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Lugar – Trabalho G32
Ana Letícia Pedrosa Barcellos, Pedro Durão de Andrade Júnior,
Rafael de Miranda Gonçalves e Renato Tupinambá de Abreu Júnior
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Perspectiva geral |
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Contexto
Urbano
Os chamados
vazios urbanos são áreas obsoletas, dotadas de infra-estrutura
provida com recursos públicos à espera de uso apropriado às suas
condições. Essas lacunas no tecido urbano tornam-se ainda mais
problemáticas quando são ocupadas irregularmente por famílias
de baixa renda. Nesse contexto, a partir da demanda de órgãos
governamentais, surge o interesse em desenvolver um projeto que
viabilize a adaptação de um imóvel desativado para fins habitacionais,
propondo soluções adequadas à moradia de interesse social.
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Foto aérea da região |
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Desenvolvido
através da parceria entre o Instituto de Terras e Cartografia
do Estado do Rio de Janeiro – Iterj e a Universidade Federal Fluminense
– UFF, o estudo em questão tem como protagonista a comunidade
Nova Era, situada em Ramos, região metropolitana do Rio de Janeiro.
Esse assentamento relativamente recente resulta da ocupação de
galpões desativados pertencentes à Empresa Brasileira de Telecomunicações
– Embratel. A proposta de reassentamento habitacional desenvolvida
neste projeto é calcada em estudo de reconhecimento da área e
de seu entorno imediato, elaborado a partir de levantamento físico
e fotográfico, questionário socioeconômico preparado pela equipe,
depoimentos dos moradores e contato com órgãos públicos e privados
atuantes na área.
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Localização do assentamento |
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Comunidade
Nova Era
A Comunidade
Nova Era é apenas mais um caso de ocupação irregular dentre tantos
outros ao longo da história urbana do Complexo de Manguinhos,
que já dura cerca de 100 anos, na cidade do Rio de Janeiro. Antiga
área de mangues e alagadiços, agora aterrados, a região apresenta
características de segregação espacial relacionadas ao uso do
solo e ao processo desigual de expansão urbana da cidade.
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Entrada principal do assentamento |
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Área predominantemente
industrial, Manguinhos é rasgada por grandes eixos municipais
de circulação: a Avenida Brasil, rodovia de entrada e saída da
cidade; a linha férrea, primeiro pólo indutor de crescimento urbano;
e as linhas Amarela e Vermelha, vias expressas que encurtam distâncias
entre os principais pólos da cidade, ligando bairros de diferentes
níveis socioeconômicos.Influenciada pela violência e o tráfico
de drogas, associados à crise econômica do país, a região sofre
com um fenômeno intenso de desvalorização do solo, aumentando
cada vez mais o número de imóveis industriais abandonados e de
assentamentos irregulares. A Rua Leopoldo Bulhões, apelidada "Faixa
de Gaza" pela polícia e pela imprensa, sofre freqüentes tiroteios
e confrontos armados entre traficantes e policiais. É a violência
urbana contribuindo decisivamente para o esvaziamento econômico
da área.
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Foto de uma das vias do assentamento |
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Atualmente
o bairro abriga grande número de conjuntos habitacionais, ocupações
e assentamentos irregulares e favelas que formam o Complexo de
Manguinhos, totalizando cerca de 12 mil domicílios, com mais de
50 mil moradores (Bodstein et all,2001), cuja renda per capita
gira em torno de R$ 148,00 (IDH). O gabarito varia de um a cinco
pavimentos, conforme a consolidação e a densidade das ocupações.
O padrão construtivo é de alvenaria, madeira ou sucata. Tem caráter
provisório e se mantém em constante ampliação, na grande maioria
com lajes em espera para futuro aproveitamento do pavimento superior.
Existe uma carência local quanto a equipamentos urbanos de serviços
comunitários. A oferta é pequena e geralmente distante do local
de moradia.
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Implantação do projeto |
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Manguinhos
apresenta, ainda, baixos indicadores de educação e saúde; insuficientes
oportunidades culturais, de lazer e serviços de atendimento às
necessidades essenciais, além de sofrer as conseqüências do tráfico
de drogas, da exclusão social e da violência. Diagnósticos Rápidos
Participativos (DRPs) realizados pela Fundação Bento Rubião (2000)
informam que todas as comunidades que compõem o bairro possuem
sérios problemas de esgotamento e saneamento, variando da inexistência
à obsolescência.
