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Lugar – Projeto: PR 1051 – São Paulo SP
Equipe: Euclides Oliveira, Carolina de Carvalho e Dante Furlan
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Vista aérea |
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Introdução
Aristóteles
definia a cidade como o ambiente natural da humanidade, a ser aperfeiçoada
continuamente para que nela o homem pudesse desenvolver plenamente sua
vocação social e política; evidentemente este conceito não se coaduna
bem com a nossa atual realidade urbana. Nas últimas décadas nossas cidades
vem sendo submetidas a pressões de toda a ordem, que variam do seu crescimento
descontrolado até a especulação imobiliária mais desenfreada e selvagem;
seus problemas vão da falta de recursos materiais e de infra-estrutura
ao uso indiscriminado de tipologias arquitetônicas completamente dissociadas
de nossa cultura. Em São Paulo, neste conflito entre comércio e cultura
próprio do neoliberalismo, o comércio vem levando a melhor; nossos bairros
estão infectados pela estética do falso e do kitsch, com nossas
ruas exibindo seus prédios como produtos à venda em uma prateleira de
supermercado.
Como
alternativa a este modelo vigente de cidade-mercadoria estamos propondo,
para nortear o desenho urbano do Bairro Novo, uma volta, ainda que na
mais modesta das medidas, aos princípios da cidade Aristotélica, ao
mesmo tempo integradora e aberta. Assim, enunciamos a seguir os fatores
que orientaram o projeto e que julgamos pertinentes para atingirmos
o objetivo proposto acima:
- A integração
do bairro com sua vizinhança tendo em vista, a existência de barreiras
físicas em suas divisas norte e sul (o rio Tietê e a via férrea da
CPMT).
- A conciliação
da circulação de veículos com outros usos tradicionais da via pública
como passagem de pedestres, local para passeios, encontros, bares
de calçadas, comércio, etc.
- A reintegração,
no espaço urbano, das funções habitação – circulação –
trabalho – lazer.
- A harmonização
dos diferentes espaços que compõem o bairro pela unidade de concepção
das massas arquitetônicas que os configurarão, sem prejuízo da diversidade
formal desejável.
- A articulação
e o equilíbrio entre os espaços públicos, semipúblicos e privados
de maneira a assegurarmos continuidade e animação para as “vidas”
diurna e noturna do Bairro.
- A organização
e dimensionamento, na escala do Bairro e da sua vizinhança, das áreas
verdes e dos equipamentos públicos.
- A adaptação dos
espaços coletivos ao nosso clima tropical, o que resultará em forte
identidade do núcleo urbano com o lugar.
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Acesso ao novo bairro. Avenida Francisco Matarazzo |
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Partido
adotado
Sistema
viário
Na
concepção do sistema viário do Bairro Novo optamos, em princípio, pelo
reticulado cartesiano (signo habitual de civilização, segundo Leonardo
Benevolo), que de resto é o sistema adotado na maioria dos bairros vizinhos,
orientando-o no sentindo norte-sul, direção do escoamento natural das
águas pluviais para a bacia do rio Tietê. Assim, , como células básicas
do conjunto, criamos grandes quarteirões de 318x 318m. delimitados por
vias principais de circulação com 25m. de caixa; estas “superquadras”
foram então subdivididas em quatro quadras menores por vias secundárias
que, por sua disposição em forma de catavento, geram uma praça no interior
de cada quarteirão. Esta malha abstrata ao ser sobreposta às vias públicas
existentes cria singularidades nas quadras a elas lindeiras, trazendo
o inesperado e o casual à rigidez do desenho geométrico.
Das
duas vias arteriais que cortam o sítio a Av. Pompéia é a que se constitui
no eixo principal de interligação do bairro e a cidade, ao sul, com
a margem norte do rio Tietê. Para materializar efetivamente esta continuidade
estamos propondo a demolição do viaduto existente sobre o leito da via
férrea e o rebaixamento desta última, invertendo-se, deste modo, as
cotas do cruzamento em desnível, o que facilitará bastante o acesso
de pedestres ao novo assentamento, além da possibilidade de novas e
extensas visuais sobre a várzea ao longo do rio. Tal solução, conjugada
com a adição de duas vias laterais para tráfego local, resultará em
um amplo “boulevard” entre a Av. Francisco Matarazzo e a
Av. Marquês de São Vicente e, mais adiante, a Av. Presidente Castelo
Branco. Arrematando a longa perspectiva assim formada desenhamos uma
praça junto a Av. Francisco Matarazzo e anexos a ela, atuando como “âncoras”
do Bairro Novo, um centro de feiras e convenções e um hotel. Tendo como
vizinhos o Centro Empresarial Matarazzo e o Centro Cultural do SESC
Pompéia, o novo conjunto, por atrair grande número de visitantes, contribuirá
em muito para a integração do bairro com sua região.
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Generosos pontos de encontro nas esquinas |
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Entretanto
é preciso salientar que, acima de tudo, projetamos um sistema viário
que procura harmonizar a coexistência entre pedestres e automóveis sem
apartá-los em demasia; assim, nas ruas principais a calçada será complementada
por galerias cobertas sob os prédios a ela lindeiros; as esquinas, configuradas
como espaços urbanos generosos, (á maneira dos “largos”
de antigamente), propiciam pontos de encontro agradáveis e locais convenientes
para o abrigo de bancas de jornal, telefones públicos, do carrinho de
pipoca, do sorveteiro, etc.; o estacionamento de automóveis será permitido
ao longo de todas as vias do bairro, sendo conceituado como barreira
de proteção necessária entre veículos e pedestres (sobretudo crianças
e idosos). As faixas do leito carroçável a eles destinadas deverão ser
pavimentadas com paralelepípedos, assinalando sua função específica
e permitindo a absorção das águas pluviais junto aos meios-fios; este
tipo de pavimento se estenderá à totalidade das vias secundárias no
interior dos quarteirões, limitando naturalmente a velocidade do trânsito
e contribuindo para melhorar a permeabilidade do solo. As duas vias
arteriais que cruzam o bairro também foram conceituadas como avenidas
urbanas e deverão contar com faróis para a travessia de pedestres, faixas
de estacionamento de veículos, arborização adequada, etc. Sob as duas
praças que projetamos ladeando a Av. Marques de São Vicente deverão
ser construídas garagens públicas, pois elas se constituem em centro
de bairro, com previsível maior fluxo de automóveis.
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Praça no centro do bairro |
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Finalizando,
lembramos que, contando a região com variadas linhas e meios de transporte
coletivo, o acesso seguro e agradável do pedestre aos pontos de embarque
reveste-se de especial importância para que este se decida a deixar
o carro na garagem.
Parcelamento
e uso do solo
Habitação,
comércio e serviços
De
uma maneira geral as quadras foram divididas em lotes regulares de 1250
m² e 2.500m² (nas esquinas); este parcelamento do solo em áreas relativamente
pequenas tem como objetivo ampliar o número de construtoras e incorporadoras
capazes de realizarem projetos imobiliários no bairro.
Quanto
ao uso, os lotes com acesso pelas vias principais serão destinados à
habitação e comércio (uso misto) enquanto que os voltados para os interiores
dos quarteirões terão uso exclusivamente residencial; os lotes de esquina
de uso misto serão “coringas” podendo, caso haja conveniência
para o bairro, serem utilizados exclusivamente para serviços (escritórios,
consultórios, hospedagem, etc). Os lotes destinados à habitação social
foram distribuídos uniformemente entre os de uso misto evitando-se assim
a discriminação espacial dos seus residentes.
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Diversidade urbana e pluralidade arquitetônica |
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Além do conjunto
de feiras e exposições e do hotel já mencionados anteriormente, destinamos
para uso exclusivamente comercial e de serviços os dois lotes anexos
às praças no centro do bairro, os terrenos situados entre a rua C e
a Av. Gustavo W. Borghoff (que comportarão edificações de maior porte
tais como supermercados, oficinas mecânicas, comércio atacadista, etc)
e a área lindeira a Av. Presidente Castelo Branco, hoje ocupada pelos
lotes 124, 125, 136, 143 e 144(n° de contribuinte).
Quanto
a esta última, apesar da solicitação do termo de Referência do concurso
para que permaneça no plano urbanístico o atual parcelamento do solo,
pensamos que realmente ela deve ser remanejada fisicamente (mantendo-se
o uso atual), pois sua irregularidade entra em conflito com a organização
fundiária do bairro justamente em seu ponto de contanto com as marginais
do Tietê, impedindo a leitura visual correta do sítio urbano pelos passantes.
No entanto, estamos apresentando também uma alternativa (inferior) que
prevê a desapropriação apenas do lote 136 e a manutenção dos restantes.
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Galerias
cobertas |
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Uso
institucional
Para
este uso reservamos duas áreas junto a rótula no cruzamento das Avenidas
Pompéia e Marquês de S. Vicente (local este de grande visibilidade pública
e vizinho ao parque a ser implantado no bairro) e duas outras lindeiras
à Av. Gustavo W. Borghoff no trecho em que a ferrovia se encontra semi-enterrada.
Os edifícios deste setor indicados no projeto (ambulatório, creche,
centro esportivo, escolas pública e particular, mediateca) são apenas
sugestões nossas, cabendo a PMSP a decisão definitiva sobre a ocupação
destes lotes.
