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De: Tiago Holzmann
da Silva
Data: Wednesday, December 13, 2000 2:29 PM
Assunto: Arquitetura
dos Espelhinhos
Este ano
comemorou-se no Brasil os 500 anos da chegada dos luso-europeus às
costas da Bahia, data em que o nosso país foi descoberto oficialmente.
As criaturas que já
viviam aqui, vulgarmente conhecidos como índios, eram na realidade
uns coitados que nunca tinham descoberto nada mesmo, e portanto não
nos interessa a versão dos seus poucos descendentes a respeito
desta história.
Corte!
Coincidência ou
não, este ano desembarcou em Porto Alegre o arquiteto português
Álvaro Siza Vieira, que, ao contrário dos seus ascendentes,
virá para construir e não para destruir. Aqui estará
para visitar o terreno para o qual está desenvolvendo o projeto
da Fundação Iberê Camargo, Museu que abrigará
as obras deste importante artista sul-riograndense. Será, dizem,
a primeira obra de um importante arquiteto internacional no Brasil, e
até mesmo na América Latina.
Outra vez estamos sendo
descobertos para o mundo civilizado pelos luso-europeus.
Nos tempos de Cabral,
o descobridor do Brasil, aqui nestas terras não existiam conquistadores
nem colonizadores, porque, como já mencionei, só existiam
índios, e quem se importa com eles? Porém, por uma série
de acasos e circunstâncias históricas, hoje em dia já
existem arquitetos, claro que não tão brilhantes, competentes
e bonitos como os que vem de fora, mas, felizmente ou não, eles
existem.
Eu, por outra série
de coincidências deste tipo, acabei me formando arquiteto. Veja
só! E agora me sinto no dever de manifestar minha opinião
a respeito da ruidosa polêmica que se criou em torno da importação
de arquitetos para construir os monumentos da nossa cidade.
Apesar do disfarçado
cinismo deste texto, não pretendo, em nenhum momento, discutir
o brilhantismo, a competência ou a beleza do arquiteto Álvaro
Siza ou de qualquer outro Arq Pop Star, pois não tenho dúvida
que eles serão capazes de dar-nos boas lições de
arquitetura e civilidade. Assim como tenho certeza também que o
intercâmbio social, artístico, etc, entre as mais diversas
culturas é desejado, necessário e muito bem vindo. Porém,
não é o que acontece neste caso e tenho muito claro que
a questão a tratar é outra.
O fundamental na minha
opinião é discutir até quando estaremos importando
soluções e nos subjugando as lógicas impostas internacionalmente
em vez de instrumentalizar-nos para atuar com competência na nossa
cidade e na nossa sociedade? Até quando nos omitiremos da nossa
responsabilidade de formação analítica e crítica
e do desenvolvimento de soluções próprias para os
nossos próprios problemas? Até quando estaremos imitando
modelos exóticos em vez de descobrirmos, valorizarmos e assumirmos
a nossa própria cultura? Até quando continuaremos a nos
colocar "aos pés" dos colonizadores e sermos tratados
como os pobres índios que ganham espelhinhos e o que realmente
querem ver é a imagem do colonizador refletida?
E se estas discussões
não interessarem, pois que venham todos os Arq Pop Stars,
para dar-nos lições, e ensinar-nos arquitetura de verdade,
e assim, quem sabe um dia, miraremos no espelhinho e veremos uma bela
imagem refletida, brilhante, competente e bonita, mas que seguramente
não terá nada que ver com a nossa própria cara. E,
quem sabe assim, poderemos ver a nossa cidade nas revistas internacionais
de arquitetura. Já imaginaram um número exclusivo de uma
daquelas japonesas de fotos bonitas estampando na capa obras de Arq
Pop Stars realizadas neste fim-de-mundo que é capital da nossa
província.
Que emoção,
nem posso imaginar...
Viva a Recolonização
do Brasil !
[Tiago Holzmann
da Silva é arquiteto
e Urbanista pela UFRGS, 1994, mestre
em Arquitetura pela UPC, Barcelona, 1996, Doutorando
pela UPC, Barcelona, professor
da Faculdade de Arquitetura da Ritter dos Reis, 1°
Secretário IAB-RS 2000/2001
e membro da Nau de Arquitetos e Urbanista]
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