| Igreja
Matriz – Pólo de Artesanato – Largo da Matriz, Pirenópolis
GO
Daniel de Castro Lacerda, Filipe Berutti Monte Serrat
e Iara Moderozo dos Santos / Brasília DF]
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Igreja
durante o incêndio |
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Não
se sabe ao certo quando iniciou a construção da monumental Igreja
Matriz de Nossa Senhora do Rosário de Pirenópolis, outrora Arraial
de Meia Ponte. O primeiro documento que se tem notícias sobre
esta igreja trata-se de um registro de batismo, de 2 de março
de 1732, onde consta "nesta Igreja de N. Sr. do Rosário das
Minas de Meia Ponte". Esta igreja, considerada como o maior
monumento colonial do estado de Goiás, não foi edificada de uma
só vez, mas sim em partes. Acredita-se que primeiro construiu-se
a capela-mor com a sacristia e o consistório lateral, a nave central,
o coro, o batistério e o campanário, porém sem as torres. A técnica
utilizada para a construção inicial desta igreja é conhecida como
"taipa de pilão" sustentada por uma armação de esteios
de madeira (aroeira) tipo "gaiola".
Esta
construção utiliza em suas paredes uma argamassa feita de terra,
cascalho, esterco de gado e fibras vegetais que, misturados e
socados com pilão em fôrmas de tábuas, que amarradas umas às outras
formavam o taipal, subiam moldando as paredes entre as armações
de aroeira da "gaiola". A espessa parede da nave central
mede em média um metro e oitenta centímetros de espessura e chega
a ter dez metros de altura. Os alicerces, feitos com grandes pedaços
de rocha quartziticas, oriundas da região, tem profundidades que
variam de três a cinco metros e com largura que chega até dois
metros e dez centímetros. O singular madeiramento do telhado é
composto por várias tesouras, peças de madeira em forma de triângulo,
muito próximas umas das outras, dispensando a longa e resistente
peça chamada de cumeeira, tal e qual um casco de navio. Este telhado
suporta telhas de barro, conhecidas como "telhas de coxa"
ou "telhas-coxas", por terem o formato de coxa humana.
Acredita-se
que estas telhas foram moldadas em coxas de escravos, o que é
improvável devido às dimensões de algumas delas que chegam a ter
quase um metro de comprimento.
Igreja
mais antiga do estado de Goiás
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Igreja
Matriz logo após restauro em 1999 |
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O
teto da capela foi pintado por artistas pirenopolinos.Tombada
pelo Patrimônio Histórico desde 1941, foi restaurada em 1999,
quando as pinturas foram recuperadas.
Símbolo
do apogeu do ciclo do ouro e a paróquia mais antiga de Goiás,
a igreja Nossa Senhora do Rosário, em Pirenópolis, foi destruída
após um incêndio, em 5 de setembro de 2002.
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Igreja
após o incêndio |
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Intenções
de projeto
A
igreja Matriz deve ser tratada como um monumento, já que foi concebida
com esse intuito. Após o incêndio, ela adquire cunho de monumento
histórico.
Esse
projeto parte do princípio de que a Igreja Matriz representa um
ícone para a cidade de Pirenópolis. Com o seu incêndio, questões
como a auto-estima da cidade e de seus habitantes foram levantadas
e, a partir dessas questões, nossa intenção de projeto parte da
vontade de devolver a edificação para a comunidade.
Partimos
dessa vontade e do conceito de que intervenção deve trazer sentimento
de nacionalismo para a população através da recuperação do patrimônio
e, ao mesmo tempo, tem um valor de contemporaneidade, pois cria
algo novo a partir do monumento acidentado.
Dessa
forma, nossa intervenção no edifício em questão prevê uma mudança
do seu uso. Além de seu espaço interno ter sido totalmente destruído,
ele já não comportava a quantidade de fiéis da paróquia. Sendo
assim, propomos uma nova igreja, no mesmo terreno, com uma capacidade
maior.
Para
o espaço da antiga Igreja Matriz, propomos um pólo de desenvolvimento
de artesanato. A opção por um local onde se desenvolve o artesanato
surgiu devido à observação dos costumes da população, onde se
percebeu um interesse por essa área artística, que poderia então
ser aproveitada para dar um novo uso ao monumento, e atender a
uma demanda da comunidade, e promover essa integração que favorece
ambas as partes. No caso da edificação, a partir desse novo uso,
o monumento se integra no cotidiano da comunidade local e deixa
de desenvolver dependência da atividade turística.
