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Pichação virou arte?

04/04/2012

Pichação virou arte?

Marcelo Maffessoni

Caxias do Sul RS Brasil

Bom dia.

Sempre entendi o Vitruvius como uma espécie de virtuose dos assuntos ligados à arquitetura e arte, sendo leitura certa a quem quer se manter atualizado neste meio.

Sem querer parecer o 'eco-chato' de plantão, preciso dar minha impressão sobre a matéria do editor Abilio Guerra sobre o Cripta Djan Ivson, pichador paulista (LASSALA, Gustavo; GUERRA, Abilio. Cripta Djan Ivson, profissão pichador Pixar é crime num país onde roubar é arte”. Entrevista, São Paulo, 11.049.04, Vitruvius, mar. 2012 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/11.049/4281>).

Sei que a arte se traveste de diversos meios, e surge até de onde menos se espera, porém dar ênfase ou exposição com esse ar de valorização que percebi na matéria a um tema criminoso é circular por terreno pantanoso.

Não gostaria de ferir preferências ou gostos daqueles mais liberais com minha opinião, mas acredito que uma grande parte dos leitores seus sentiram um frio na barriga com a matéria.

A pichação é um crime, e quem realmente gosta de arquitetura não se sente bem ao ver nossos monumentos, edifícios e símbolos arquitetônicos encobertos por mantos de pretensa apropriação de malandros, além da evidente feiúra que resulta desse 'trabalho'.

Vamos separar, para o bom entendimento, pichação de grafite. O grafite não é – em grande parte – deplorável. É, inclusive, consentido na maioria das vezes. Até valoriza cenas urbanas eventualmente apáticas.

Pichação não tem apelo estético, é agressiva e autoritária. Não tem a minha aprovação, absolutamente.

Se a intenção da matéria foi suscitar polêmica, provavelmente ela o conseguiu. Ao menos a manifestação deste seu leitor assíduo ela obteve. Pena que negativa.

Um abraço

resposta do editor

Prezado Sr. Marcelo Maffessoni, como nos demonstra de forma cabal a história da cultura, quem determina o que é e o que não é arte é a sociedade, não um indivíduo ou um grupo social específico. Por outro lado, as leis se transformam após pressões sociais e, em geral, demoram a se ajustar às novas práticas e às novas modalidades de convivência (creio que um bom exemplo para a afirmação é o entendimento do Supremo Tribunal Federal sobre a união estável de pessoas do mesmo sexo, que se conflito com a atual lei brasileira). Não há de nossa parte qualquer tipo de defesa da pixação em si, pois não é esta questão que nos interessa (e mesmo porque nossa opinião pessoal não é importante).

O foco da entrevista é o enfrentamento corajoso de uma questão relevante: no momento em que a pixação entra nas bienais e nos museus ocorre uma pressão inevitável para a mudança do estatuto da prática no mundo contemporâneo. Quando os curadores Agnaldo Farias e Moacir dos Anjos convidaram os pixadores a participar da 29ª Bienal de São Paulo não imaginaram que dois deles, Djan Cripta e Rafael Pixobomb, fariam uma das intervenções mais radicais do evento: invadiram a instalação do artista Nuno Ramos e escreveram com spray a frase “Liberte os urubu”! O erro crasso de português presente na frase é incapaz de obscurecer a mensagem engajada que ela expressa. Se este fenômeno é destituído de interesse, como se justifica o fato dos dois maiores jornais do país, a Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, terem dado ampla cobertura para o fato? Como se explica a migração das notícias sobre pixadores do caderno de fatos cotidianos e policiais para as páginas culturais de nossas revistas e jornais? A matéria jornalística sobre Cripta Djan Ivson na capa do caderno Ilustrada da Folha de São Paulo no dia 15 de março de 2012 é também um incentivo à pixação?

A entrevista realizada e publicada por nós abre diversas frestas por onde se pode observar o fenômeno de forma mais abrangente do que apenas tipificá-la como crime (de resto, a transformação da publicidade em espaços públicos em prática proibida depende de uma simples mudança de lei, como se verificou recentemente na cidade de São Paulo, o que não significa que está resolvido para todo o sempre a inserção da publicidade nas cidades capitalistas). Por detrás dos riscos em geral incompreensíveis e atordoantes dos pixadores surge uma sociedade profundamente injusta, tolhedora de potenciais criativos, que joga jovens sem rumo que querem ter direito à expressão na vala comum da criminalidade. As respostas para este problema, em nosso entendimento, começam com a compreensão do fenômeno nos seus mais diversos aspectos, inclusive de que há uma potência criativa enorme na ação destes jovens para a qual não podemos fechar os olhos. Eles nos agridem, de fato. Nossa resposta vai ser agredi-los também ou tentar resgatá-los?

Agradecemos sua mensagem, pois ela nos permite reiterar as reais motivações da entrevista, que não é, evidentemente, a de suscitar polêmica.

Abilio Guerra, editor Vitruvius

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