De: Mauro Bondi
Data: Sunday, April 01, 2001 8:40 PM

Assunto:
Luz de luxo

Antes de mais nada, gostaria de parabenizar Vitruvius por colocar em debate, através do excelente artigo de autoria do arquiteto Marcos Carrilho, a importante questão da modernização da Estação da Luz.

O texto esclarece as diferentes opções de projeto apresentadas pela CPTM para a adaptação da Estação ao significativo aumento de fluxo de passageiros decorrente da implantação do novo sistema de trens de subúrbio, assim como a recuperação deste importante patrimônio cultural brasileiro.

Considerando  os aspectos arquitetônicos e patrimoniais; urbanísticos; operacionais e econômicos, o Esquema 2 parecia ter se confirmado como a melhor opção para a cidade, tendo sido amplamente discutido e aprovado pelos órgãos de preservação nas três esferas de poder: federal, estadual, municipal (IPHAN, Condephat, Conpresp). Fica a dúvida sobre que critérios teriam levado a CPTM a
substituí-lo pelo Esquema 3, projeto que opta por uma solução totalmente subterrânea, a acessibilidade garantida  por entradas externas ao edifício da Estação.

Nesta última semana de março a dúvida começou a ser esclarecida. Com toda pompa governamental,  que incluiu até desfile de trem antigo, foi assinado um protocolo de intenções entre o presidente da CPTM, Oliver Salles de Lima, e o presidente da Fundação Roberto Marinho, José Roberto Marinho, com apoio da Secretaria de Estado da Cultura, que visa a instalação na edifício da Estação da Luz de um Memorial da Língua Portuguesa, devidamente acompanhado da promessa de restauração do edifício tombado.

Essa proposta, que ainda não foi analisada e aprovada pelos  órgãos de preservação responsáveis legalmente pela tutela  do  patrimônio protegido, os quais  vêm discutindo há anos a modernização e recuperação da Estação, explicitou aquilo que se temia: a adoção pela CPTM do Esquema 3
significa que a velha Estação, que bravamente resistiu durante cem anos às inúmeras transformações que conturbaram o sistema ferroviário paulista, vai ser esvaziada de seu conteúdo original,
aquele mesmo que justificou sua existência e sua proteção oficial, para se transformar em mais um  "Centro Cultural" no Bairro da Luz em São Paulo.

Da velha Estação Ferroviária, do importante complexo ferroviário, vão restar somente os trilhos.
As portas do pavimento térreo, hoje permanente abertas permitindo o trânsito democrático de pedestres entre a Rua Mauá e a Praça da Luz, ou dos passageiros que fazem baldeação de transporte no local, deverão ser fechadas, impedindo o acesso dos usuários dos trens de subúrbios ao bem patrimonial.

Por este novo projeto, os usuários do sistema de trens de subúrbio da CPTM deverão percorrer modernos túneis subterrâneos, acessíveis por entradas locadas na parte externa, em ambos os lados da Estação, devidamente isolados do Memorial, devendo descer, a partir do nível da rua, cerca de 14 metros até um espaço de distribuição de fluxo de passageiros localizado sob a linha férrea, de onde subirão novamente seis metros para atingir as plataformas de embarque.

O edifício da velha Estação ficará assim reservado aos amantes da língua portuguesa, aos bibliófilos, à elite letrada que, salvo prováveis exceções, não confunde seu perfil com o de milhares de usuários do sistema de transporte operado pela CPTM, ou com o dos habitantes das redondeza: emigrantes do Norte da Europa, prostitutas, comerciantes coreanos, moradores de rua, traficantes, meninos consumidores de craque.

É lamentável que os agentes governamentais não tenham tido a sensibilidade de, por um lado, ter vislumbrado a potencialidade de integração e recuperação social da área da Luz através de uma intervenção que privilegiasse a função original do edifício. E por outro lado, se fosse questão de Memorial, não tenham vislumbrado a excelente possibilidade do reaproveitamento desse edifício histórico, VIVO em suas funções originais. Porque, em vez do Memorial da Língua Portuguesa  anunciado, não se pensou na urgente, emergencial e fundamental preservação da Memória Ferroviária Paulista no local? Arquivos, documentos e objetos, espalhados por todo Estado de São Paulo, testemunhos desse capítulo fundamental da nossa história estão ameaçados de desaparecimento pelo abandono e pelo descaso do governo e concessionárias herdeiras no processo de privatização, por  leilões pulverizadores de acervos, inúmeros atos  criminosos que vêm se sucedendo e  que têm  no abandono dos arquivos da FEPASA em Jundiaí seu mais triste e mais forte argumento.

Salvar e valorizar a história da ferrovia significa salvar um dos capítulos mais importantes da história de São Paulo e do Brasil. Trata-se de uma tarefa urgente da qual a modernização e restauração da Estação da Luz é uma parte essencial, mas que continua no salvamento de arquivos, de bens móveis, de outras estações, de toda uma estrutura que foi responsável pelo desenho da história, da geografia, da arte, do ser e do fazer paulista.

Camões, que me desculpe, mas a memória da ferrovia em São Paulo é fundamental e primordial. Aliás, na sua inteligência, tenho certeza que Camões concordaria comigo em ceder ou compartilhar os espaços deste Memorial com a história ferroviária do Estado de São Paulo.

[Mauro Bondi, arquiteto  do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN]