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3°
lugar – Proposta n° 23
Arquiteto Gustavo De Oliveira Martins – Rio de Janeiro RJ
Equipe: Ana Paula Polizzo e Marco Antônio Milazzo de Almeida
Sabará
A
dois passos da cidade importante
a cidadezinha está calada, entrevada.
Atrás daquele morro, com vergonha do trem.
Só
as igrejas
só as torres pontudas das igrejas
não brincam de esconder.
O
Rio das Velhas lambe as casas velhas,
casas encardidas onde há velhas nas janelas.
Ruas em pé
pé-de-moleque
pensão de Joaninha Agulha
Quem não subir direito toma vaia...
Bem-feito!
Eu
fico cá embaixo
imaginando na ponte moderna – moderna por quê?
A água que corre
já viu o Borba.
Não a que corre,
mas a que não pára nunca de correr.
Ai
tempo!
Nem é bom pensar nessas coisas mortas, muito mortas.
Os séculos cheiram a mofo
e a história é cheia de teias de aranha.
Na água suja, barrenta, a canoa deixa um sulco logo apagado.
Quede os bandeirantes?
O Borba sumiu.
Dona Maria Pimenta morreu.
Mas
tudo é inexoravelmente colonial:
bancos janelas fechaduras lampiões.
O casario alastra-se na carcunda dos morros,
rebanho dócil pastoreado por Igrejas:
a do Carmo – que é toda de pedra,
a Matriz – que é toda de ouro.
Sabará veste com orgulho seus andrajos...
Faz muito bem, cidade teimosa!
Nem
Siderúrgica nem Central nem roda manhosa de forde
sacode a modorra de Sabará-buçu.
Pernas
morenas de lavadeiras,
tão musculosas que parece foi Aleijadinho que as esculpiu,
palpitam na água cansada.
O
presente vem de mansinho
de repente dá um salto:
cartaz de cinema com fita americana.
E
o trem bufando na ponte preta
é um bicho comendo as casas velhas.
[Carlos Drummond de Andrade]
Teimosa Sabará. O trem
e os benefícios trazidos com ele não trazem mais espanto, já fazem parte
da cidadezinha que ainda brinca de esconder. A cidade se esconde na
homogeneidade de texturas do casario que se alastra. Seu conjunto arquitetônico
inexoravelmente colonial sustenta essa teimosia.
Na parte mais elevada
da cidade, cercado por exemplares do mesmo tempo, o Museu do Ouro, a
antiga Casa de Intendência e Fundição do Ouro da Vila Real de Nossa
Senhora da Conceição de Sabará, participa ingênua e humildemente desse
rebanho pastoreado pelas Igrejas.
A proposta para o Anexo
do Museu do Ouro nasce da análise e da compreensão da conformação do
conjunto arquitetônico da cidade de Sabará. Análise de conceitos macro
como a maneira pela qual a cidade se faz ver, como se dá a vida desta
cidade, como se dá a relação direta e inconsciente com a história tão
presente... Na escala do micro, observar como são suas texturas, seus
materiais, seus volumes...
A nova edificação do
anexo materializa o presente que vem de mansinho, é o fruto das novas
demandas da contemporaneidade, desse tempo que não pára nunca de correr.
Por outro lado, mostra que a história não deve ser um sulco logo apagado
pela obsolescência... Mostra que é possível haver convivência harmônica
e pacífica entre as necessidades culturais de nossa época e a edificação
colonial.
O conceito
Assim como a cidade
descrita por Drummond, o anexo proposto para o Museu do Ouro também
brinca de se esconder. Ele é fundamentado nas características básicas
e primitivas de ser um abrigo adaptado à natureza.
É, assim, premissa
fundamental a manutenção da topografia natural do terreno, tirando partido
de suas inclinações. São criados percursos naturais de rampas, escadas
e são formados platôs onde se dão as atividades propostas. As árvores
frutíferas mantidas no terreno se tornam pontos de convergência, criando
ao seu redor diversas ambiências.
Com a escolha da vegetação
apropriada são dadas ambiência e integridade à proposta, adaptando e
conjugando a condição existente do Museu às novas funções que aí deverão
se desenvolver. O volume do anexo, assim, torna-se uma arquitetura silenciosa
e sutil que busca ser minimamente gestual resultando numa simplicidade
que se perde e se confunde na homogeneidade da vegetação.
O Museu do Ouro
– materiais
É através destas arquiteturas
remanescentes da nossa história que podemos refazer, de testemunho a
testemunho os itinerários percorridos em nossa caminhada. Não na busca
do tempo perdido, mas indo de encontro ao tempo que ficou vivo para
sempre entranhado nesses exemplos. O que os caracteriza é a carga de
saber que um dia se configurou e ali permaneceu para que nós pudéssemos
contemplar hoje. Como produto espontâneo das necessidades e conveniências
da economia e do meio físico e social em que se desenvolve, a arquitetura
colonial representa as qualidades e peculiaridades de nosso povo.