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Plantas:
Pólo de Artesanato |
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Nossa
intervenção não se limita ao monumento em si, ela possui colocação
em termos urbanos, caracterizando-se por uma intervenção no próprio
patrimônio urbano. Traçamos um Quadrilátero, que une quatro pontos
de relevância para a cidade: o largo da Matriz, o cinema, o teatro,
e nessa intervenção surge uma quarta função que é o pólo de artesanato.
Agindo dessa forma pretendemos abranger uma esfera mais global
e valorizar o tecido urbano, enriquecendo o entorno e dando melhores
condições para o monumento, em comparação ao que acontece quando
o monumento é preservado isoladamente.
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Situação
atual do Largo da Matriz
1. Igreja Matriz 2. Casa Paroquial 3. Salão Paroquial 4. Largo
da Matriz 5. Correios 6. Teatro 7. Cinema |
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Para
a viabilização do quadrilátero cultural partimos de duas ações:
a primeira foi a liberação total do largo da matriz. Retiramos
o correio, e fizemos uma nova proposta para o salão paroquial
e a casa do padre no subsolo do conjunto; abrindo as visuais de
chegada para o monumento.
O
segundo ponto seriam os eixos ordenadores da composição, agindo
sobre a integração física e social.
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Proposta
de integração do Largo da Matriz_ Quadrilátero
Cultural
1. Igreja Matriz 2. Largo da Matriz 3. Theatro 4. Cinema |
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Atitude
de projeto
Liberação
total do largo da matriz para restabelecer as visuais da igreja
que estavam comprometidas e retomar um espaço por natureza da
comunidade, pois as cavalhadas aconteciam lá. Ouve questionamento
sobre os usos atuais que ocorrem no largo, lanchonetes principalmente,
foi feita uma observação do local. Esses equipamentos foram deslocados
para o interior da praça, local que estava sub utilizado no contexto
anterior, onde nós prevemos uma revitalização através da presença
desses equipamentos no local. Esses quiosques são de natureza
efêmera e flexível.
Na
liberação deve-se analisar o que está sendo liberado, pois as
funções que naturalmente vão se agregando ao edifício, e que muitas
vezes são objeto de liberação, não se desenvolvem por acaso. Elas
acontecem porque há demanda, e quem se propõe a interferir num
espaço deve respeitar essas demanda.
No
caso do salão paroquial, nosso objetivo era não prejudicar o funcionamento
das atividades da paróquia, mas remover a edificação que quebrava
a unidade entre a igreja e o largo, impedindo as visuais. Para
tanto, cria-se um novo espaço para atender a demanda e às intenções
de projeto levantadas após o estudo do caso.
No
caso do prédio dos correios: propõe-se a relocação desse equipamento
num local mais adequado para essa função, fora do terreno da igreja.
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Largo
da Matriz: Proposta |
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Após
a liberação do largo da igreja, passamos ao desenvolvimento do
estudo sobre consolidação para optar pela melhor forma de preservar
as paredes de adobe da edificação: entram alguns estudos mais
científicos em relação a intervenção. Foi feita uma diferenciação
de tratamento novo e antigo, inclusive no partido adotado nas
novas edificações, que foram definidos pelo respeito ao patrimônio
(competição) e outra, adequar ao máximo as funções que serão desenvolvidas
ali. Tudo isso com linguagem e tecnologia contemporâneas. Pela
situação atual do monumento, ele já deve ser considerado como
um instrumento didático, pois demonstra como as técnicas construtivas,
são desenvolvidas. Preservar esse estado é preservar o conhecimento
da técnica construtiva.
Intervenção
no próprio monumento: partimos do restauro clássico das fachadas
externas e a consolidação do que restou das mesmas internamente.
Diferença
de textura: mesmo no restauro clássico assumimos que os novos
materiais devem ser perceptíveis, através do uso de madeira, aço,
vidro.
Supressão
da ornamentação, linguagem de projeto.
Criação
de um espaço de memória com peças originais do edifício antes
do incidente. Onde estaria inserida a memória descritiva dessa
intervenção.
