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Logo
do Pan 2007 |
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Introdução
As instalações
dos Jogos Pan-Americanos de 2007 foram agrupadas em quatro grandes
zonas distintas da cidade: Barra, Pão de Açúcar, Maracanã e Deodoro
(Vila Militar). Essa estratégia pretendeu distribuir os benefícios
diretos e indiretos dos jogos entre todos os habitantes do Rio
de Janeiro, através da construção de instalações e melhorias a
partir de uma rede de infra-estrutura existente.
No Complexo
Esportivo da Vila Militar de Deodoro foram realizadas as provas
de Tiro Esportivo, Hipismo, Tiro com Arco, Hóquei sobre Grama
e Pentatlo Moderno. Grande parte dos equipamentos esportivos e
de apoio permanecerá como legado (um programa para competições
similares se aplicaria também a futuros Jogos Olímpicos e Paraolímpicos),
formando um conjunto com um grande potencial de catalisar uma
revitalização geral de uma área suburbana significativa da cidade
(Bangu-Realengo).
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Mapa
de localização |
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Programa
“O projeto
é um personagem com vários autores, e é inteligente apenas quando
é lidado dessa forma. Senão, se torna obsessivo e impertinente”
Álvaro Siza (1).
Um projeto
para instalações esportivas de um evento do porte dos Jogos Pan-Americanos
exige, antes de tudo, o atendimento a uma série de pré-requisitos,
regulamentos e orientações de dezenas de instituições nacionais
e internacionais. Uma das particularidades desse tipo de projeto
é ter que atender a todas essas exigências e demandas para a instalação
de grandes eventos temporários internacionais de curta duração
(Jogos Pan-Americanos, Campeonatos Mundiais, Olimpíadas) e ao
mesmo tempo permanecer como um legado capaz de ser viável em termos
de manutenção e de gerenciamento (funcionando como clube de treinamento,
escola esportiva, etc.).
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Maquete
da implantação |
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Para a realização
dos Jogos ou campeonatos mundiais, projetos específicos de Instalações
Temporárias (Overlay (2)) devem complementar as instalações
definitivas, contemplando todas as necessidades para a operação
do evento, garantindo o acesso e o apoio adequados ao público,
atletas, imprensa, etc. Os espaços internos temporários nem sempre
permanecerão com a mesma função que tinham durante o evento, embora
muitas vezes isso aconteça.
Dessa forma,
buscamos minimizar ao máximo os espaços de dupla-função (ou seja,
que tivessem que ser adaptados para o evento, tendo uma utilização
posterior diferente), definindo no programa de necessidades, a
partir do evento, um conjunto de edificações e equipamentos definitivos
que possibilitasse a organização de outras competições oficiais
(campeonatos regionais, mundiais, olimpíadas, etc) bem como um
uso cotidiano de fácil manutenção (clube de treinamento, escola
esportiva, etc). As instalações temporárias, que teriam suas estruturas
e equipamentos removidos logo após os Jogos, deveriam ser acopladas
a uma rede de infra-estrutura de acessos e instalações a serem
projetadas em conjunto com o legado definitivo, que dessa forma
continuaria preparado para receber outros eventos de porte similar
no futuro.
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Implantação,
projeto executivo |
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Em todas as
cinco instalações esportivas em questão, visando ao evento dos
Jogos Pan Americanos e usos posteriores, temos uma série de pré-requisitos
em termos de organização, programa e funcionamento, que podem
ser considerados como constantes ou análogos em uma mesma visão
e estratégia de projeto, tanto do ponto de vista do evento como
do ponto de vista do legado. Na etapa de desenvolvimento do Masterplan,
o fundamental foi definir a setorização funcional geral e o inter-relacionamento
de cada uma das instalações, com base nos diversos fluxos de veículos,
pedestres e equipamentos, e seus diversos níveis de segurança
e controle. (3)
Imagem
“A variedade
é o prelúdio da monotonia; para evitá-la, repita seu próprio
elemento” Luigi Snozzi (4).
