| Cidade
contemporânea: São Paulo, a metrópole espalhada
e precária
Gabriel
Kogan e Paulo Miyada
[representação
da FAUUSP]
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| A
metrópole espalhada e precária |
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Um
projeto de cidade: São Paulo
A maior cidade
da América do Sul, como uma alegoria de outras, é,
hoje, avessa a arquitetura e urbanismo. Durante as últimas
décadas, um planejamento urbano perverso tornou São
Paulo ainda mais suscetível e desigual. Uma clara dicotomia
pode ser colocada: uma periferia incompleta e uma dúzia
de bairros ricos. Dentro e entre estes extremos, não há
espaços públicos. A cidade velha e seus entornos
próximos, apesar de uma completa rede de infra-estrutura
e até mesmo de equipamentos, está extremante deteriorada
e perde população rapidamente. Entretanto, ela preserva
ainda a possibilidade de uma vida social ativa e atraente.
Tempo
de deslocamento médio: 1 hora e 40 minutos
Salário médio: US$390
Densidade média: 83 habirantes/ha
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| São
Paulo: vida social ativa e atraente |
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Na periferia
a auto-construção, sem marcos, infra-estrutura e
equipamentos, novas casas são construídas todos
os dias espalhando uma grande massa uniforme. Essas novas cidades-dormitório
estão totalmente desconectadas de qualquer outra parte
do território. O estado, quebrado, distante e burocrático,
é incapaz de atingir esses habitantes espalhados e a tendência
aponta para um agravamento do processo onde a periferia está
crescendo continuamente. O tempo de deslocamento casa-trabalho
pode atingir facilmente mais de 2 horas por viagem e isso é
quase uma regra e não uma exceção.
Já
no centro com paisagem de muros, existem museus, escolas, parques,
hospitais, grande e pequenas lojas, estações de
metrô, redes de esgoto, redes de fornecimento de água,
serviços mas estão todos murados. A contradição
é que, onde a cidade é quase estruturada, onde a
cidade é viável, a possibilidade de habitá-la
não existe. Os espaços públicos, as ruas,
as praças, estão vazias: a individualização
está em alta, somada as políticas públicas
e o valor da terra forçam crescentemente a população
para fora.
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| Centro
com paisagem de muros |
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Um
projeto de cidade: São Paulo, a utópica metrópole
hiper-densa
Utopia.
Substantivo. Do grego, não + topos lugar.
1. Um lugar imaginário e remoto; 2. Um lugar de perfeição
ideal especialmente para leis, governo e condições
sociais; 3, Um esquema teórico para melhoria social.
Nota Explicatória:
A metrópole de São Paulo hiper-densa é utópica,
é um manifesto. É a cidade para todos. O esporte,
a arte, a dança das multidões e a vida, todos acontecendo
juntos. As extremas condições sociais, políticas
e espaciais da metrópole são todas repropostas.
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| A
cidade para todos |
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Os reestruturadores
urbanos são edifícios que tem o poder de rearticular
seu entorno. Eles não apenas suprem demandas de equipamentos
(a escola, o hospital) como reorganizam o espaço público.
Os reestruturadores urbanos são também nós
articuladores do transporte e da habitação. Pela
grande mobilidade da metrópole hiper densa, eles podem
funcionar como rede: seus programas não são sempre
os mesmos, são complementares.
Para a realização
da metrópole hiper-densa acessível a todos, uma
construção massiva de habitação será
necessária. A conexão dessa nova moradia com os
reestruturadores urbanos é essencial para que a nova metrópole
se realize como cidade pública e permeável.
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A
nova metrópole: cidade pública e permeável |
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São
Paulo: percebamos a inviabilidade. A cidade expande-se indefinidamente.
A periferia, novidade antiga, é transferida constantemente
para fora, ainda mais e mais, e seus vínculos se desfiam.
Renova-se sem mudança. Nessa expansão, há
conurbação e dispersão: sem desenho ou proposta,
a cidade cresce, esvazia e enche, especula e multiplica, diversa
e igual.
A cidade
espalhada, pouco densa, sem futuro prazeroso e sem passado manifesto,
impossibilita-se no presente. Não há gestão
possível. A infra-estrutura se espalha tal qual a cidade.
