De: Vittorio Corinaldi
Data: Wednesday, April 04, 2001 7:43 PM
Subject: Violação do Mube

Li com amargo interesse a notícia sobre a intervenção ofensiva no prédio do Mube, obra de Paulo Mendes da Rocha que tive ocasião de conhecer numa de minhas visitas a São Paulo. Se expressões de condenação dos atos perpetrados sobre o edifício podem servir como motivo para causar um retorno à situação original, aqui fica também minha modesta participação. E embora não tenha a pretensão de me comparar ao artista de inegualável densidade criativa que reconheço em Paulo Mendes da Rocha, quero afirmar que ele não se encontra sozinho nesse confronto com a pretensiosidade cafajeste de "mecenas" novo-ricos (sejam eles indivíduos ou entidades), ou com a pseudo-praticidade de usuários insensíveis, que antepõem argumentos de superficial cunho funcional a considerações de ordem espiritual que refletem um fundamentado substrato de cultura. Como arquiteto que não teve em sua carreira muitos ensejos de por em pratica uma tal visão de sua obra, fui sempre vulnerável a este tipo de assédio por parte de fatores administrativos e políticos. E me deparei não raras vezes com letreiros gritantes e desrespeitosos fixados sem minha autorização (e frequentemente sem meu conhecimento); com acréscimos vulgares; com modificações de detalhes ou de programa efetuados a projeto concluído e executado. Esta é apenas uma das facetas de uma crescente prepotência do fator empresarial e financiador, à qual infelizmente grande número de arquitetos vem se sujeitando - por mediocridade, por necessidade ou por interesse. As manifestações de falso historicismo, de duvidosa sustentação esteticista, de agressiva aparência - que caracterizam os encargos profissionais do vigente neo-capitalismo - são elas também a tradução construída dessa concepção. É por isto que qualquer ato de profanação levado a cabo sobre obras de bem diferente profundidade e coerência estética como o são as de Mendes da Rocha, constitui uma ofensa imperdoável para quem quer que aspire a uma verdade pronunciada através da Arte.

[Vittorio Corinaldi, arquiteto, Tel Aviv, Israel]