De: Maria Cristina Schicchi
Data: Tuesday, April 17, 2001 10:32 PM
Assunto:
Afinal, voltar ao princípio

Afinal, voltar ao princípio…

Assim como os colegas que emitiram suas opiniões registradas neste espaço, gostaria de reiterar a importância de podermos estabelecer esta conversa, independentemente do teor das opiniões. Gostaria de encaminhar duas questões básicas para a continuidade desta discussão, e por entender assim, como continuidade, é que vou me remeter ao texto artigo principal sobre a reforma da Estação e às opiniões emitidas pelos colegas na seqüência.

A primeira questão vem do desconforto que sinto em estar opinando sobre um assunto e ter a sensação de que estão se revelando os bastidores de um processo que, entretanto, não se revela nunca por inteiro.

Senão, vejamos o histórico traçado por Carrilhos sobre a discussão do 1º ao 3º projetos apresentados pela CPTM em que o 1º teria sido recusado, o 2º teria sido aprovado pelos órgãos de patrimônio nas três esferas, algumas suposições sobre as razões que teriam levado este órgão a propor um 3º e depois a confirmação por outro colega, Mauro Mondi, do próprio IPHAN, sobre as verdadeiras razões desta decisão, deixando ainda no ar quem seria esta figura "preservacionista de prontidão", se entidade ou pessoa simplesmente, poderosa a ponto de sobrepor sua visão à dos órgãos de preservação e, me parece, a uma opinião consensual dos técnicos envolvidos com o projeto, sobre a conveniência do 2º projeto.

Nenhum problema, eu diria, se isso fosse apenas uma questão de ignorância de minha parte sobre o desenrolar desta história, e então, eu simplesmente não estaria autorizada a falar sobre o assunto como arquiteta. Agora, isto é muito sério quando pensamos que à imensa maioria da população e principalmente à população usuária da estação nem isto chega ao conhecimento.

Nenhuma novidade, eu diria. Quase todas as decisões sobre os projetos, inclusive os emblemáticos (Pinacoteca e Sala São Paulo) já realizados na área e citados pelo colega Marcos Carrilhos foram definidos desta forma e só se revelaram para o grande público quando o espetáculo já estava montado. Normalmente são os mesmos atores e consoantes, nós os arquitetos.

Muito me admiro que os colegas ainda se surpreendam com decisões como estas, vindas na contramão das discussões e acertos prévios, impostas de forma autoritária e justificadas por "discordância de princípio. Isto só evidencia, aos olhos de quem quer ver, que as decisões não nascem dos argumentos técnicos e que, portanto, independente do mérito de qualquer proposta, não é esta a instância que devemos priorizar na discussão de nosso patrimônio. Inclusive porque é muito simples defender uma proposta com argumentos externos a ela, até mesmo quando são contraditórios. Senão, vejamos:

O arquiteto Marcos Carrilhos ao defender o 2º projeto, argumenta que o número de 35.000 passageiros/hora que estariam transitando pela estação e arredores "permitem entrever o efeito benéfico que a circulação dessa quantidade de usuários trará para a revitalização do Bairro da Luz".

E eu pergunto: será? São estes os usuários imaginados no presente projeto global de revitalização daquela área? Os dois exemplos emblemáticos citados já demonstram que não. Como bem descreveu o colega Mauro Bondi o público imaginado que freqüentaria o Memorial proposto pela Fundação Roberto Marinho e pela Secretaria de Cultura e que eu tomo a liberdade de estender ao público real que freqüenta os outros dois projetos: "salvo prováveis exceções, não confunde seu perfil com o de milhares de usuários do sistema de transporte operado pela CPTM, ou com o dos habitantes da redondeza: emigrantes do Norte (da Europa?), prostitutas, comerciantes coreanos, moradores de rua, traficantes, meninos consumidores de craque."

Estamos falando, portanto, de uma população que não tem recursos e que é por isso que usa o trem. Não é a população que acessa estes edifícios por automóvel e, não é uma população que dá o tipo de vida imaginado para estes espaços nestes projetos-modelo.

Senão, vejamos outro exemplo esclarecedor:

Em episódio recente, quando do lançamento do álbum "Cem Anos Luz" promovido pela Construtora Camargo Correia e com apoio institucional da Prefeitura do Município de São Paulo e apoio cultural da própria CPTM e da RFFSA em que foram expostos fotos e textos sobre a história da Estação da Luz e sobre a própria implantação da ferrovia em nosso país e sua utilização até os dias de hoje, vivenciamos, eu e os presentes, uma situação bastante constrangedora.

O espaço do saguão principal da estação e toda a extensão da plataforma do lado do Jardim da Luz foram interditados ao público comum usuário e só teve acesso àquele espaço os portadores de convites.

