|
De: Abilio Guerra
Data: Tuesday, April 03, 2001 4:56 PM
Assunto: Manifesto de formação da Rede brasileira de planejadores urbanos
pela justiça Social
Recebemos de um leitor
o Manifesto que foi lido em Porto Alegre no dia 27 de janeiro de 2001,
no Forum Social Mundial de Porto Alegre. O texto nos parece uma excelente
contribuição no debate proposto por Luiz Carlos Costa.
[Abílio Guerra,
editor vitruvius]
Manifesto de formação
da Rede brasileira de planejadores urbanos pela justiça Social (?), criada
no dia 27.01.2001, no Forum Social Mundial de Porto Alegre
As agências multilaterais
e seus ideólogos já desenharam a cidade ideal do limiar do século XXI:
é a cidade produtiva e competitiva, globalizada, conectada a redes internacionais
de cidades e de negócios. Concebida e pensada como empresa que se move
num ambiente global competitivo, o governo desta cidade se espelha no
"governo" da empresa: gestão empresarial, marketing agressivo, centralização
das decisões, pragmatismo, flexibilidade, entre outras, seriam as virtudes
das quais dependeria cada cidade para aproveitar as oportunidades e fazer
valer suas vantagens competitivas no mercado de localização urbana.
Na América Latina, nos
últimos anos, a globalização vem sendo apresentada como um fenômeno inexorável,
mas potencialmente benéfico, desde que a inserção no mundo globalizado
seja "bem conduzida", sem desviar da pista única do programa difundido
para os países "emergentes". Apesar das críticas que já se fizeram, e
apesar da crença nesse programa ter sido em certa medida abalada pelas
últimas crises e pelo fracasso confesso das políticas impostas pelo FMI,
os modelos de planejamento urbano mais difundidos e aceitos têm sido pouco
questionados.
Ainda que alguma desconfiança
já pese sobre o programa de reforma do estado assentado sobre uma visão
empresarial, aqueles que parecem ser seus correspondentes no campo das
políticas urbanas, o planejamento estratégico e o "city marketing", que
confluem para a gestão empresarial de cidades, têm sido apresentados como
mais atuais do que nunca. Aparentemente, não haveria no novo cenário outra
maneira de se pensar o futuro das cidades senão como inseridas numa rede
global, na qual imperaria uma nova dinâmica de relações baseada na competição
pela atração de investimentos, nos avançados sistemas de informação e
comunicação, na modernização da infra-estrutura, nas grandes operações
urbanísticas, no fortalecimento do setor de serviços e no poder do capital
financeiro internacional, supostamente capaz de dar nova vida às áreas
urbanas "degradadas" graças à força incomparável de uma "entidade" chamada
mercado.
Numa série de países
latino-americanos emergem exemplos de projetos e ações que se fundam neste
modelo de cidades globalizadas. Sua concretização se dá pela produção
de um novo contexto cultural que constrói um campo favorável à aceitação
destes projetos. Daí a recorrência da busca da "construção do consenso"
mediante o qual todos supostamente podem se beneficiar da nova cidade
gerencial. Trata-se de uma aposta no caráter essencialmente positivo da
globalização e nas possibilidades de "direcionar" o mercado imobiliário
de modo a construir novos espaços de integração social, materializados
em pólos do terciário dito "avançado" ou em "projetos de renovação urbana"
. O chamado planejamento estratégico, identificação do planejamento urbano
com as modernas técnicas de planejamento empresarial, o neo-urbanismo
culturalista e monumentalista, a evocação de identidades territoriais
que alimentariam múltiplas formas de neo-localismo fragmentário e de patriotismo
urbano, as parcerias que encobrem associações sem mediações do poder público
com capitalistas que fazem da cidade um negócio, eis alguns dos elementos
do novo pacote urbano.
Enquanto os discursos
das agências multilaterais e dos consultores internacionais prometem o
paraíso da cidade global, a maioria das populações de nossas cidades recolhe
o aprofundamento das desigualdades urbanas, a miséria, a desesperança
e, muitas vezes, o desespero. Ao contrário, porém, do que alardeiam os
militantes do pensamento único urbano – acadêmicos, técnicos, consultores
e funcionários internacionais –, as alternativas ao modelo estão
por toda parte. Em diferentes cidades governadas por forças progressistas,
democráticas e populares, ou mesmo em bairros e comunidades de cidades
sob governos neo-liberais, vêem-se, na prática, os sinais do que poderia
constituir, senão um modelo, um outro ideal de cidade, de urbanidade e
de planejamento urbano.
Nem sempre, entretanto,
tem sido possível conferir a estas experiências um olhar de conjunto que
faça delas, de fato, uma alternativa capaz de disputar a hegemonia da
agenda urbana nesta virada de século. É também largamente insuficiente
a produção acadêmica, tanto na crítica dos modelos dominantes quanto na
sistematização das experiências alternativas. Não se trata, evidentemente,
de produzir um modelo pronto e acabado da cidade democrática e progressista,
mesmo porque a própria idéia de uma modelagem universal seria estranha
às concepções que a nova esquerda urbana está construindo. É, porém, necessário
e possível caminhar na direção de uma agenda alternativa àquela resultante
do pensamento único. É uma agenda permanentemente em construção, uma agenda
em processo, cujos elementos estão dispersos em múltiplas experiências
e exercícios reflexivos.
É para constituir um
espaço de elaboração e discussão desta agenda que surge a proposta de
REDE ................ Lugar de encontro e confronto de todos aqueles que
acreditam que é possível, e necessário, resistir ao pensamento único urbano
e construir alternativas. Planejadores, acadêmicos, militantes de movimentos
urbanos, sindicalistas, militantes partidários, companheiros em cargos
eletivos, funcionários governamentais e técnicos das diferentes instâncias
estão todos convidados a discutir esta proposta.
|