Intercâmbio cultural pan-americano São Paulo–Winnipeg
São Paulo, 1º semestre de 2001

Escolas participantes
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, Brasil
Faculty of Architecture, University of Manitoba, Winnipeg, Canadá

Professores responsáveis
Eduardo Aquino
Carlos Leite

Exposição "Brasil! Que País é Este?", na galeria da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Manitoba, Winnipeg, outubro de 2000
 

Vivenciando arquiteturas

Arquitetos vivenciam os lugares. Viajam para descobrir outras arquiteturas. Le Corbusier foi profundamente marcado no início de sua carreira pela antiga arquitetura européia através das suas viagens. Sempre realizava muitos "croquis de voyage et études", hoje famosos, como os das viagens a Atenas, Pompéia ou Rio de Janeiro. Era a sua maneira de absorver ao máximo as experiências vividas em cada lugar por onde passava.

Estes últimos anos proporcionaram mais oportunidades de viagens a arquitetos brasileiros com a estabilização da moeda brasileira e com o "boom" da produção arquitetônica contemporânea européia e norte americana, atraindo assim um número cada vez maior de profissionais que viajam para assimilar novos conhecimentos.

Reconhecendo a importância deste deslocamento crítico e com o intuito de criar uma outra oportunidade de aprendizado para os seus estudantes, as Faculdades de Arquitetura da Universidade Mackenzie e da Universidade de Manitoba, em Winnipeg, Canadá, acabam de concluir o primeiro ciclo experimental de intercâmbio acadêmico com a estadia de um grupo canadense em São Paulo (fevereiro à abril de 2000), e um grupo paulistano visitando Winnipeg (janeiro e fevereiro de 2001).

Exposição "Brasil! Que País é Este?", na galeria da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Manitoba, Winnipeg, outubro de 2000
 

É importante notar que este esforço comum das duas escolas não teve o intuito de somente facilitar a viagem dos vinte e três estudantes envolvidos, mas também expô-los completamente aos processos de ensino, crítica e reflexão do lugar, além de proporcionar um contato com as realidades sociais, culturais, ambientais e políticas encontrados nestes dois ambientes totalmente distintos. Os alunos canadenses se hospedaram por três meses numa cobertura do edifício Copan, enquanto que os estudantes do Mackenzie se estabeleceram num dos edifícios históricos no centro de Winnipeg. Tratava-se, sobretudo, de um reconhecimento histórico de territórios distintos. Como costuma colocar Daniel Libeskind, a arquitetura contemporânea como parte da história do lugar.

Os alunos canadenses foram adaptados ao Atelier de Projeto Urbano da Faumack pelo professor Carlos Leite e os alunos mackenzistas foram recebidos em Winnipeg em dois cursos diferentes: Atelier de projeto, coordenado pelos professores Ian Macdonald e Neil Minuk, e Atelier Urbano, dirigido pelo professor Jae-Sung Chon. Os temas de projeto desenvolvidos pelos alunos foram concentrados nas realidades urbanas específicas de São Paulo e Winnipeg. Os alunos canadenses trabalharam num projeto de escala urbana na área da Luz, mais especificamente o pátio ferroviário Júlio Prestes (reestruturação de área urbana residual, a orla ferroviária), enquanto os alunos brasileiros propuseram intervenções no centro histórico de Winnipeg, conhecido como The Exchange District, em trabalho que resultou em participação conjunta no Concurso Internacional de Escolas de Arquitetura da OTIS (Housing and urban design in metropolitan central areas). Assim, foram expostos a situações marcantes que valorizam muito as peculiaridades destas condições urbanas, criando um desafio maior no processo de compreensão destas realidades e no processo criativo em encontrar soluções adequadas e sensíveis às problemáticas apresentadas.

