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De: Eduardo Chiletto
Data: Monday, November 13, 2000 4:43 PM
Assunto: Inauguração da nova Embaixada do Brasil em Berlim
Caro colega,
Lendo
seu artigo, não pude conter minha inquietação, principalmente quando acabamos
de realizar o 16º Congresso Brasileiro de Arquitetos cujo tema foi "500
Anos - Cenário de Ocupação Territorial", onde através do Colóquio Arquitetura
Brasileira - Redescobertas, pudemos rever, discutir e meditar sobre a
produção Arquitetônica brasileira. Os quais me reportam ao passado...
Quando
os Portugueses chegaram ao Brasil, em 1500, somente encontraram a Arquitetura
"primitiva" dos indígenas, cuja ocupação possuía uma perfeita harmonia
com o meio ambiente e suas diversas culturas. Em Portugal florescia, em
pleno apogeu, o estilo que se chamou de Manuelino (do nome Manuel I, o
Venturoso, rei de 1495 a 1521), época em que presenciaria a construção
da Igreja de Belém (1502), considerada a mais extraordinária construção
do período em Portugal.
Em 1504
era erguida no Rio de Janeiro a primeira casa de pedra e argamassa. (Gilberto
Freyre - Sobrados e Mocambos).
Terminado
o século XVI, existiam já no Brasil diversas povoações, com centenas de
casas e igrejas construídas de acordo com a tradição portuguesa. A casa
de habitação privada torno-se mais e mais importante, à medida que as
condições econômicas de certos particulares melhoravam - primeiro em Pernambuco,
graças à cana de açúcar e a seguir em São Paulo e em Minas Gerais, onde
a descoberta do ouro, no final do século XVII e no decorrer do século
XVIII, geraria notável desenvolvimento.
Franceses
e holandeses, que pôr algum tempo se estabeleceram em trechos litorâneos
da imensa colônia portuguesa, contribuíram em seu turno para a diferenciação
da arquitetura européia no Brasil. Essa arquitetura, até então portuguesa
(muito embora a arquitetura de Portugal sofresse, então, o impacto da
italiana e do norte europeu), apresenta, já agora, exemplos de outros
estilos nacionais: o sobrado recifense, diferente do de Salvador,
deriva possivelmente das casas de dois pavimentos, dominadas pela verticalidade,
tão comuns em toda Holanda.
A mineração
proporcionou a primeira corrida para o coração do Brasil. O povoamento
aurífero do interior se fez desordenado, intempestivo e sem nenhuma programação,
modelo esse até hoje adotado nos assentamentos brasileiros. Os
desconhecidos sertões de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso são desbravados
de um momento para o outro e uma diferente massa inexperiente, pôr falta
de práticos formados, transita pelas encostas perdendo-se pelos matos
e destroçando-se pelas cachoeiras.
Não conhecemos
o Renascimento, não tivemos uma arte clássica renascentista e são pouquíssimos
os exemplos de arquitetura quinhentista que chegaram até nós.
Nossa
verdadeira raiz está no Barroco que passa a desenvolver-se a partir
do século XVII, um barroco litorâneo, quase que totalmente transplantado
da Europa, tendo como focos de gravitação Pernambuco, que se completa
com a fartura da cana de açúcar também Alagoas, Paraíba e Rio Grande do
Norte. E ainda Bahia e Rio de Janeiro.
No Rio
de Janeiro, surge a mais antiga igreja de nave octogonal - Nossa Senhora
da Glória do Outeiro, iniciada em 1714 e concluída em 1730, representando
um progresso em relação às igrejas portuguesas da época, como, de certo
modo, é um adiantamento em relação a qualquer igreja de século XVIII.
O barroco litorâneo da Arquitetura se manteve nos padrões da metrópole,
enquanto em Minas "nasceria constante sementeira artística, a mais forte,
mais farta, e mais bela expressão de arte verdadeiramente brasileira"
no dizer do crítico Lorival Gomes Machado. A decoração se relaciona e
se integra juntamente à arquitetura. O "risco" como então era denominado
o Projeto, evolui no sentido de alcançar maior libertação das formas e
dos espaços interiores. As formas ganham mais delicadeza. As plantas se
modelam ao ritmo das curvas e volutas, criando uma atmosfera dinâmica
e ascensional.
É digno
de menção que a Igreja de São Francisco, em Ouro Preto, foi inteiramente
desenhada, erguida e decorada por um só homem, num espaço de 28 anos (entre
1766 e 1794), o que explica sua extraordinária unidade, sem rival, segundo
Diogo de Vasconcelos.
Cabe aqui
um parêntese acerca do autor de São Francisco de Ouro Preto - o que não
é senão o Aleijadinho. Foi o mais importante adepto do estilo rococó em
Minas Gerais, e no Brasil. Como escultor e "arquiteto", o Aleijadinho
deixou no Brasil obras das mais notáveis; compreendeu melhor do que ninguém
a integração entre o arquitetônico e o escultórico, e combinou a riqueza
da decoração rococó à sobriedade da arquitetura religiosa portuguesa.
Simplificou, além disso, a estrutura do altar, dando maior ênfase ao arco
do tipo romano ou suprindo o baldaquim, ou elevando-o até a um ponto em
que serve de ligação entre o altar e a abóboda.
No final
do século XVIII e início de século XIX, já se verificavam a presença da
atividade artística realizada pôr artistas nascidos no Brasil, cujas obras
denunciam graus de certo modo definidos com um sentimento nacional. Sentimento
esse alicerçado no contexto barroco-rococó da realidade brasileira.
Mas aí,
caro amigo, como você sabe, a corte portuguesa se transfere para o Brasil.
