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De: Jorge
Wilheim
Data: Tuesday, November 07, 2000 6:40 PM
Assunto: Berlim: oportunidade perdida
O arquiteto Moreira, ora residente
em Berlim, queixa-se, com razão, da ocasião perdida pelo Governo Brasileiro,
deixando de contribuir à arquitetura e à paisagem da reconstruída capital
alemã, com um belo exemplar de criatividade brasileira. Penso tratar-se
de mais uma faceta da insensiblidade governamental quanto ao papel e à
importância da cidade e da arquitetura, no contexto da conectividade global,
vulgarmente conhecida pelo nome genérico de "globalização".
Esta potencializa as oportunidades, e não apenas para o mal...
A
ausência de uma política urbana no Brasil, faz-nos perder a oportunidade
de orientar as muitas cidades novas que crescem espontânemanete ao longo
das vias de penetração de nossa fronteira móvel (noroeste e norte do
Brasil); também perde-se a oportunidade de somar esforços para a melhoria
da paisagem urbana das cidades médias e das metrópoles.
Por
outro lado continuamos a não valorizar a produção criativa, a invenção,
a pesquisa; enfim, tudo aquilo em que obviamente se baseará o desenvolvimento
no século XXI: o conhecimento, a invenção. Não exageremos, no entanto...
Há no Brasil diversas instituições, públicas embora não estatais, assim
como algumas estatais, que estão fazendo um belo trabalho neste campo.
Mas, repito, carecemos de políticas públicas que potencializem
a importância da cidade (e, igualmente, da urbanística nacional) e da
arte, no contexto do desenvolvimento (palavra em desuso...).
Voltando
ao caso da embaixada em Berlim e ao artigo do colega Moreira: em função
da globalização e da alardeada queda das fronteiras (embora nem sempre
dos protecionismos por parte dos países ricos...) belas obras arquitetônicas
dos mais qualificados arquitetos, tem enriquecido as paisagens urbanas
de Berlim, Paris, Londres, Osaka, Hong Kong, Bilbao. Quem nos dera ter
em São Paulo, ou Rio, ou Porto Alegre, alguma obra de Renzo Piano, Pei,
Frank Gehry, de Leon; além de suas qualidades, constituiria fermento
enriquecedor para os jovens (e mesmo para os não tão jovens...) arquitetos
locais. Pois o mesmo argumento serve ao afirmarmos que Berlim, Milão,
Chicago, Melbourne e tantas outras cidades do mundo, seriam enriquecidas
com obras de excelentes arquitetos brasileiros, como Niemeyer, Paulo
Mendes da Rocha, Lelé, Gasperini, Botti&Rubin e alguns outros.
Ora,
a simetria de oportunidades é importante mas não acontece expontaneamente.
Um Ministério de Relações Exteriores e um Ministério de Cultura existem
inclusive para ajudar na manutenção da simetria de oportunidades,
no contexto da globalização, tornando conhecidas no exterior as qualidades
de nossos arquitetos, produtores de cultura.
Neste
sentido, concordo sim que a solução dada para a embaixada brasileira
na Alemanha representa uma bela oportunidade perdida.
[Jorge
Wilheim é arquiteto e urbanista]
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