Se o projeto
começa dessa complexa rede de pré-requisitos e necessidades específicas
de um evento temporário internacional, ele também teria que ir
além disso. A arquitetura tinha que ser capaz de atender às complexas
demandas do evento e também do “pós-evento”, tendo que absorver
as prováveis mudanças de usos, oferecendo flexibilidade para a
apropriação de seus espaços, e também se manifestar claramente
no contexto da paisagem natural e urbana.
Dessa forma,
buscamos criar um repertório formal mínimo que pudesse ser composto
de diversas maneiras de acordo com a especificidade de cada esporte
e de cada lugar, conferindo a unidade necessária ao conjunto,
respondendo a problemas semelhantes de forma semelhante, mantendo
a idéia de um “complexo” ao invés de cinco instalações esportivas
isoladas. Quanto mais essa identidade fosse bem definida e reforçada,
mais ela ajudaria a arquitetura ser capaz de “sobreviver” às diversas
e inevitáveis interferências.
A construção
planejada a partir da modulação de um vocabulário restrito a poucos
elementos, além de permitir pré-fabricação, gerando agilidade
no processo de montagem e a economia de escala inerente à repetição
dos sistemas, confere uma unidade visual ao conjunto das várias
edificações pela própria repetição e combinação das suas proporções,
ritmos e escalas.
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Vista
aérea da maquete, en destaque o Centro de Hipismo |
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Por questões
de logística e rapidez de execução optamos por um sistema construtivo
misto: concreto fundido ‘in loco’ (pilares, contenções e muros
de proteção), concreto pré-moldado (degraus e “vigas jacaré” das
arquibancadas e lajes em geral) e estrutura metálica (coberturas
de vigas treliçadas revestidas com telha sanduíche), com vedações
(alvenaria, dry-wall, painéis de telha, brises e vidros) independentes
da estrutura. Evitando sempre que possível o uso de “revestimentos”,
quase podemos dizer, parodiando Niemeyer, que quando toda a estrutura
ficou pronta, a arquitetura também estava finalizada.
As condições
climáticas do local (Bangu é uma das áreas mais quentes do Rio
de Janeiro) e as particularidades das instalações esportivas,
que necessitavam de grandes vãos livres e de isolamento termo-acústico,
sugeriram um tipo de sistema construtivo onde a cobertura se desdobra
em forro, que se desdobra em parede, gerando uma série de elementos
contínuos de forte impacto visual (de linhas retas e simples,
às vezes violentamente exacerbadas em contraste com a paisagem
natural), mas de fácil construção e manutenção.
Além disso,
os poucos materiais empregados (concreto aparente, telha termoacústica,
bloco de concreto, cobogó, brises, vidros), juntamente com a repetição
das soluções dos pórticos, beirais, forros e dos sheds, conferem
uma unidade em termos de imagem austera às cinco instalações esportivas
e suas construções de apoio.
Desta forma,
o Centro de Tiro Esportivo (CTE), o Centro de Tiro com Arco (CTA),
o Centro Hípico (CHI), o Centro de Hóquei sobre Grama (CHG), e
a Piscina do Pentatlo Moderno (CPE) devem ser vistos não como
cinco projetos independentes, mas como um complexo integrado por
diversas partes que, juntamente com as instalações de infra-estrutura
urbana, pretendem formar um todo coerente com potencial de catalisar
uma requalificação do contexto urbano e natural imediato.
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Vista
aérea da maquete, en destaque o Centro de Tiro Esportivo
e o Centro de Tiro com Arco |
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Paisagem
“Eu gostaria
de ser um arquiteto no Rio de Janeiro. Quando você comete um
equívoco, eu imagino, a Natureza imediatamente corre em sua
ajuda” Álvaro Siza (5)
A paisagem
natural no Rio de Janeiro consegue ser surpreendente até mesmo
em regiões como Deodoro. Os mares de morros, a gradação de colinas
arredondadas de encostas convexas da parte norte até a planície
de sedimentos, suavemente inclinada para o sul, junto com uma
combinação de campos sujos e floresta alterada, etc. Esses aspectos
que às vezes podem passar despercebidos ao olhar desatento (ou
acostumado) ficaram evidentes e foram ressaltados com a simples
primeira “limpeza” dos terrenos.