Com a elevação da colônia a Reino Unido e sede do Governo Metropolitano
o país vivência grande renovação no início do século dezenove. Um conjunto
de medidas foram tomadas por Dom JoãoVI, criando órgãos e instituições
para melhorar a sede do reino. E, nesse conjunto estava incluída a chamada
Missão Artística Francesa (1816), que viria redimensionar o panorama cultural
aqui vigente. Isto é, viria interromper o desenvolvimento do nosso barroco,
da nossa, então, verdadeira arquitetura brasileira.
Além do
prédio da Escola de Belas Artes, inaugurada em 1826, (Grandjean de Montegny,
o arquiteto da Missão Francesa), pouco conseguiu realizar, mas formou
discípulos, a exemplo de José Maria Jacinto Rebelo, Joaquim Candido Guilhobel
e Jó de Alcantra que traçaram no Rio de Janeiro obras com influência dos
padrões neoclássicos, influência essa que vai perdurar até o final do
século XIX, que é marcado, também pelo ecletismo das formas no final desse
século até as três primeiras décadas deste. Que misturava os principais
traços do gótico, do toscano e do mourisco.
Tímida
aparição faz, já em princípios do século atual, o estilo Art Nouveau.
Sobretudo em São Paulo, espraia-se consideravelmente, como um protesto
contra a arquitetura da época. Victor Dubueras é o Grande vulto do Art
Nouveau, no Brasil.
Em 1925,
o arquiteto russo Grigori Warchavchik, recém-chegado da Europa, se instala
no Brasil e pública um artigo no Correio da Manhã, intitulado "Acerca
da Arquitetura Moderna", onde citava as idéias de Le Corbusier considerando-o
um dos arautos da Arquitetura dos tempos Modernos. Em 1927-28, Warchavchik
projeta, constrói e inaugura sua própria casa em São Paulo. Era então
a primeira casa com linhas geométricas desprovidas de ornamentos florais
ou figurativos, porem provida de pinturas murais e esculturas de integração
com a jardinagem.
Duas circunstâncias
contribuíram para o aparecimento da Arquitetura Moderna no Brasil, a Arquitetura
brasileira, propriamente dita: A semana da Arte Moderna de 1922, e a Revolução
de 1930. A semana serviu para resolver o marasmo artístico em que jazia
o Brasil e levantou problemas dantes nem suspeitos; quanto à Revolução,
foi o equivalente político da semana, com a qual, aliás, teve muitos pontos
de contato.
Em 1929,
Le Corbusier vem ao Brasil e estimula os jovens Arquitetos que passava
observar no famoso arquiteto suíço um caminho a ser seguido na Arquitetura
que, a partir da década de 1930, irá transformar o perfil das cidades
brasileiras a exemplo de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Os
Arquitetos Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Afonso Eduardo Reidy, Jorge Moreira,
Carlos Leão, Ernani Vasconcelos estavam entre jovens admiradores de Le
Corbusier. Inclusive, a esse grupo se deve a primeira grande obra pública
no Brasil, realizado no melhor espírito contemporâneo, que é o edifício
do "Palácio da Cultura", sede do Ministério da Educação no Rio de Janeiro.
Chegando
ao fim desse esboço histórico, convém analisarmos, o seguinte problema;
Será que
teremos que realizar uma nova revolução ou uma nova "semana de arte" para
que possamos retomar nosso lugar na sociedade ou o respeito dos nossos
governantes?
Que papel
o arquiteto deverá assumir no próximo milênio? Ou mais precisamente na
próxima centúria?
O que
é arquitetura e o profissional arquiteto afinal?
Nesses
500 anos de cenário de ocupação do nosso território torna-se extremamente
necessário rediscutir, reavaliar e, sobretudo propor ações que possam
contribuir para melhoria da qualidade do espaço urbano de nossas cidades
e para arquitetura do país. Mais que espaços urbanos, pois eles estão
inseridos no contexto da cidade, está o espaço territorial a ser ocupado...
As novas cidades... Os assentamentos rurais... Os sem terra... Os despossuídos...
Os sem teto.
Se perguntarmos
aos representantes das nações indígenas, se existiu, nesse 500 anos alguma
diferença de modelo de ocupação, da forma de tomar posse da terra pelo
homem dito branco, provavelmente vão dizer que não. Não existe diferença...
Não existe diferença alguma. De uma grande nação de dois milhões de índios,
existentes no território brasileiro, hoje são cerca de 300 mil.
Quantas
crianças, quantos cidadãos, quantos homens necessitarão morrer diariamente
em nossas cidades, muitas vezes por falta de saneamento básico, saúde,
segurança, por não possuírem habitação digna,... para que tenhamos que
reavaliar esse modelo? Que cidade é esta? Que qualidade de vida queremos?
Que Arquitetura queremos produzir, e para quem?
Como disse
Lúcio Costa,... a realidade é muito rica... Muito mais rica que o desenho.
Espero
que a atuação e a simplicidade deste grande mestre da arquitetura e do
urbanismo sensibilizem nossos governantes para questões de tamanha importância
como a atuação correta, de profissionais arquitetos éticos,
nas intervenções urbanas em nossas cidades, na feitura de concursos públicos
nacionais de arquitetura e urbanismo, e, sobretudo na elaboração de uma
política municipal, estadual e federal de ocupação territorial séria neste
imenso, maravilhoso e culturalmente rico país.
Acredito
que o maior desafio do arquiteto e urbanista seja adequar o espaço territorial
às novas exigências da cidade, do homem e do meio ambiente. E que o direito
a educação, saúde e moradia seja para todos, o direito de ter um
lugar para se viver e sonhar, com dignidade, alegria e esperança...
É... é
realmente uma vergonha para nossa Arquitetura e nosso país essa
"nova" Embaixada!!!
[Eduardo
Chiletto é arquiteto e presidente do IAB/MT]
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