O processo
de ocupação do terreno, objeto de estudo, começa quando a Embratel
desativa suas instalações em 2004, alegando não ter condições
de garantir a segurança de seus funcionários. Neste período parte
dos fundos do terreno destinado à expansão da empresa já havia
sido ocupado, formando a comunidade Samora II (2001), mais conhecida
como Embratel I. Após sucessivas invasões, surge a Comunidade
Nova Era com a ocupação definitiva do terreno e suas instalações
em julho de 2005.
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Vista aérea do interior de quadra |
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O assentamento
irregular autodenominado Nova Era, também conhecido como “Embratel
II”, (referência explícita à empresa titular do terreno e do imóvel
abandonado), localiza-se à Rua Leopoldo Bulhões, número 540, no
bairro de Manguinhos, na cidade do Rio de Janeiro. O terreno com
cerca de 30 mil metros quadrados, faz divisas com a sede da ECT
(Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos) e as comunidades
Nelson Mandela, Samora Machel, Mandela de Pedra e Embratel I (Samora
II).
O terreno,
originalmente utilizado para estocagem de material, apresenta
um total de oito edificações: uma guarita, uma área de estacionamento
coberta, dois galpões desocupados e quatro galpões menores ocupados
pelas famílias. Segundo levantamento realizado na área, ainda
é inerte o processo de verticalização, e a ocupação encontra-se
na fase de consolidação. Na comunidade vizinha, Embratel I, observa-se
o passo posterior: as edificações em sua maioria de alvenaria,
o aumento do número de pavimentos e maior número de construções
de uso misto (moradia e comércio). O uso é predominantemente residencial,
e nos raros casos de uso misto prevalecem os bares. A ocupação
estabelece boa relação com as comunidades vizinhas e o entorno,
já que depende de inúmeros serviços oferecidos por elas.
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Vista aérea dos lotes comerciais |
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Quanto aos
serviços de infra-estrutura observam-se: “gatos” e gambiarras
na rede de energia elétrica; esgoto a céu aberto, lançamento de
esgoto in natura nos corpos d’água ou nas redes de capitação das
águas pluviais; coleta de lixo ineficaz e ou inexistente; sobrecarga
na rede de água oficial; telefonia pública deficiente; destinação
final do lixo inadequada, etc.
A maioria
dos moradores trafega grandes distâncias para obter serviços de
saúde, utilizando-os principalmente daqueles localizados nos bairros
de Bonsucesso e Del Castilho. O único serviço hospitalar oferecido
nas redondezas é através de um posto de saúde na Fiocruz.
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Perspectiva frontal |
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O comércio
local desenvolve-se dentro das comunidades em caráter de subsistência,
sendo mais sofisticado conforme a consolidação dos assentamentos.
Quanto à mobilidade, existe oferta para toda a cidade, entretanto
o acesso se dá em pontos específicos, o que acarreta geralmente
o gasto de duas passagens, principalmente no transporte para a
zona sul da cidade.
A Proposta
Buscando a
reconexão do tecido urbano e social fragmentados, e na intenção
de reverter o quadro de irregularidade fruto da ausência do Estado,
a proposta de reassentamento da Comunidade Nova Era tem como objetivo
principal proporcionar condições de habitabilidade satisfatórias,
estendendo esse conceito para além do objeto habitação e incorporando
outras dimensões como: inserção social, qualidade de vida e condições
de salubridade satisfatórias, possibilidade de ascensão econômica
e geração de renda a partir da moradia digna, e requalificação
da dinâmica urbana de seu entorno.
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Perspectiva da praça central |
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A proposta
tem ainda como meta a adoção de soluções econômicas e de baixo
custo, levando em consideração as possibilidades de financiamento
e real implantação de projetos característicos para população
de baixa renda. Dentre as medidas adotadas destacam-se: a padronização
das tipologias habitacionais e seu processo construtivo, a escolha
de materiais acessíveis à população ou de fácil execução em canteiro,
revenda e reaproveitamento dos produtos de demolição, utilizando
ao máximo à infra-estrutura existente no terreno.