Uso
Especial
A
gleba do Clube Nacional foi remanejada de maneira a integrar-se ao novo
desenho urbano, ficando com cerca de 36.000m² de área disponível e comportando
bem um campo de futebol oficial. Outra área destinada a esportes foi
prevista entre a ferrovia da CPTM e a Av. Santa Marina para substituir
os centros de treinamento do Palmeiras e do São Paulo hoje existente
no local.
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Ampliação
das quadras XXVI a XXXII |
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Áreas
verdes
- Praças internas:
as praças no interior das “superquadras” deverão receber,
além da arborização e do ajardinamento, equipamentos para lazer infantil
e da terceira idade tais como “playground”, ciclovia (circular),
recantos com mesa e bancos para jogos, etc.
- Centro do Bairro:
as praças do centro do bairro terão caráter gregário, servindo como
ponto de encontro, local para pequenas feiras da arte e artesanato,
manifestações cívicas etc.; deverão receber pavimentação adequada
e ter seu perímetro arborizado.
- Centro de feiras
e convenções: as praças anexas a este conjunto deverão compor, com
o “boulevard” criado a partir da Av. Pompéia, um “continuum”
espacial e paisagístico unindo o Bairro Novo com a vizinhança, ao
sul, e com as marginais do Tietê, ao norte.
- Quadras: os
interiores das quadras contarão com uma área “non edificandi”
de 15m. de largura para promover a permeabilidade do solo e o plantio
de árvores nos fundos dos lotes.
- Parque: junto
ao trevo da ponte Dr. Julio de Mesquita Neto previmos a implantação
de um parque urbano que contará com arborização formada de bosquetes
alternados com grupos de palmeiras e sub-bosques gramados ou relvados.
A este plantio, destinado ao lazer passivo, acrescentamos caminhos
de saibro próprios para o “cooper” e um pequeno lago.
Potencial
construtivo e edificações
Como
dissemos anteriormente, em nosso plano caberá as massas arquitetônicas
harmonizar os espaços urbanos do novo bairro; a tipologia dos edifícios
baseia-se na tradição construtiva de nossas cidades na primeira metade
do século XX, (de feitio mais europeu do que norte-americano); prédios
construídos no alinhamento das ruas (estabelecendo com elas forte ligação
espacial e simbólica), sem afastamentos laterais e com grandes recuos
de fundo que, somados, constituíam vastos espaços no interior dos quarteirões.
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Exemplo de planta da quadra tipo |
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Assim,
dentro destes parâmetros, determinamos para cada lote uma projeção edificável
equivalente a 50% da área do terreno a ser obrigatoriamente ocupada
em seus limites e um gabarito de seis pavimentos mais o térreo (a altura
máxima, segundo mestre Lucio Costa, para que um mãe possa chamar seu
filho pela janela) o que, resultará em uma dominância horizontal tranqüila
e adequada a um bairro residencial. O pavimento térreo dos edifícios
de uso exclusivamente habitacional será em pilotis enquanto que os dos
de uso misto serão destinados a lojas (e ao hall dos apartamentos, naturalmente),
sendo obrigatório, no caso, a incorporação de uma galeria coberta (de
pé direito duplo), espaço este tão útil em nosso clima entre o tropical
e o temperado, sujeito a chuvas, trovoadas, garoa, sol ardente, etc.
Um pavimento de cobertura ocupando 40% da área da projeção edificável
será permitido em ambos, os tipos de edificações, necessariamente destinado
à habitação.
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Exemplo de elevação da quadra tipo |
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Dentro
destas normas e obedecido o código de obras da PMSP, os projetos arquitetônicos
serão individuais para cada lote; esperamos assim (contando com a criatividade
dos colegas) obter a variedade formal típica de uma cidade aberta (o
remembramento dos lotes também será permitido).
Em
nosso plano, os prédios de habitação popular obedecerão ao gabarito
de térreo +6 e serão distribuídos de maneira uniforme entre as demais
edificações visando a inclusão social dos seus moradores; o custo de
um elevador poderá ser diluído na comercialização das lojas do térreo.
Em
resumo, assim estruturados, os edifícios residenciais e mistos terão
como coeficiente de aproveitamento máximo os valores de 3,2 e 3.24 respectivamente;
o coeficiente real, evidentemente dependerá do projeto arquitetônico
específico devido aos vazios internos de iluminação e ventilação eventualmente
necessários.
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Planta de massas da área foco |
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Os
edifícios para os lotes comerciais e de serviço bem como os das áreas
institucionais também serão objeto de projetos específicos, que obedecerão
naturalmente, às projeções edificáveis e os coeficientes de aproveitamento
fixados no plano urbanístico.
Ficha
técnica
Autores
Arquitetos Euclides Oliveira, Dante Furlan e Carolina de Carvalho
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