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Corte com vista frontal
do Anexo |
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O edifício do Museu
do Ouro é um testemunho arquitetônico de nosso passado autêntico, a
raiz do que somos e do que seremos. Em seu aspecto rude, mas acolhedor,
possui características próprias muito fortes. Características que se
fixam na memória e que o distingue do harmonioso conjunto.
É exatamente com este
foco que desenvolvemos nossa proposta. Buscamos criar a intimidade necessária
com a arquitetura do edifício do museu para que seja possível reconhecer
e pinçar estas peculiaridades locais e referenciá-las contemporaneamente
no projeto do anexo. Transformar estes fragmentos históricos simples
e despojados em valores. Afinal, segundo Benjamin: “em qualquer fragmento
há história”.
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| Corte com vista
frontal do Anexo |
Nossa proposta busca
inovação ao despertar o simples, primordial e ancestral: a técnica construtiva
e os materiais. A técnica utilizada para a construção da edificação
antiga do museu, adobe e pau-a-pique sobre baldrames de pedra, adquire
em nossa concepção uma importância cultural e legítima. Assim, em uma
leitura contemporânea desta técnica, nossa proposta para o anexo propõe
uso de paredes feitas em gabião, ou seja, pedra de mão estruturada por
grade metálica e perfis de aço. Além disso, outras referências são feitas
com uso de materiais como lajotas cerâmicas nos pisos e treliças de
madeira para fachadas, onde pode ser aplicada vegetação rasteira.
Buscamos nesse momento
uma total harmonia entre arte e ciência; uso de técnicas contemporâneas
com procedimentos que tenham características simples e primitivas através
do uso potencial dos materiais que forma um todo harmônico sem mimetizar
ou confundir.
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Corte |
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Pretendemos que haja,
ao contemplar a arquitetura do anexo um súbito reconhecimento da origem
das referências, autenticamente nacionais e já guardadas na memória,
que leva subitamente ao reconhecimento de sua identidade. Essa referência
busca não ser somente visual, mas também uma percepção tátil através
das texturas lidas a partir do edifício existente.
A arquitetura
A arquitetura para
o anexo busca dar, através de um discurso atual, uma resposta adequada
a questões da articulação de funções contemporâneas com as funções existentes
do objeto antigo. Torna-se uma arquitetura comprometida com o contexto,
com as necessidades e aspirações do tempo em que vivemos, usando sensibilidade
e técnica.
A intervenção reconhece
os aspectos potenciais na arquitetura preexistente e propõe participação
e diálogo com criação contemporânea. O preexistente é assim, protagonista
e a nova intervenção é protagonizada por ele. Antigo e novo, são assim,
conclamados a constituir um diálogo entre si.
Além disso, a proposta
para o anexo parte da situação atual de relação histórica e conceitual
entre Museu do Ouro e quintal, buscando, dessa maneira, “vivenciar”
o próprio quintal, e não simplesmente ser uma edificação no quintal.
Daí, conseqüentemente, a manutenção do caráter pitoresco do conjunto.
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| Corte |
A arquitetura para
o anexo do Museu do Ouro busca através da articulação dos espaços e
fechamentos em panos de vidro, criar transparências, potencializando
as perspectivas através dos ambientes. Busca diluir os limites, gerando
integração entre edifício e paisagem, esta representada pelo quintal
e sua vegetação. Este fato gera uma ambivalência entre interior e exterior,
com uma fluidez total dos espaços, criando imprevisibilidade e dinamismo.
O lugar é tornado assim, versátil e multifuncional.
A utilização da luz
juntamente com os materiais enriquece a experiência da fruição, através
da criação de novas sensações. O próprio gabião, usado estruturalmente
em algumas paredes, permite a passagem de feixes de luz, criando efeitos
e ambiências inusitadas.
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| Corte |
Também a aplicação
de treliça de madeira recoberta por vegetação nas fachadas e as coberturas
verdes buscam manter, no anexo, uma relação com a questão fundamental
e original do “quintal”, do ambiente verde com as espécies frutíferas
tendo todo o destaque.
A solução técnico-estrutural
proposta para o anexo é, como dito anteriormente, baseada em uso de
gabiões, funcionando assim como embasamento de baldrame e como contenção
de terra. As edificações superiores terão suas paredes em alvenaria
estrutural, facilitando a execução, evitando problemas com concretagens
e possibilitando uma melhor distribuição das cargas no terreno. Esta
distribuição permite a utilização de sapatas corridas, que pela sua
dimensão reduzida, podem ser desviadas das raízes das árvores. Todos
estes fatores geram uma maior economia e racionalização na construção,
sendo compatíveis com o valor disponível para tal.