Os equipamentos, numerosos, centralizam antes extensões
de terras do que pessoas. A metrópole dos encontros e das
complexidades está pelo avesso: sua configuração
espacial é determinante para a exclusão e o impedimento.
A cidade é a rua e a praça, espaço público
das trocas e das identidades, mas as ruas e as praças de
São Paulo viraram espaços de esvaziamento e insegurança,
viraram muros, viraram leito carroçável.
São
Paulo: percebamos as potencialidades. Cidade-metrópole
de todas as misturas, espaço do encontro para ser agendado.
Componhamos a rua da aglomeração para grandes manifestações,
a cada segundo, do parangolé coletivo. Esta é a
dança da multidão ao som do sinal fechado e aberto
num instante, da porta do metrô que se abre. É a
menina que parte no sentido oposto, perdendo-se na multidão
de todas as cores.
No transporte hiper-rápido ou no caminhar do pedestre,
o tempo se transforma. O espaço se deforma e se rende diante
das possibilidades de mobilidade, reconstrói-se na paisagem
da memória. Na cidade, esse imaginário ganha cheiro,
cor, forma e peso: o espaço deformado pela velocidade se
materializa novamente; agora, as memórias individuais podem
se realizar como espaço coletivo.
Desenhemos
São Paulo em perspectiva e escrevamos não como Koolhaas,
retroativamente. Nossa cidade tem potencialidades e não
é como Nova York, cheia de evidências. Há
de se construir assim uma história a partir do presente,
a cidade do desejo.
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São
Paulo: cidade com potencialidades |
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A cidade nos
últimos 100 anos se reconstruiu três vezes. Inevitável
talvez seja não pensar a história de São
Paulo como uma história volátil, insípida.
Uma contemporaneidade sem vínculos com a história.
Uma história que vai deixar de existir em breve para dar
lugar a outra. Projetemos enfim uma metrópole-cidade possível
onde todas as pessoas estão inseridas. Deixemo-as sentir
o impacto de atravessar a rua com mais duzentas pessoas, serem
vizinhas da faculdade, do trabalho, da escola e do parque, habitemos
o imenso circo picadeiro!
Propomos
a densidade como partido, mas ela numa rede-sistema de infra-estrutura,
de equipamento e de transporte. Nossa densidade é possível,
concreta, vem de Manhattan, cerca de vinte vezes a concentração
atual, o que faria de São Paulo compreensível em
uma área de 300 km².
A cidade
hiper-densa é o lugar da infra-estrutura racionalizada
em que os encanamentos percorrem poucos quilômetros, mas
atendem todos, onde o metrô cresce metros para atingir milhares.
A cidade hiper-densa é o equipamento ao alcance, a escola
a poucos minutos, o hospital acessível; mas não
apenas, é também o lugar onde as manifestações
são possíveis e grandiosas, é o lugar dos
encontros. Em São Paulo, como em seu museu, o cidadão
se constrói agora do confronto e da simultaneidade de culturas:
Rembrandt e Léger estão lado a lado para mudarem
e serem mudados. No contínuo e livre do espaço,
o referencial entre as obras é o público, para sempre
circulando.
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| A
cidade hiper-densa: infra-estrutura racionalizada |
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O centro que
queremos ver adensado não é o centro que já
temos, nem o centro de Manhattan, para além disso: para
uma proposta de cidade futura, cidade com qualidade, acessibilidade
e densidade necessárias para sugar o crescimento da cidade
para si, como um grande imã.
Falamos então
do crescimento vertiginoso da moradia francamente acessível,
da concentração dos transportes e de seus nós
organizadores. Falamos do déficit habitacional da cidade,
do país e de toda América Latina. Falamos da tendência
natural da cidade em expandir-se. Habitação, transporte
e equipamentos: nenhum antes, nenhum depois mas num tripé
funcionando em sistema. Este não é o lugar dos apaziguamentos,
não é o lugar do imaginário sub-urbano que
freqüentemente nos ronda. Possamos assim, enfim, falar numa
metrópole possível para toda a sua população.
Uma metrópole cidade que é, antes de tudo, uma cidade.
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Processo
de adensamento de São Paulo vista de uma foto de satélite
(densidade adotada: 500 habitantes/hectar = upper east Manhattan) |
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Um
projeto para 17.878702 pessoas |
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