O texto esclarece
as diferentes opções de projeto apresentadas pela CPTM para a adaptação
da Estação ao significativo aumento de fluxo de passageiros decorrente
da implantação do novo sistema de trens de subúrbio, assim como a recuperação deste
importante patrimônio cultural brasileiro.
Considerando
os aspectos arquitetônicos e patrimoniais; urbanísticos; operacionais
e econômicos, o Esquema 2 parecia ter se confirmado como a melhor opção
para a cidade, tendo sido amplamente discutido e aprovado pelos
órgãos de preservação nas três esferas de poder: federal, estadual,
municipal (IPHAN, Condephat, Conpresp). Fica a dúvida sobre que critérios teriam
levado a CPTM a
substituí-lo pelo Esquema 3, projeto que opta por uma solução totalmente
subterrânea, a acessibilidade garantida por entradas externas
ao edifício da Estação.
Nesta última semana
de março a dúvida começou a ser esclarecida. Com toda pompa governamental,
que incluiu até desfile de trem antigo, foi assinado um protocolo
de intenções entre o presidente da CPTM, Oliver Salles de Lima, e o
presidente da Fundação Roberto Marinho, José Roberto Marinho, com apoio
da Secretaria de Estado da Cultura, que visa a instalação na edifício
da Estação da Luz de um Memorial da Língua Portuguesa, devidamente acompanhado
da promessa de restauração do edifício tombado.
Essa proposta, que
ainda não foi analisada e aprovada pelos órgãos de preservação
responsáveis legalmente pela tutela do patrimônio protegido,
os quais vêm discutindo há anos a modernização e recuperação da
Estação, explicitou aquilo que se temia: a adoção pela CPTM do Esquema
3
significa que a velha Estação, que bravamente resistiu durante
cem anos às inúmeras transformações que conturbaram o sistema ferroviário
paulista, vai ser esvaziada de seu conteúdo original,
aquele mesmo que justificou sua existência e sua proteção oficial, para
se transformar em mais um "Centro Cultural" no Bairro
da Luz em São Paulo.
Da velha Estação
Ferroviária, do importante complexo ferroviário, vão restar somente
os trilhos.
As portas do pavimento térreo, hoje permanente abertas permitindo o
trânsito democrático de pedestres entre a Rua Mauá e a Praça da Luz, ou
dos passageiros que fazem baldeação de transporte no local, deverão
ser fechadas, impedindo o acesso dos usuários dos trens de subúrbios ao
bem patrimonial.
Por este novo projeto,
os usuários do sistema de trens de subúrbio da CPTM deverão percorrer
modernos túneis subterrâneos, acessíveis por entradas locadas
na parte externa, em ambos os lados da Estação, devidamente isolados
do Memorial, devendo descer, a partir do nível da rua, cerca de 14 metros
até um espaço de distribuição de fluxo de passageiros localizado
sob a linha férrea, de onde subirão novamente seis metros para
atingir as plataformas de embarque.
O edifício da velha
Estação ficará assim reservado aos amantes da língua portuguesa,
aos bibliófilos, à elite letrada que, salvo prováveis exceções, não
confunde seu perfil com o de milhares de usuários do sistema de
transporte operado pela CPTM, ou com o dos habitantes das redondeza:
emigrantes do Norte da Europa, prostitutas, comerciantes coreanos, moradores
de rua, traficantes, meninos consumidores de craque.
É lamentável que os
agentes governamentais não tenham tido a sensibilidade de, por um lado,
ter vislumbrado a potencialidade de integração e recuperação social
da área da Luz através de uma intervenção que privilegiasse a função
original do edifício. E por outro lado, se fosse questão de Memorial,
não tenham vislumbrado a excelente possibilidade do reaproveitamento
desse edifício histórico, VIVO em suas funções originais. Porque,
em vez do Memorial da Língua Portuguesa anunciado, não
se pensou na urgente, emergencial e fundamental preservação da
Memória Ferroviária Paulista no local? Arquivos, documentos e objetos,
espalhados por todo Estado de São Paulo, testemunhos desse capítulo
fundamental da nossa história estão ameaçados de desaparecimento pelo
abandono e pelo descaso do governo e concessionárias herdeiras no processo
de privatização, por leilões pulverizadores de acervos, inúmeros
atos criminosos que vêm se sucedendo e que têm
no abandono dos arquivos da FEPASA em Jundiaí seu mais triste e mais
forte argumento.
Salvar e valorizar
a história da ferrovia significa salvar um dos capítulos mais importantes
da história de São Paulo e do Brasil. Trata-se de uma tarefa urgente
da qual a modernização e restauração da Estação da Luz é uma parte essencial,
mas que continua no salvamento de arquivos, de bens móveis, de outras
estações, de toda uma estrutura que foi responsável pelo desenho da
história, da geografia, da arte, do ser e do fazer paulista.
Camões, que me desculpe,
mas a memória da ferrovia em São Paulo é fundamental e primordial. Aliás,
na sua inteligência, tenho certeza que Camões concordaria comigo em
ceder ou compartilhar os espaços deste Memorial com a história ferroviária
do Estado de São Paulo.
[Mauro Bondi, arquiteto
do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN]