontra-se a 3° S do Equador, na zona de máxima radiação solar. Não são observadas, portanto, flutuações na duração dos dias e noites ao longo do ano e das estações, a não ser pela presença de um período chuvoso (“inverno”) um período seco (“verão”).

  Perspectiva de uma Unidade Habitacional Fachada Norte
     

O total pluviométrico anual da região varia de 1600 a 3000 mm, sendo que em Manaus a média anual é cerca de 2291,8 mm. O mês de março é o mais chuvoso com 14,5% (332,7 mm) e o de agosto o mais seco com 2,3% (52,4 mm).

A radiação solar, para esta latitude de Manaus é quase simétrica na trajetória aparente do sol, ou seja, as fachadas norte e sul recebem insolação semelhantes, com uma diferença de seis meses, a insolação da fachada norte em junho é semelhante à insolação da fachada sul em dezembro.

3. Estratégias bioclimáticas

O Projeto Normalização em Conforto Ambiental da UFSC, Desempenho Térmico de Edificações: Procedimento para Avaliação de Habitação de Interesse Social, estabelece zoneamentos bioclimáticos, que define diretrizes para projeto em cada região, a fim de garantir limites mínimos de conforto térmico nas diferentes regiões do Brasil.

  Perspectiva do Pátio Interno do Conjunto – Espaço de Convívio
     

São 8 zonas bioclimáticas definidas neste Projeto. A zona 8 (clima quente e úmido) ocupa 53,7% do país e engloba a região amazônica e o litoral do nordeste.

Tabela 1 – Transmitância térmica, atraso térmico e fator de calor solar admissíveis para vedações externas para a Zona Bioclimática 8

 

As coberturas serão aceitas coberturas com transmitância térmicas acima dos valores tabelados desde que atendam às seguintes exigências: a) Contenham aberturas para ventilação em, no mínimo, dois beiras opostos; b) As aberturas para ventilação ocupem toda a extensão das fachadas respectivas.

4. Análise bioclimática de Manaus

Esta análise de baseou em Estudos de Estratégias Bioclimáticas para a cidade de Manaus(LOUREIRO et alii, 2000) publicado em artigo do ENTAC 2002 – IX Encontro Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído.

A carta bioclimática indica aparentemente um maior número de pontos na zona 5 (ar condicionado) mas, de acordo com a análise de freqüências de temperaturas, 74% dos pontos estão sobrepostos sobre a área abaixo de 28°C, na zona 2 (ventilação), indicando sua grande necessidade para a cidade.

Em Manaus as horas de conforto são quase zero, de acordo com os parâmetros estabelecidos por Givoni. As estratégias indicadas para proporcionar condições de conforto são a ventilação, a utilização de sistemas mecânicos de resfriamento e sombreamento em todo o ano. O uso de inércia térmica associado ao sombreamento também pode ser indicado, sendo porém, passível de estudos e medições em campo que confirmem sua eficiência para a cidade de Manaus.

Frente à crise energética, necessita-se projetar bem para reduzir o consumo de energia e levar em conta as condições climáticas do meio e aplicar os conhecimentos da arquitetura bioclimática, são estratégias essenciais que buscam a satisfação das exigências de conforto do homem e da concepção arquitetônica mais condizente com a nossa realidade.

5. Diretrizes bioclimáticas

Para as condições climáticas de Manaus existem três fatores importantes a serem considerados: o sol, o vento e as chuvas.

A partir das premissas acima, o partido adotado para o projeto de habitação popular foram as seguintes:

5.1. Diminuição da condução do calor através do envelope (parede, piso e cobertura)

Parede dupla isolada por ventilação permanente e de baixa inércia térmica. Parede interna feita com placa estrutural OSB (Oriented Stand Board), composto de tiras de madeira e resina e baixo custo. Externamente tábuas de madeiras serradas.

  Parede de solo cimento para áreas úmidas e divisa do lote
     
  • Parede de solo cimento para áreas úmidas e divisa do lote.
Características Termofísicas – Paredes
Material Transmitância
U (W/m2K)
 Atraso t érmico
j , em horas
Madeira 3,44 1,8
Solo cimento 1,82 3,1
  • Piso em assoalho de madeira elevado a fim de ventilar e evitar a umidade do solo.
  • Cobertura de telha fibro asfáltica, cor clara refletiva e de baixa transmissão térmica e ático ou sótão com sistema de ventilação cruzada, a fim de evitar o acúmulo de calor produzido pelo excesso de radiação solar. Uma inclinação alta de 70% foi adotada para que a chuva escorra mais rápido e para diminuir o ângulo de incidência do sol e evitar o aquecimento do teto.

5.2. Otimização da Ventilação através de:

  • Captador de vento que promove a circulação de ar interno através da diferença de pressão atmosférica, criando o efeito chaminé.
  • Ventilação cruzada e permanente em toda a habitação.
  Captador de vento
     

5.3. Controle da Radiação Solar Incidente através de sombreamento de janelas e beirais largos e Quebra Sol / Quebra Chuva

  Controle da radiação solar
     

De acordo com a Carta Solar de Manaus, foi fotografada a maquete da habitação popular, que com o auxílio do Heliômetro produziu efeitos reais da incidência solar no solsticío de inverno e verão da região.

