De: Eolo Maia
Data: Monday, November 27, 2000 3:52 PM
Assunto: Artigo de Pedro Moreira

Fico feliz por você lembrar do amigo de Minas. O artigo o Pedro Moreira (de quem sou amigo e admirador) é infelizmente uma verdade, que nós arquitetos brasileiros estamos digerindo há algum tempo.Recentemente um boletim da Asbea abordou também o aspecto negativo desta fase por que passa a arquitetura brasileira, tanto em nosso próprio país como, evidentemente, as suas consequências descartáveis na opinião pública internacional.

Por que a arquitetura brasileira contemporânea é "descartável" no nosso dia a dia? Os fatores são muitos, mas infelizmente existe um roteiro dramático e pobre de espírito para que possamos entendê-lo. O esgotamento das propostas arquitetônicas contemporâneas dos anos 60 e 70, impediu a revigoração de uma nova linguagem, em função de um processo abrangente de decadência da "cultura oficial patropi". Apenas as manifestações culturais musicais ainda possuem alguma força cultural, mas são também esmagadas por uma mídia imediatista e comercial.

O Brasil, infelizmente, não possui cultura arquitetônica valorizada. Após Brasília, o milagre brasileiro assumiu uma arquitetura modernosa, decadente e servil ao exercício do poder de se impor sem um questionamento. Essa arquitetura tardo-fascista-tropical é travestida na década de 80 e 90 com uma nova roupagem, mas autoritária e comercial de uma ditadura econômica e um visual tipo "Miami: cheguei" onde metais brilhosos e vidros esfusiantes formam um novo vocabulário da maioria dos emergentes empresários, culturex e os indefectíveis políticos.

Fica então o país novamente sem uma política cultural e a arquitetura reflete a pobreza deste "status-quo". A arquitetura brasileira, na maioria das vezes, é um instrumento de barganha imobiliária e deixa uma das suas mais sagradas e importantes funções: a de ser um instrumento para valorizar as instituições de uma civilização.

Temos então o tragicômico quadro: a última Bienal de Arquitetura de São Paulo mostra a nossa dura e triste realidade. 70% da exposição da atual arquitetura brasieira é descartável e comprometedora com valores de ética questionáveis. Essa visão é refletida nos nossos políticos que compreendem a arquitetura como uma mera negociata imobiliária. Como resultado, podemos relembrar o malfadado concurso para o Pavilhão do Brasil na feira de Sevilha, na época da República das Alagoas, o gasto inexplicável no nosso "stand" em Hannover, e aí até a nossa atual embaixada em Berlim e outros fatos que esperamos não ocorram.

Na última Bienal em Veneza, houve alguns comentários da inteligência primeiro-mundista aos trabalhos de nossos representantes brasileiros: Paulo Mendes da Rocha e Lelé. Alegaram ser "arquiteturas de boa qualidade representantes do Brasil, mas refletem os anos 60, sem uma inovação contemporânea".

Fica então aqui a reflexão. Nos anos 60, fomos felizes e não sabíamos. Será que a nossa atual produção, dividida entre o brilho de gosto globalizado à la Miami, ou à selvática e exótica arquitetura de madeiras e sapés à la Curumim, é o nosso autêntico vocabulário? Para os políticos e profissionais sem escrúpulos, talvez valha mais o óbvio. Para outros, menos óbvios, fica o convite a procurar novos caminhos em continuidade ao trabalho dos nossos dois ilustres representantes em Veneza. O caminho e a evolução é sempre a redescoberta de nossa cultura.

[Éolo Maia é arquiteto com escritório em Belo Horizonte MG]