Durante o coquetel regado à vinho e que incluiu não só o desfile de trem antigo como a oportunidade de se transitar dentro de um (lembrando a citação de Bondi), assistimos a uma manifestação da "galera" do outro lado dos trilhos, que aguardava o trem (atrasado para variar) nos hostilizando e gritando contra aquele cerceamento. Tudo isto não durou 15 minutos. Diante de uma atitude "blasé" dos convidados (eu, inclusive, confesso) nada se fez para que, de fato, fosse revertida aquela situação: quem usa a estação todos os dias, anos a fio não pode ver a exposição a não ser a partir do dia seguinte.

Então, voltando ao assunto principal sobre a escolha das soluções de projeto: ainda que possa concordar com a indignação dos colegas e achar discutíveis tanto a proposta final de projeto da CPTM quanto a de uso da Secretaria de Cultura, o que me parece claro em tudo isto é que, se a questão continua sendo esta, ficamos na mesma e ficaremos sempre. Não que a discussão não tenha importância e não deva ser feita mas, a meu ver, os interlocutores deveriam ser outros.

Porque saímos de um regime de ditadura, em que todos os nossos diretores de órgãos públicos eram nomeados, que apenas faziam uso político de suas posições e decisões (esta foi a tônica de nossos órgãos de preservação de meados dos anos 70 até o início dos 80) para um regime democrático, sem dúvida, mas que parece ter deixado um estado de inércia em nossas instituições, que ainda não permite o nosso acesso às decisões sobre nossa cidade e nosso patrimônio.

Está claro, a meu ver, que é uma questão política, que deve ser resolvida primeiro nesta instância. E aqui enuncio a minha segunda questão: O que deve ser feito na Estação da Luz é, antes de mais nada, problema de toda a população, usuária ou não, depois de nós, enquanto técnicos.

E disto, com toda a boa intenção que possamos ter em apontar as melhores soluções, não podemos prescindir. Não teremos legitimidade nem apoio nenhum para nossas idéias se elas nascem a serviço de demandas duvidosas (emprestando o termo de Carrilhos) e definidas sem transparência: afinal, a solução é para resolver um problema numérico abstrato de circulação de passageiros ou coloca em questão a necessidade dos verdadeiros usuários e o espaço da cidade? É apenas um problema do que fazer com e no edifício ou trata-se de preservar uma função que lhe dá sentido e para área como um todo? E tudo isto para quem? Estas questões não são discutíveis.

Se é para os usuários, que forma de inclui-los, consultá-los, informá-los nossas instituições encontraram, principalmente as de preservação? Ou para eles restaria apenas o direito de passagem, como no caso da exposição citada? Ou por acaso não nos diz respeito, como cidadãos e conhecedores da importância deste patrimônio que isto seja do conhecimento de todos e que estes usuários não tenham tempo e acesso a jornais para ler os escassos artigos sobre as questões da cidade? Afinal, pergunto, a quem servimos?

Quem se senta à mesa dos conselhos de defesa de nosso patrimônio? Isto é discutível. Não é por acaso um grupo de notáveis, muito semelhante ao dos "bibliófilos e amantes da língua portuguesa" citados pelo colega Bondi? Aliás, qual é mesmo a diferença entre as "quatro paredes" daqui e o "entre muros" denunciado por José Armênio Brito no caso das interferências realizadas no MUBE?

O que mais me incomoda nisto, agora finalizando, é uma outra sensação: a de que se esta demanda não fosse definida de forma tão abstrata, circunscrita a questões técnicas e as propostas tivessem sua gênese na compreensão de como aquele espaço hoje é vivenciado, seria uma boa oportunidade de revermos as outras duas citadas (ainda que reconhecendo a qualidade das intervenções arquitetônicas realizadas, em si) e o nosso conceito sobre revitalizar alguma coisa.

Mas pensem: não seria muito mais interessante, instigante, realmente estimulante poder discutir e defender soluções mais adequadas de projeto e as opiniões antagônicas com a população (claro que de forma organizada) e não apenas entre técnicos? E se fosse uma prática, com canais próprios para isto, quais seriam as chances de, uma vez aprovada uma solução e tornada pública, ser substituída, alterada ou engavetada e/ou vir a público apenas quando vira objeto de denúncia?

Entendam como uma autocrítica. Todos fazemos ou fizemos parte de alguma instituição. Sei que o assunto é extenso e profundo e não se resolve por simples vontade e que mudanças não se operam apenas internamente mas precisam sofrer uma vigorosa e incansável pressão externa. Isto não é tarefa de uma categoria profissional, nem de várias.

Mas continuo desapontada com o que tenho chamado de "ingenuidade consentida" de nossas discussões baseadas na crença de que as soluções sairão de nossos projetos e que, desconfio, é herança de nossos modernos.

Grata, abraços a todos.

[Maria Cristina Schicchi é arquiteta e professora da FAU PUC-Campinas e Coordenadora do Curso de Especialização Patrimônio Arquitetônico: Teoria e Projeto]