  Insolação (esquerda para direita; cima para baixo):
1. Fachada Oeste –9:00 Verão
2. Fachada Norte-12:00 Inverno
3. Fachada Sul –14:00 Verão
4. Fachada Oeste –16:00 Inverno
     

Utilização de vegetação, como árvore, arbusto e grama, que tem a tendência de estabilizar a temperatura e evitar os extremos por serem bons absorventes de calor. Plantar árvores na fachada leste/oeste, a fim de diminuir a incidência solar.

6. Diretrizes de sustentabilidade

Utilização de material de Baixo Impacto Ambiental com ênfase na Tecnologia Apropriada como:

Placas de OSB: de Impacto Ambiental Reduzido, onde não são utilizadas árvores adultas no fabrico da placa. A sua matéria-prima é constituída unicamente por madeira de pequena dimensão, proveniente de florestas geridas de forma sustentável. Além disso, é totalmente reciclável.

  • Madeira proveniente de floresta de manejo da própria região.
  • Blocos de Solo Cimento:
    • execução no próprio local da obra,
    • reaproveitamento do resíduo;
    • execução de parede hidráulica e fiação através dos furos do bloco;
    • utilização de mão de obra local.

6.1. Reutilização da Água da Chuva, através de captação de calha, passando por filtragem e armazenamento em cisternas próprias.

6.2. Reuso de águas servidas (água cinza): provenientes de chuveiro e lavatório e tanque, filtradas, armazenadas e reutilizadas para lavagem de calçadas, carros, irrigação de horta e jardim e descarga de sanitários.

O sistema de pré-tratamento é composto por:

  • Caixa de retenção de sólidos.
  Caixa de retenção de sólidos
     
  • Um reservatório de águas servidas.
  • Um filtro cuja finalidade é eliminar as impurezas existentes nas águas servidas. Esse filtro é composto pela seguinte estrutura vertical.
  Filtro
     

7. Aspectos econômicos e sócio culturais

A população inserida nesta faixa econômica de até três salários mínimos pertence à classe baixa menos favorecida. Por esta razão a concepção foi direcionada a condições mínimas de conforto e compatível com as condições econômicas da população alvo.

Foram adotados pátios internos ao conjunto criando-se assim espaços de convívio e lazer ao ar livre necessários às atividades sociais delineadas pelo clima e pela cultura. Foram adotadas pinturas de diferentes cores nos oitões e chaminés a fim de dar um sentido de individualidade.

 Os materiais construtivos foram escolhidos através de pesquisa da arquitetura vernacular local como a madeira e o barro, criando assim um clima de intimidade familiar.

8. Memorial descritivo de materiais

Item Material
Piso Quarto/Sala/Varanda Assoalho de Madeira
Piso Banheiro/ Cozinha Cimento alisado sobre laje pré moldada
Parede Externa Quarto/Sala Dupla com madeira de lei cerrada e Placa de OSB
Paredes Área úmida/Divisa Blocos de solo cimento impermeabilizada
Paredes Internas Dupla com Placa de OSB, pintura látex branco
Forro Lambril de madeira com treliça para ventilação
Revestimento Box/ Cozinha Azulejo 15x15 ate 180 cm
Esquadrias Madeira impermeabilizada
Pintura Externa Pintura látex branco e impermeabilizante p/ Bloco
Telhado Telha fibro asfáltica cor clara

8. Orçamento estimativo

Item Serviço Total
1.0 Projetos e Serviços Técnicos N/A
2.0 Instalações Preliminares N/A
3.0 Equipe Técnica N/A
4.0 Consumos N/A
5.0 Movimento de Terra N/A
6.0 Fundações 1.801,03
7.0 Infra-estrutura 1.809,29
8.0 Super Estrutura 2.255,96
9.0 Paredes e Painéis 1.193,42
10.0 Esquadrias 4.147,03
11.0 Cobertura 4639,69
12.0 Revestimento e Paredes Internas 715,32
13.0 Revestimentos de Tetos 1.168,93
14.0 Revestimentos de Pisos 2.117,67
15.0 Revestimentos de Paredes Externas 1.466,39
16.0 Instalações Elétricas e Hidráulicas 3.050,00
17.0 Vidros 248,33
18.0 Pinturas 1.706,84
19.0 Limpeza Final 163,99
  Custo Total da Obra (M.O/Material/BDI) 26.483,99
  Custo Total da Obra / m² 648,00

9. O projeto

Cobertura e implantação – Na implantação é possível observar a ênfase no convívio social e de lazer ao ar livre, definidos no fundo dos lotes

 
  Residencias Tipo 0. Planta baixa, orientacao norte-sul
     

Residência Tipo 01. Corte longitudinal

 
  Residências Tipo 02. Planta baixa, orientação leste-oeste
     
  Residência Tipo 02 – Elevação lateral, com ampliação
     

Residência Tipo 01 – Corte transversal

 

Ficha técnica

Autoria do Anteprojeto
Arquitetas Neli Ikue Takeda e Magali Tieppo Robaina

Consultoria em Conforto Térmico
Eliane Dumke – Mestre em Tecnologia e Arquiteta

Assessoria em Orçamento de Obras
Hamilton Tachibana – Engenheiro Civil

Desenho Técnico
Júlio Bittencourt

Perspectivas
Rodrigo Furchter

 
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  Data da notícia: 18/06/2005 – Fonte: Equipe premiada / Curitiba PR Brasil