Concurso
Público Nacional “Prêmio Caixa-IAB Habitat Brasil 2001/02”
Brasília, 25 de abril de 2002
Categoria:
Profissional / Modalidade: Urbanismo
1º lugar
Arquiteto
César de Barros (coordenação);
Arquiteta Juliana Sarrmento (colaboração)
Mobiliário
Urbano Alternativo. Promoção de espaços coletivos em áreas
carentes
Território
e Legitimidade
Apesar
de abordagens diversas, ainda não se conseguiu estabelecer um conceito
global de auto-sustentabilidade. A reciclagem de todo e qualquer material
orgânico e inorgânico, e a conseqüente não produção de resíduos, seria
um primeiro esforço. A partir do reaproveitamento, teríamos
um ritmo contínuo onde os produtos seriam apenas elementos de fases
distintas se renovando em cadeia.
As
cidades contemporâneas são totalmente descartáveis, onde os objetos
urbano-arquitetônicos são substituídos aceleradamente com justificativas
tecnológicas em circunstâncias político-mercadológicas. Nosso trabalho
visa complementar e resgatar a integração social de todo o território.
Consiste de novas estratégias a serem aplicados em futuros projetos
sociais, a partir da produção de espaços de uso coletivo, com mobiliário
urbano alternativo. Pesquisas comprovam que a oferta de áreas de lazer
contribui para afastar os jovens da marginalidade urbana, sendo nas
áreas pobres onde se percebe a ausência quase total destes espaços.
Buscamos
suprir a ausência de equipamentos comunitários em áreas pobres otimizando
o potencial funcional e estético de elementos residuais, com a alternativa
de se produzir mobiliário urbano através do reaproveitamento de objetos
existentes nos ferros-velhos da cidade. O processo contempla o envolvimento
comunitário com respostas ao enriquecimento social. Através de pesquisa
sobre o mobiliário convencional, definimos critérios de interpretação
para objetos renováveis considerados descartáveis, através do redesenho.
Gerando possibilidades, até então, desconsideradas na requalificação
de áreas carentes.
O
Recife possui uma história peculiar quanto aos movimentos sociais
no cotidiano das comunidades, sendo referência nacional na condução
de políticas públicas. É preciso admitir a diversidade espacial do
tecido urbano do Recife, evidente na conformação geográfica e manifestações
urbanísticas e culturais. A diversidade física e ambiental do Recife
se reflete nas distintas configurações sociais, com diferentes padrões
de ocupação. Na maioria dos bairros com população de alta renda, existem
ocupações irregulares consolidadas.
A
urbanização de espaços de uso coletivo através de mobiliário urbano
alternativo é o caminho democrático para equacionar as diferenças
sociais, permitindo uma maior conscientização da população de baixa
renda quanto ao direito de inserção na cidade oficial. Trabalhamos
aqui com Brasília Teimosa, porém, poderíamos atuar em qualquer área
pobre do Recife ou Brasil, pois, a carência é a mesma, mudando apenas
a topografia, o clima e os costumes.
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| Localização
dos bairros |
Brasília
Teimosa está situada em privilegiada área estuarina. Sua consolidação
se deu a partir de aterros e a junção de quatro ilhas. Com a expulsão
dos holandeses as ilhas, aos poucos formaram uma península triangular,
resultante do assoreamento pelas obras do Porto no final do século
XIX. Aí resistiram e permaneceram os pescadores, utilizando a água
como fonte de alimento, renda e meio de transporte entre as ilhas
e o continente. No início dos anos 60, volta a ser palco de lutas
pela terra, quando os seus moradores insistiram em permanecer e assegurar
para a sua comunidade uma das fatias mais cobiçadas da Cidade.
Enquanto
se intensificavam as obras da nova capital Brasília, na cidade do
Recife, a comunidade pesqueira insistia em reerguer, no amanhecer
do dia, os barracos derrubados pela polícia na noite anterior. Daí
a origem atual de seu pitoresco nome Brasília Teimosa. Em 1983,
já como bairro, incorporou-se à Lei de Uso e Ocupação do Solo do Recife
como a ZEIS 25 (Zona Especial de Interesse Social). Possui hoje muitos
bares e restaurantes especializados em frutos do mar, freqüentados
pela classe média do Recife, assim como turistas locais e estrangeiros.
Existem ainda pequenos estaleiros improvisados na margem fluvial.