Maquete da intervenção canadense na área do pátio ferroviário Júlio Prestes, a "Praia Julio Prestes", "São Paulo precisa do silêncio"
 

As polêmicas geradas pelas abordagens inusitadas de cada grupo junto a seus pares "locais" – um grupo de estudantes canadense propôs a transformação do pátio ferroviário Júlio Prestes em Praia, sob a bonita justificativa de que "São Paulo precisa do silêncio e não de mais massa construída em seus terrain vagues", enquanto um grupo brasileiro propôs a transformação da hoje esvaziada Main Street de Winnipeg em espécie de Av. Paulista, para lá transportando os ideais da arquitetura urbana moderna brasileira enquanto instrumental de adensamento urbano - só vêm atestar a riqueza deste tipo de intercâmbio.

Todos os alunos e professores envolvidos nesta experiência inédita concordam indiscutivelmente na sua extrema importância para o ensino da arquitetura aonde os pontos construtivos só se somam. Muitos dos alunos consideram a experiência como redirecionadora de posições tanto do aprendizado, como também da própria vida. Além de vivenciarem processos de aprendizado diferentes, existiram ainda oportunidades para redefinirem métodos de trabalho que antes eram considerados norma, mas que agora entram em um escrutínio crítico ímpar. Além do impacto direto na experiência dos alunos, este ciclo experimental de intercâmbio permitiu questionar com maior amplitude a questão do ensino da arquitetura que, dadas as condições do mundo contemporâneo, não pode se acomodar em considerar somente situações 'locais' no currículo, sendo estas de âmbito geográfico, cultural, filosófico, político, etc. O reconhecimento mútuo de créditos, por exemplo, criaria a possibilidade de integração de uma rede internacional de escolas, abrindo assim enormemente o contexto do ensino e da pesquisa, promovendo o reconhecimento profissional mútuo, que, consequentemente, permitiria o exercício da profissão internacionalmente.

A realidade da globalização vem diretamente à tona, e, na posição em que nos encontramos, alguns críticos poderiam clamar que o interesse internacional em universidades brasileiras seria uma nova onda de imperialismo intelectual e científico. No entanto as maiores manifestações culturais do Brasil refletiram uma perspicaz sensibilidade em absorver e administrar tais influências, traduzindo assim o valor 'estrangeiro' em interpretações mais relevantes de quem somos ou o que queremos ser (movimento antropofágico, tropicália, bossa nova, Brasília, neoconcretismo, etc.). O próprio movimento moderno brasileiro na arquitetura, só eclode após a passagem de Corbusier por aqui. A influência da arquitetura moderna européia foi determinante nas primeiras décadas do século e o Brasil, após absorvê-la, devolveu ao velho mundo uma arquitetura única que assombrou os críticos como, por exemplo, na exposição Brazil Builds no MOMA de Nova York. A partir daí, o intercâmbio é recíproco e contínuo. Interessante observar, inclusive, o ressurgimento nos últimos anos do interesse pela arquitetura brasileira contemporânea e o intercâmbio crescente entre jovens arquitetos brasileiros e instituições européias e americanas (exposições e palestras em diversas instituições, de Barcelona à Roterdã, de Londres à Winnipeg).

Trabalho da canadense Alyssa Schwan, Jardim Vertical na Luz reciclaria a água do imenso espelho d’ água proposto: "eco-friendly design"
 

O que fica claro nesta experiência entre as Universidade Mackenzie e de Manitoba não é só o ganho constatado pelos alunos, mas uma série de aspectos extremamente positivos na formação e desenvolvimento de novos currículos, na atualização de professores e, mais importante, na rica troca cultural entre dois povos americanos. Há que se destacar: brasileiros e canadenses sempre se posicionaram na frente de resistência das influências americana e européia, e sendo as nações mais periféricas do continente, em posições diametralmente opostas, este novo intercâmbio significa o início de uma troca a ser travada com o desejo de se descobrir uma nova territorialidade. Uma nova possibilidade de pensarmos a América e, como diria Paulo Mendes da Rocha, um território ainda a ser descoberto e definido pela arquitetura e por um novo diálogo entre dois de seus povos.

Eduardo Aquino, arquiteto (Belas-Artes), Master of Fine Arts (Concordia), é professor na Faculty of Architecture, University of Manitoba, Winnipeg, Canadá.

Carlos Leite, arquiteto (Belas-Artes), Mestre e Doutorando (FAUUSP), é professor na FAUMACK e Belas-Artes.