|
De: Ruth Verde Zein
Data: Sunday, April 15, 2001 4:43 PM
Subject: MuBE, e a obra de Mendes da Rocha
Prezados José Armênio
e Abilio: Não vou repetir o que todos já sabemos - que o desrespeito à
qualidade do que temos de melhor, brasileiros e arquitetos, é infelizmente
moeda corrente na nossa incultura urbana. Nem vou ficar aliviada se, por
enquanto, a horda dos bárbaros recuou de seu intento avassalador, pois
também sabemos que estão apenas à espreita de que estejamos novamente
distraídos - ou nem isso. Quero apenas aproveitar a oportunidade para
relembrar que, nesta semana que entra, o arquiteto Paulo Mendes da Rocha
está merecidamente recebendo, em Barcelona, o Prêmio Mies Van der Rohe
por uma das suas mais importantes obras, a renovação da Pinacoteca do
Estado, também em São Paulo, como o MuBE - obra que já havia sido finalista
do anterior prêmio Mies. O reconhecimento é devido, a homanagem é justa,
e certamente todos nos juntamos às congratulações. O MuBE talvez seja
uma contradição em termos: é um edifício, ou melhor definindo, um fato
urbano, acima e além da capacidade de compreensão de seus empreendedores
formais. A história de sua realização, se não me falha a memória em algum
detalhe, é curiosa mas reveladora de seus futuros descaminhos. O lote
onde ele se implanta ficou anos esperando serem resolvidas pendengas judiciais
a respeito de seu posssível uso comercial. Este é finalmente referendado
pela justiça comum, mas obstado pelo então prefeito Jânio Quadros, que
o desapropria e o oferece à Sociedade de Amigos do Bairro para que ali
criasse um museu. Poder-se-ia pensar que o falecido alcaide fez meio favor:
se bem impedisse o uso inadequado, entretanto eximiu-se de plenamente
assumir o papel, que certamente era o da municipalidade, de dar melhor
uso àquele sítio; destarte confia-o à "iniciativa privada", porém não
exige sobre ele nenhum outro controle que não fosse o de lhe mostrarem
rapidamente um projeto para ali ser erigido. O que poderia ser suficiente
se por "projeto" se entendesse aquilo que os arquitetos proclamamos ser:
não apenas risco, mas desígnio. Porém os fatos a seguir demonstraram que
não houve essa compreensão, e dai nasce, muito precocemente, o erro -
que desde então mina as bases do que será e de fato ainda infelizmente
é o MuBE. Faz-se então concurso, ganho por Mendes da Rocha, e tarda anos
a execução da obra, já que as verbas são amanhadas de a pouco em pouco,
com o esforço de variadas forças sociais. Não vou demorar aqui nas qualidades
arquitetônicas dessa obra, que merecem espaço mais tranqüilo, demorado
e cuidadoso para reconhecê-las, senão em plenitude, ao menos em maior
profundidade. Apenas ressalto, para o ambiente desta polêmica, que o MuBE,
de fato, jamais chegou a estar total e plenamente pronto e acabado, nem
seu edifício, nem sua instituição museística. O MuBE ainda não é - ou
ele apenas "tentou ser" por um muito curto período, quando da gestão,
como sua diretora, de Adélia Borges - que, ela sim, soube compreender
e ativar as possibilidades culturais da instituição. Mas que logo foi
afastada, ao que parece justamente por ser eficiente demais, e estar a
levar o MuBE a ser de fato o espaço da cultura que ele merece ser. E com
isso, "livrando-o", de pouco em pouco, do péssimo costume que parece ainda
impregná-lo de não o considerar patrimônio de todos nós, cidadãos - paulistas,
brasileiros ou de todas as partes do mundo. Assim, o MuBe, ainda não é:
espaço pleno de possibilidades mas vazio de significados que só a atividade
humana lhe poderá dar, ameaça ser ruína precoce por incúria dos que não
lhe compreendem a vocação. Nada disso é novidade enquanto atitude: vivemos
ainda nas capitanias hereditárias, El-Rei deu-me este trecho de terra
e faço dele o que melhor me parecer, inclusive nada. As elites deste país,
desde sempre, se locupletam em privilégios e se comprazem em viver da
renda que lhes é dada de mão beijada, acreditam ser seu direito divino
serem improdutivas e fogem de assumir o papel que a si se arrogam, qual
seja, o de serem elites - ou seja, "aquilo que há de melhor em uma sociedade",
como diz o dicionário. E isso não será privilégio para nada fazer, e sim,
responsabilidade para fazer o melhor. Quando será? O MuBE é uma contradição
tem termos, como disse - não o edifício, mas a instituição. A sensação,
hoje, que se tem ao ali se entrar, de que talvez não sejamos benvindos
(como alguém disse no debate), não vem do lugar ou da sua arquitetura,
mas da nada sutil aposição de barreiras onde não as deveria haver, das
grades, placas desnecessárias, vidros e portas inadequados, móveis absurdos
saídos de alguma mansão dos arredores; vem do fato de ali pouco ou nada
acontecer, das exposições se sucederem intercalando mostras importantes
e feiras ridículas; tudo isso revelando uma soberana incompreensão que
seria ingênua se não fosse trágica. Vemos, no caso da criação do MuBE
enquanto instituição, um exemplo precoce de "terceirização" e "privatização"
de um bem municipal para uso de particulares. Postura e solução hoje tão
em voga, aclamada como panacéia universal para todos os males. Mas que
pode vir a ter resultados péssimos se não houver, de princípio, um efetivo
controle, por parte do interesse público, coletivo, em que tal procedimento
sirva de volta a esse mesmo coletivo, de maneira inteligente, digna, responsável,
livre de personalismos e desvios inadequados. Talvez seja ainda tempo
de que o MuBE exista de fato - seja por que se faça a luz em quem o tem
em mãos (milagres são possíveis, embora improváveis), ou porque quem o
detém seja instado a responder adequadamente, e de maneira efetiva, a
quem lhe permitiu que ele fosse criado - a instância pública municipal,
ou mesmo nós, cidadãos. Atenciosamente.
[Ruth Verde Zein, arquiteta,
professora e crítica, São Paulo SP]
|