Aspectos
tecnológicos
Por
se tratar de um trabalho dentro de um patrimônio histórico, os
aspectos tecnológicos foram divididos em dois tópicos para melhor
exemplificação:
A
utilização dos materiais e imateriais a riqueza de texturas e
cores nas ruas de Pirenópolis é algo que deve ser levado em conta
na hora da escolha dos materiais a serem utilizados na intervenção.
Da mesma maneira que esta variedade pode auxiliar na escolha,
deve-se tomar o cuidado na hora da aplicação de alguns materiais
para não causar uma poluição de texturas.
No
caso dos materiais utilizados, tivemos o cuidado de utilizar os
que refletem a realidade do lugar e que podem talvez preservar
ou inovar técnicas locais.
Na
área do Largo há o predomínio de texturas mais lisas e contínuas,
relacionando-se com os grandes espaços verdes que tendem a valorizar
o volume da antiga Matriz. A nova igreja, semi-enterrada, apresenta
estrutura em concreto armado e vigas metálicas. Seu interior apresenta
paredes inclinadas e com reentrâncias criando nichos e jogos de
sombra e luz que acabam configurando pequenas capelas laterais.
Estes pontos de reentrâncias abrigam sheeds de iluminação natural
criando um feixe de luz no roda pé da igreja. Estes sheeds são
fechados com placas de vidro laminado, que acabam constituindo
parte do piso da praça. À noite feixes de luz saem dos sheeds
criando uma arquitetura imaterial que ambienta uma cenografia
para a monumentalidade da Matriz.
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Cortes
da nova igreja proposta |
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Foi
pensado em uma conexão forte entre a antiga Matriz e a nova igreja.
Esta conexão é dada pelo próprio partido adotado no projeto que
cria um eixo continuo edificado formado pelos edifícios. Um grande
cubo de vidro rotacionado cria uma ligação física e bem marcada
dentro da nova igreja, que tem como altar a sua antiga identidade,
e a mantém viva em seu interior.
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Corte
longitudinal do Largo |
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O
cubo de vidro rotacionado revela o novo edifício inserido num
ponto privilegiado da cidade e ao mesmo tempo confere, através
de sua transparência, o respeito, a monumentalidade e importância
do espaço.
O
antigo edifício da Matriz é trabalhado em seu exterior da mesma
forma e com a mesma relevância de seu partido original, mantendo-se
as formas puras e rígidas e a textura que indica a humanidade
do projeto e sua execução.
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Nova
estrutura independente: principio da reversibilidade |
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Em
seu interior a rugosidade é mantida pelas paredes de taipa e tijolos
de adobe que revelam momentos de seu sistema construtivo e atualmente
apresentam trechos da calamidade que a consumiu criando um novo
material: um barro cozido, mais rígido e resistente.
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Visualização
da estrutura interna proposta para o volume da Matriz |
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Placas
de vidro para proteção foram fixadas em uma estrutura metálica
(caracterizando contrastes com os materiais originais da obra)
independente da igreja que sustentam a nova cobertura estruturada
com vigas de madeira.
Técnicas
e sistemas construtivos
A
intenção de caracterizar uma unidade entre os edifícios levou
a sistemas construtivos e estruturais semelhantes em seus interiores.
Vigas metálicas e coberturas estruturadas espacialmente, formando
tramas e amarrações caracterizam ambos. Na antiga Matriz as vedações
e paredes danificadas seriam restauradas com taipa de argamassa
e tijolos de adobe, esta técnica foi desenvolvida também nas edificações
semi-enterradas que compõem a paróquia. Nestas, a estrutura foi
proposta em aço e as vedações em tijolos de adobe, material tradicional
em Pirenópolis.
Esse
jogo de treliças, tesouras espaciais e técnicas tradicionais demonstram-nos
que o antigo e o contemporâneo podem dialogar e resultar em objetos
interessantes e harmoniosos.
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Perspectivas
da proposta |
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Ficha
técnica
Projeto
Igreja Matriz – Polo de Artesanato – Largo da Matriz, Pirenópolis
– Goiás
Inscrição
S DF 1001
Autores
Daniel de Castro Lacerda, Filipe Berutti Monte Serrat, Iara Moderozo
dos Santos / Quitanda
Arquitetura, Brasília DF.
Orientador
Andrey Schlee |