Prêmio
Especial
Adriano Carnevale Domingues – Abrigo/Manifesto para Moradores
de Rua
 |
Abrigo/Manifesto
para Moradores de Rua |
| |
Sai
da tua infância, amigo, desperta !
Jean-Jacques Rousseau
“A
justiça social não é um princípio de massa, mas sim, de indivíduos.
Mesmo que a massa se satisfaça com seu estado, há sempre um indivíduo
que sofre. Poderia haver justiça humana nisso? Se respondermos
que sim, justificaríamos a opressão... Para construir uma sociedade
justa é preciso que essas pessoas exiladas, recebam primeiramente
justiça. Chama a esta pessoa, o habitante. Chama a esta pessoa
de você, você mesmo”
Lebbeus Woods, Anarquitetura: a arquitetura é uma ação
política
Final
do ano de 2004, os automóveis ainda continuam sobre a terra, o
tempo ultrapassa a sua relação com o espaço, transformando a imagin(ação)
em virtualidade. A pobreza aumenta e a grande maioria vive mal,
dos ricos aos pobres, das casas às cidades; nós arquitetos estaremos
fadados, ao total desprezo e mal entendimento por parte de quem
nos contrata, enquanto ficarmos pensando na massa como constituição
social, incentivando à cópia, à inutilidade, à repetição de estilos
globais e fotogênicos, esquivando-nos das resoluções e questionamentos
pontuais.
 |
|
Abrigo/Manifesto
para Moradores de Rua |
| |
|
|
Estamos
deixando apagar os rastros deixados pelos grandes arquitetos,
devemos abrir as portas de nossas reuniões profissionais, devemos
por nas ruas as nossas percepções, para que a sociedade civil
entenda e veja pelos nossos olhos.
Talvez
a arquitetura não seja realmente importante, como diz o Arq. Oscar
Niemeyer, e que o importante é mudar este mundo injusto; mas utilizaremos
então a arquitetura como uma de nossas ferramentas , já que está
na ação, intenção e invenção a diferença que nos qualifica.
 |
|
Abrigo/Manifesto
para Moradores de Rua |
| |
|
|
O
Abrigo / Manifesto foi criado para, primeiramente, proteger seres
humanos que se encontrem em lugares diversos e depois alterar
a percepção daqueles que passam e não enxergam nada além de seus
celulares.
Este
abrigo é constituído de duas bases de ripas de madeira dispostas
paralelamente com distância de aproximadamente 1,00 metro (variável
de acordo com a necessidade) por onde saem fios de arame trançados
dois a dois revestidos por mangueiras de borracha, permitindo
mobilidade e maleabilidade.
 |
|
Abrigo/Manifesto
para Moradores de Rua |
| |
|
|
Este
conjunto de mangueira / arames estrutural possui três comprimentos
distintos, criando três camadas para afixar materiais de cobertura.
Nas duas camadas mais altas estão duas placas compostas de alumínio
para o lado externo, refletindo o calor , e juta resinada para
o lado interno, criando uma fibra de maior resistência para o
material. Estas placas ficarão uma em cima da outra com vão livre
para circulação de ar e poderão deslizar sobre as mangueiras/arames
estruturais a fim de um melhor isolamento térmico. Abaixo destas
placas, seguido por mais um espaço para circulação de ar, uma
cobertura impermeável de PVC com fibra de nylon envolve o morador
tanto por cima quanto o isola do chão úmido.
 |
|
Abrigo/Manifesto
para Moradores de Rua |
| |
|
|
As
extremidades maleáveis pelo arame e mangueira possibilitam o aumento
da área interna do abrigo.
Erguendo
uma das bases de madeira, o abrigo até então em forma de arco,
se transforma em uma letra “C“, permitindo que o morador coloque
seus pertences dentro da cobertura de PVC que o envolvia. Seguindo
a transformação, o morador continua enrolando o conjunto, agora
em forma de caracol; amarrando-o.
 |
Abrigo/Manifesto
para Moradores de Rua |
| |
Duas
pequenas rodas localizadas na outra base de madeira, possibilitam
sua locomoção.
A
forma não deriva da função, pois esta já está caracterizada por
si só, mas sim pela fragmentação e movimentação de suas partes
em busca da ação desejada.
 |
|
Abrigo/Manifesto
para Moradores de Rua |
| |
|
|
Vamos
encarar a urgência de tomarmos à frente daqueles que degradam
nossa profissão.
Vamos
levá-la a sério.
Post
scriptum – Nota de falecimento de uma ação
Arq.
Adriano Carnevale Domingues
 |
|
Abrigo/Manifesto
para Moradores de Rua destruído e jogado na caçamba |
| |
|
|
16
de Dezembro de 2004, a "democracia" cada vez mais fortalecida
em uma sociedade que se vangloria a cada eleição como seu único
grande ato cívico.
Grande
"democracia", onde um mendigo se confunde com seus pertences
embalados em sacos plásticos, desumanamente invisível, o que para
a sociedade é bom, pois não precisa enxergar a decadência de seu
poder.
Fazia
um mês que um abrigo foi dado à um mendigo que já residia em uma
praça paulistana; este abrigo foi merecedor de uma deferência
e prêmio especiais na premiação anual de 2004 do Instituto de
Arquitetos do Brasil/SP, uma ação humanitária e profissional que
visava discutir a ação arquitetônica e sua importância social.
Acontece
que na data de hoje, este abrigo foi arrancado deste mendigo,
jogado todo retorcido, a poucos metros dali, próximo à guia da
calçada, invadindo a rua onde foi abandonado.
Este
ato de "autoridade democrática", segundo testemunhas,
foi de autoria de fiscais da prefeitura do município. Prefeitura
e sociedade estas que aprovam e compram construções especulativas,
onde os espaços encolhem de forma inversamente proporcional ao
número de ornamentos de suas fachadas, sem que tomem atitudes
extremas como acima citada.
Parabéns
! Continuaremos calados até a próxima eleição ou ordem social. |