Por outro
lado, a paisagem urbana do entorno é típica de subúrbio. A Av.
Brasil corta a Vila Militar de Deodoro ao meio, separando sua
parte norte da parte sul. Ao norte, a imensa área livre, disponível
para a implantação do Centro de Tiro, se destaca na paisagem natural
com poucas construções esparsas no seu entorno imediato. Ao sul,
onde o bairro propriamente dito se adensa, a Vila Militar ainda
é um enclave à parte, quase um oásis de ordem e disciplina num
contexto de ocupação desordenada e predominantemente residencial
do reduto suburbano da região.
Ao avaliarmos
a implantação da Vila Militar, principalmente em vista aérea,
vemos claramente o contraste entre essas áreas rigidamente distribuídas
e a ocupação mais informal e “orgânica” da vizinhança suburbana;
entre a ocupação mais densa e desorganizada dos bairros e a ocupação
mais esparsa e arborizada dos militares. Esse contraste é gritante,
tanto na urbanização como nas próprias edificações.
Diversas vezes,
mesmo assim, a paisagem veio nos dar uma mãozinha quando menos
esperávamos. Uma incrível coincidência fez com que tivéssemos
um enquadramento perfeito do céu e dos morros a partir da circulação
principal do Centro de Tiro, onde a seqüência de vigas dos campos
de prova esconde justamente a vista da implantação desordenada
do bairro na paisagem. Num outro caso, no Centro de Hipismo, a
topografia e a vegetação natural da região onde foi implantada
a trilha de 5 km do Cross-Country sugeriram um percurso sinuoso
e uma série de obstáculos que parecem fazer parte da paisagem
original. Ainda no CHI, uma área em torno de um afloramento rochoso,
resultado de um antigo desaterro coberto de mato, se revelou um
espaço ideal para um campo de treinamento único e especial. Na
região do Centro de Hóquei, ao suspendermos a piscina olímpica
, por causa do lençol freático, tivemos uma vista inesperada da
vegetação exuberante ao fundo.
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Vista
aérea da maquete, en destaque o Centro de Hipismo |
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1
– Centro de Tiro Esportivo (CTE)
2
– Centro de Tiro com Arco (CTA)
3
– Centro de Hóquei sobre Grama (CHG)
4
– Centro de Pentatlo Moderno (CPE)
5
– Centro de Hipismo (CHI)
Notas
1
ANGELILLO, Antonio (ed.). Álvaro Siza: Writings on Architecture.
Milan, Skira Editore, 1997. (tradução livre).
2
Definiu-se como Overlay todas essas estruturas, equipamentos
e instalações que deixariam de existir após o evento. Definiu-se
como Legado todas as estruturas, equipamentos e instalações que
permaneceriam sendo utilizadas com funções esportivas e de apoio
no uso cotidiano.
3
Público, Transmissão de Rádio e Televisão, Mídia, Atletas e Equipes,
Família Pan-Americana e VIPs, Patrocinadores, Gerenciamento e
Administração.
4
DISCH, Peter. Luigi Snozzi. Costruzioni e progetti-Buildings
and projects (1958-1993), Lugano CH, ADV Publishing House SA,
1994 (tradução livre).
5
ANGELILLO, Antonio (ed.). Op. Cit., em comentário válido
até mesmo em Deodoro, para nossa surpresa.
Ficha Técnica
Arquitetura
BCMF Arquitetos (antiga MCA Arquitetura)
Autores
Bruno Campos (Arquiteto Responsável), Marcelo Fontes e Silvio
Todeschi (co-autores)
Equipe
Jorge Leal, Cláudio Parreiras Reis, Luciana Maciel, Lisiane Melo,
Leonardo Fávero, Cristiano Monte-Mór, Ana Kawakami, Fabiana Fortes
e Antônio Valadares
Consultoria
Eduardo Castro Mello
Overlay
Gustavo Nascimento (CO-Rio 2007) e John Baker (M.I Associates/
Bligh Voller Nield)
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