Buscamos
promover a recuperação e o resgate dos espaços de uso públicos de
Brasília Teimosa, lugar pobre e de considerável violência urbana.
Através da transformação de espaços ociosos e ou degradados em áreas
de lazer, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida e a redução
da violência. O reconhecimento da paisagem reforça as suas singularidades
como reflexo de luta pela consolidação do espaço e construção de um
lugar. Entre eles a morfologia, lembrando espaços medievais e as palafitas
resistindo às mudanças de marés, a vida nas calçadas; a pesca e várias
ruas com nome de peixes.
Começaremos
por uma Área Piloto de aproximadamente 300m² localizados na antiga
Colônia de Pescadores Z1. Uma praça existente e bastante deteriorada,
porém situada em local muito significativo e importante na história
do lugar, com grande visibilidade. Atualmente é o caminho preferencial
para vários turistas que visitam os bares da orla. O local é bem delimitado
e de fácil acesso, uma oportunidade de mostrarmos a possibilidade
de requalificação de um espaço de uso coletivo consolidado, porém
abandonado e em estado crescente de degradação. Seria necessária a
implementação de canteiros e jardins, o plantio de algumas árvores,
bem como alguns brinquedos, bancos, postes e lixeiras.
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As
praças e áreas livres convencionais são desenvolvidas sem a participação
dos usuários, ocasionando a fácil deterioração, pela falta de manutenção
ou vandalismo comum em ações não legítimas. Repetem a mesma fórmula
independente do lugar, desde materiais, formas e equipamentos. É preciso
incentivar a mobilização da comunidade nos trabalhos, garantindo uma
maior durabilidade e a efetiva identificação dos usuários com o espaço
que utilizam.
Pretendemos
envolver crianças, ajudando no desenvolvimento do sentimento de
lugar. Temos que trabalhar em Brasília Teimosa, assim como em
outras intervenções incorporando o conceito de patrimônio e o entendimento
da construção do lugar. Ao apreendermos a identidade local, descobriremos
peculiaridades a serem preservadas, impondo a presença da tradição
expressa na paisagem. É isso que Brasília Teimosa poderá oferecer
com valores que deverão ser mantidos como relíquia de significativo
valor na história urbana do Recife.
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| Brasília
Teimosa com vista ao fundo da área central do Recife |
O
primeiro estágio é examinar a área identificando os lugares significativos
e com potencial de uso coletivo dentro da comunidade. Depois são previstas
algumas oficinas, criando um espaço de reflexão e integração dos diversos
atores envolvidos para construir coletivamente os procedimentos metodológicos.
Em seguida a apreensão dos usos predominantes no entorno e características
da população. A idéia é trabalhar em pequenos espaços já apropriados
pela população depois partindo para áreas maiores e de maior complexidade.
Interpretação
e economicidade
O
Recife possui ferros-velhos em quase todos os bairros. Nestes depósitos,
três aspectos específicos se destacam: a diversidade, a repetição
e a quantidade. Em seguida o estado de conservação e a presença de
objetos de alto potencial de reaproveitamento. Fizemos um mapeamento
e reconhecimento de todos os ferros-velhos oficiais existentes na
cidade do Recife, identificando inclusive os seus respectivos raios
de abrangência
Entre os itens
que mais se repetem estão tubos metálicos, parafusos, peças de automóveis,
serpentinas, condutores, folhas de alumínio, chapas, tonéis, porcas
de alta tensão, barris de alumínio, luminárias de rua, botijões de
gás. Temos ainda algumas peças exóticas como panelas de caldeiras,
pistões cromados, resistores de alta tensão em porcelana e vidro,
entre outras que se repetem aos milhares. Como estes muitos são os
objetos descartados sem a menor oportunidade para aqueles que poderiam
evitar o desperdício de matérias de alto valor de confecção.
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A
fase operacional é desenvolvida em três etapas, com a total participação
das crianças. Inicialmente a identificação dos objetos nos ferros-velhos
e a seleção dos itens de grande repetição e bom estado de conservação.
Nesta etapa são coletados e sistematizados os materiais com potencial
de redesenho e possível aproveitamento enquanto mobiliário e equipamentos
de lazer. Em seguida o estudo e redesenho destes objetos, etapa onde
se procura esgotar todas as possibilidades de reutilização do elemento
identificado. Busca-se através da peça escolhida ou da junção de vários
itens, obter o melhor resultado no produto final.