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Perspectiva geral |
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Todo o parcelamento
implantado busca potencializar o convívio, as relações sociais
e o espírito de comunidade, além de reproduzir de maneira racional
o máximo aproveitamento de área livre sem prejudicar a qualidade
de vida local. A divisão do parcelamento é feita a partir de lotes
com 5 metros de testada e 10 de profundidade (5 x 10) seccionadas
por um eixo viário carroçável e vias peatonais locais. A ordenação
privilegia o pedestre e a importância do espaço público na formação
do cidadão e do bem estar social. A arborização é usada de maneira
a amenizar o calor causado pela concentração característica de
projeto de assentamentos populares, criando um micro clima propício
ao desenvolvimento humano sadio. Há ainda a previsão de futuras
conexões viárias de “Embratel II” com as comunidades vizinhas,
sendo a via carroçável o elemento formal de ligação.
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Elevação frontal das casas |
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O projeto
apresenta um total de 312 unidades habitacionais, sendo uma unidade
multifamiliar adaptada a um dos galpões e 300 unidades unifamiliares
no parcelamento proposto. A escolha prioritária por unidades habitacionais
individuais por lote se apresenta como melhor solução ao se analisarem
os anseios dos moradores e os conflitos e inconvenientes pós-ocupacionais
com vizinhos que compartilham o mesmo lote. Buscou-se ainda manter
o máximo de qualidade espacial à aglomeração excessiva de habitações
mínimas. Todas as unidades habitacionais unifamiliares têm 55
metros quadrados e estão dispostas em fita e geminadas nos fundos.
Apresentam também área livre nos fundos para, além de agregar
valor à moradia, gerar melhores condições de ventilação. Existe
também previsão de ampliação no pavimento superior, no intuito
de induzir e racionalizar a característica inerente de constante
mutação desta população.
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Planta baixa da unidade unifamiliar – 1º pavimento |
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A proposta
conta ainda com algumas unidades de uso comercial, numa tentativa
de atrair comerciantes locais, servindo de agentes indutores de
desenvolvimento da comunidade. Estão localizados em torno da praça
e à frente do assentamento, fazendo a transição da avenida para
as moradias.
Da infra-estrutura
de galpões permanecerão como parte integrante da proposta os dois
maiores. O galpão de um pavimento, que tem cerca de 15 metros
de altura, está adaptado para uso habitacional. Serão retirados
todos os painéis de fechamento de alvenaria permanecendo apenas
a estrutura. Abrigará um edifício de três pavimentos com seis
unidades habitacionais por andar. Todas com varandas, como alternativa
à área de quintal.
O galpão de
dois pavimentos, que tem aproximadamente 5 metros de pé-direito
por andar, abrigará uma escola de ensino fundamental para aproximadamente
1500 alunos e uma creche para 150 crianças, seguindo a reivindicação
da população local. Serão realizadas ainda adaptações para acomodação
do eixo viário principal, permitindo melhor aproveitamento do
parcelamento no terreno.
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Planta baixa da unidade unifamiliar – 2º pavimento e suas
possíveis ampliações |
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Outros equipamentos
complementam a integração da população local na dinâmica formal
da cidade. A área comunitária, com sede da associação de moradores
e espaço para confraternização da comunidade; os pequenos galpões
para realização de oficinas, ofícios, trabalhos de reciclagem
de lixo e eco ponto, (remanejando o ferro velho existente), cursos
profissionalizantes e atividades comunitárias em geral; duas quadras
polivalentes, para incentivo a prática de esportes; brinquedos
infantis, aparelhagem de ginástica e mobiliário de estar, encontrados
na praça central; por fim, equipamentos de lazer localizados ao
longo do caminho arborizado da suposta adutora.
Por fim, conclui-se
que o estudo aqui proposto vai ao encontro do interesse do Estado
em desenvolver projetos na área, requalificando imóveis inutilizados
para fins habitacionais. Dessa maneira, são grandes as possibilidades
de intervenções e projetos que proporcionem a qualidade da moradia
e a inserção da população no tecido regular da cidade, além da
revitalização da área de Manguinhos atualmente degradada.
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Planta baixa do apartamento do bloco multifamiliar |
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Ficha Técnica
Localização
Manguinhos, Rio de Janeiro - RJ
Área do
terreno
30.000m²
Autores
Ana Letícia Barcellos, Pedro Durão, Rafael Miranda e Renato Tupinambá
Orientador
Profº Dr. Gerônimo Leitão
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