O paisagismo
Buscamos um conceito
de se pensar a arquitetura da paisagem, que evoca raízes de antigas
tradições. Em sintonia com as atuais tecnologias, busca ênfase nos materiais
naturais e, por ser muito simples, esconde grande sutileza e complexidade,
por possuir grande carga simbólica.
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| Corte |
Vislumbramos as florestas
no passado dos assentamentos indígenas com sua técnica de abrir clareiras
estratégicas. Os primeiros movimentos de abordagem da terra descoberta
para o interior, a ocupação colonial, a presença dos bandeirantes, que
criou a necessidade de ampliar, muitas vezes destruindo a paisagem.
Com o olhar na simplicidade
das praças coloniais, seu calçamento, muros, pontos de reunião e encontro
da vida urbana é que direcionamos a proposta paisagística para o anexo,
localizado em um dos poucos quintais remanescentes da cidade. Todos
esses vocabulários, rituais que asseguram a identidade humana local.
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Planta
primeiro pavimento |
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Nessa tendência se
dá a concepção do novo Anexo: um grande quintal com a edificação que
busca se “esconder” nessa paisagem, ao contrário das grandes árvores
frutíferas existentes, que ganham destaque. Estes são percebidos dentro
de um único contexto, providenciando escala e referência ao conjunto.
O núcleo central está, assim, inspirado na paisagem natural, com a força
das linhas, cores e volumes das massas arbóreas originais. Acrescentamos
a isso, vegetação rasteira de forração e áreas pavimentadas em lajotas
de cerâmica, que traz também a cor natural do terreno. Em algumas partes,
propomos uso de blocos intertravados de concreto vazado com grama, permitindo
uma grande permeabilidade e não apresentando trincas pela movimentação
das raízes das árvores. As coberturas são de lajes leves volterranas,
com proteção em lona plástica, propiciando a colocação de placas de
grama. Este tipo de cobertura, é ótimo isolante térmico e acústico.
È assim, uma tentativa
em elaborar uma paisagem intensificando as características originais
do ambiente natural através de uma tarefa que envolve análise, sensibilidade,
conhecimento técnico e consciência ambiental.
O programa
As inclinações do terreno
e a manutenção das árvores frutíferas existentes criam espaços setorizados
para a ocupação das funções. A partir da entrada pela Rua da Intendência
tem-se acesso diretamente ao anfiteatro ou ao espaço de múltiplo uso.
Estes ambientes podem ser conjugados entre si, uma vez que a parede
de fundo da sala de múltiplo uso pode ser aberta e criar integração
entre estes dois espaços, possibilitando usos ao ar livre, em caso de
número maior de espectadores.
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Planta
térreo |
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Subindo pelo terreno,
se tem acesso às salas de reserva técnica e restauro, esta última possuindo
um grande plano de vidro que pode ser fechado, caso haja necessidade,
possibilitando que os visitantes possam observar o trabalho dos restauradores.
Aos fundos e ligado
com o pátio do museu, encontram-se o café e a loja. O café, totalmente
envidraçado e transparente, possibilita total integração com o ambiente
do quintal, podendo, inclusive, se necessário, se expandir e usar a
área externa, com colocação de mesas.
O afastamento de 1,50
das divisas gera uma circulação livre de serviços, de abastecimento,
carga e descarga da loja e café, acesso aos depósitos de material de
limpeza, além de acesso independente aos blocos de banheiros por parte
dos que freqüentam o anfiteatro.
Temos, dessa maneira,
a criação de módulos básicos e independentes, podendo ser construídos
em etapas: um módulo formado pela sala de múltiplo uso e sala de apoio,
um módulo formado pelo café e loja e seus apoios, um módulo de banheiros
e depósito e o último módulo formado pelas salas de restauro e reserva
técnica. Isso possibilita maior liberdade na construção deste anexo,
podendo os módulos definidos serem agregados na mesma etapa de obra.
A parte e também independente, encontra-se o anfiteatro ao ar livre.
Reiteramos ainda que,
estes espaços podem ser integrados às áreas externas do próprio Museu
do Ouro, podendo ter acesso controlado por portão no pátio frontal e
total integração no pátio aos fundos.
Há assim, reunião entre
passado, presente e futuro no espaço. Buscamos, nas palavras de Lúcio
Costa, “a construção de um lugar sublime e transcendente que se constrói
com o fluir único da vida, de cada momento, e não puramente um espaço
como envoltório de funções desprovido de vida".
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