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Finalmente
a produção, com a definição dos produtos e suas cabíveis aplicações.
Nesta etapa passam por corte, lixa e acabamento, concluindo o processo,
e assegurando o caráter funcional e estético de cada produto. A idéia
é redesenhar as peças a partir de referências da comunidade, que não
lembrem a matéria prima sucata. São objetos novos, disponíveis
a apropriações inusitadas.
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Para
viabilização desta proposta precisamos ter parceiros públicos e ou
privados. A Prefeitura Municipal é o maior parceiro, pois é o responsável
oficial pela promoção da qualidade dos espaços públicos. Algumas multinacionais
estão disponibilizando verbas consideráveis para aplicação em projetos
de cunho social. Por último, nos resta o empresariado local que poderia
investir, não só por se identificar com a pertinência da proposta,
como também obter benefícios fiscais. Será necessário ainda formar
uma equipe técnica específica composta por arquiteto, desenhista industrial,
agrônomo e estudantes em convênio com departamentos específicos das
universidades a fim de se estabelecer um envolvimento acadêmico e
maior reverberação científica.
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| Proposta para confecção
de bancos, postes e luminárias |
Algumas
pesquisas vêm sendo realizadas por segmentos preocupados com as novas
solicitações de uma sociedade cujo comportamento de vida está em acelerada
transformação. Utilizando materiais alternativos em detrimento dos
oferecidos no mercado oficial, ou ainda, propondo usos alternativos
de materiais convencionais. A flexibilidade do desenho é a garantia
das possibilidades de usos do espaço, preocupação que precisa alcançar
a pesquisa de interesse social, bem como os projetos produzidos por
alguns grupos de produção de habitação social.
Na
realidade informal de nossas cidades vemos muitos exemplos de uma
iniciativa de reaproveitamento. Em Brasília Teimosa é freqüente o
uso da caixa da geladeira para se fazer diversos equipamentos, desde
o simples carrinho de transporte, e hortas, até caixas dágua para
servirem os bares da orla. De uma maneira séria e com pesquisa temos
a produção de artefatos de moda, confeccionados com garrafas plásticas,
bolsa de latas de alumínio, até abrigos para ônibus com latas de óleo
lubrificantes.
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| Carrinho
usado no transporte de barracas de lanche |
Estes
exemplos ilustram a tendência de reutilização de objetos presente
na cultura de nosso povo. É inestimável a quantidade de mobiliário
comprada diariamente para manutenção pública. Enquanto isso os ferros-velhos
acomodam uma infinidade de objetos descartados. São inúmeras as possibilidades
de redesenho e confecção de objetos que variam desde: lixeiras, postes,
luminárias, bancos, brinquedos, abrigos de ônibus, observatórios para
salva-vidas e polícia entre outras demandas possíveis de acordo com
cada espaço trabalhado e suas necessidades específicas.
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| Lixeira
desenvolvida com filtro de ar de caminhão |
Temos
plena certeza das vantagens do mobiliário alternativo proposto em
relação aos equipamentos convencionais, sem considerar os ganhos sociais.
Comparando os valores das sucatas com os materiais convencionais,
perceberemos que a diferença é bastante significativa, chegando, às
vezes, a ser dez vezes mais barato que as peças novas. Podemos trabalhar
com uma diversidade de objetos como alternativas para o mercado consumido,
usando materiais de alta qualidade, resistentes e em bom estado de
conservação.
O
desafio está em romper as barreiras que isolam certas áreas da cidade
onde o poder público precisa reconhecer que morar bem está além da casa própria.
São necessários serviços básicos de limpeza urbana, segurança e equipamentos
de convívio, buscando o desenvolvimento individual das pessoas a partir
da coletividade instaurada. Entendemos como cidade integrada, as faces
informal e oficial com as mesmas prioridades e benefícios públicos.
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| Quiosque
de coco feito com serpentina e banco com de centrífuga
de caldeira |
Tentamos
abordar uma temática inusitada, humilde e pragmática, tão alheia ao
interesse das administrações públicas. O desejo de um mundo sem a
produção de resíduos, onde os poucos restos não controláveis tenham
um retorno social. Um meio ambiente saudável, melhorando a qualidade
de vida das comunidades carentes, do entorno e conseqüentemente de
toda a sociedade globalizada.