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Premiação IAB-SP 2004
São Paulo, 09 de dezembro de 2004

Prêmio Especial
Adriano Carnevale Domingues – Abrigo/Manifesto para Moradores de Rua

Abrigo/Manifesto para Moradores de Rua

 

Sai da tua infância, amigo, desperta !
Jean-Jacques Rousseau

“A justiça social não é um princípio de massa, mas sim, de indivíduos. Mesmo que a massa se satisfaça com seu estado, há sempre um indivíduo que sofre. Poderia haver justiça humana nisso? Se respondermos que sim, justificaríamos a opressão... Para construir uma sociedade justa é preciso que essas pessoas exiladas, recebam primeiramente justiça. Chama a esta pessoa, o habitante. Chama a esta pessoa de você, você mesmo”
Lebbeus Woods, Anarquitetura: a arquitetura é uma ação política

Final do ano de 2004, os automóveis ainda continuam sobre a terra, o tempo ultrapassa a sua relação com o espaço, transformando a imagin(ação) em virtualidade. A pobreza aumenta e a grande maioria vive mal, dos ricos aos pobres, das casas às cidades; nós arquitetos estaremos fadados, ao total desprezo e mal entendimento por parte de quem nos contrata, enquanto ficarmos pensando na massa como constituição social, incentivando à cópia, à inutilidade, à repetição de estilos globais e fotogênicos, esquivando-nos das resoluções e questionamentos pontuais.

  Abrigo/Manifesto para Moradores de Rua
     

Estamos deixando apagar os rastros deixados pelos grandes arquitetos, devemos abrir as portas de nossas reuniões profissionais, devemos por nas ruas as nossas percepções, para que a sociedade civil entenda e veja pelos nossos olhos.

Talvez a arquitetura não seja realmente importante, como diz o Arq. Oscar Niemeyer, e que o importante é mudar este mundo injusto; mas utilizaremos então a arquitetura como uma de nossas ferramentas , já que está na ação, intenção e invenção a diferença que nos qualifica.

  Abrigo/Manifesto para Moradores de Rua
     

O Abrigo / Manifesto foi criado para, primeiramente, proteger seres humanos que se encontrem em lugares diversos e depois alterar a percepção daqueles que passam e não enxergam nada além de seus celulares.

Este abrigo é constituído de duas bases de ripas de madeira dispostas paralelamente com distância de aproximadamente 1,00 metro (variável de acordo com a necessidade) por onde saem fios de arame trançados dois a dois revestidos por mangueiras de borracha, permitindo mobilidade e maleabilidade.

  Abrigo/Manifesto para Moradores de Rua
     

Este conjunto de mangueira / arames estrutural possui três comprimentos distintos, criando três camadas para afixar materiais de cobertura. Nas duas camadas mais altas estão duas placas compostas de alumínio para o lado externo, refletindo o calor , e juta resinada para o lado interno, criando uma fibra de maior resistência para o material. Estas placas ficarão uma em cima da outra com vão livre para circulação de ar e poderão deslizar sobre as mangueiras/arames estruturais a fim de um melhor isolamento térmico. Abaixo destas placas, seguido por mais um espaço para circulação de ar, uma cobertura impermeável de PVC com fibra de nylon envolve o morador tanto por cima quanto o isola do chão úmido.

  Abrigo/Manifesto para Moradores de Rua
     

As extremidades maleáveis pelo arame e mangueira possibilitam o aumento da área interna do abrigo.

Erguendo uma das bases de madeira, o abrigo até então em forma de arco, se transforma em uma letra “C“, permitindo que o morador coloque seus pertences dentro da cobertura de PVC que o envolvia. Seguindo a transformação, o morador continua enrolando o conjunto, agora em forma de caracol; amarrando-o.

Abrigo/Manifesto para Moradores de Rua

 

Duas pequenas rodas localizadas na outra base de madeira, possibilitam sua locomoção.

A forma não deriva da função, pois esta já está caracterizada por si só, mas sim pela fragmentação e movimentação de suas partes em busca da ação desejada.

  Abrigo/Manifesto para Moradores de Rua
     

Vamos encarar a urgência de tomarmos à frente daqueles que degradam nossa profissão.

Vamos levá-la a sério.


Post scriptum – Nota de falecimento de uma ação
Arq. Adriano Carnevale Domingues

  Abrigo/Manifesto para Moradores de Rua destruído e jogado na caçamba
     

16 de Dezembro de 2004, a "democracia" cada vez mais fortalecida em uma sociedade que se vangloria a cada eleição como seu único grande ato cívico.

Grande "democracia", onde um mendigo se confunde com seus pertences embalados em sacos plásticos, desumanamente invisível, o que para a sociedade é bom, pois não precisa enxergar a decadência de seu poder.

Fazia um mês que um abrigo foi dado à um mendigo que já residia em uma praça paulistana; este abrigo foi merecedor de uma deferência e prêmio especiais na premiação anual de 2004 do Instituto de Arquitetos do Brasil/SP, uma ação humanitária e profissional que visava discutir a ação arquitetônica e sua importância social.

Acontece que na data de hoje, este abrigo foi arrancado deste mendigo, jogado todo retorcido, a poucos metros dali, próximo à guia da calçada, invadindo a rua onde foi abandonado.

Este ato de "autoridade democrática", segundo testemunhas, foi de autoria de fiscais da prefeitura do município. Prefeitura e sociedade estas que aprovam e compram construções especulativas, onde os espaços encolhem de forma inversamente proporcional ao número de ornamentos de suas fachadas, sem que tomem atitudes extremas como acima citada.

Parabéns ! Continuaremos calados até a próxima eleição ou ordem social.

 
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  Data da notícia: 22/12/2004 – Fonte: Arquiteto premiado / São Paulo SP Brasil