De: Mauro Claro
Data: Resposta à mensagem Capela Cristo Operário, SP-SP
Assunto: Informação

Sonia foi um prazer receber sua mensagem! Gostaria de aproveitar a oportunidade de te responder para adicionar alguns elementos sobre a natureza do empreendimento Unilabor e, assim, contribuir para que esse relativo desconhecimento ao qual você alude seja diminuído. A Capela Cristo Operário e a existência da Comunidade Unilabor são fatos pouco lembrados na atualidade mas, se formos verificar com os que viveram a década de 50 já como profissionais (arquitetos, intelectuais, artistas) encontraremos várias pessoas que de algum modo mantiveram contato ou sabiam de sua existência e que contribuíram com ela, ou simplesmente compraram os móveis fabricados pela Unilabor. É interessante notar - e daí grande parte do interesse que a Capela, a comunidade e a fábrica de móveis carregam até hoje - que o empreendimento de frei João Batista se ligou, desde seu início, a grupos modernistas de vários campos do conhecimento e das artes - e foi justamente nesse meio que a idéia de comunidade operária auto-gerida foi bem conhecida e apoiada por muitos. O professor Celso Lamparelli é uma dessas pessoas: seu conhecimento da Unilabor decorre do contato que estabeleceu com o padre Lebret, quando trabalhou no escritório de planejamento SAGMACS (fundado por Lebret em São Paulo em 1947). Louis-Joseph Lebret (1897-1966), também um dominicano, foi um dos criadores e impulsionadores do movimento Economia e Humanismo, ao qual Frei João Batista se ligou (tendo nele estagiado em 1948, na França, a convite de Lebret, que conhecera no Rio de Janeiro). Foi dentro de EH que frei João estudou a experiência da Comunidade de Trabalho Boimondau - levada a efeito com sucesso na cidade de Valence, sul da França, a partir da Segunda Guerra Mundial e até o final da década de 60 - nos moldes da qual a comunidade Unilabor foi criada. Um outro "campo" de apoiadores da ação de frei João, os artistas modernos como Volpi e Bruno Giorgi (autor das primeiras duas esculturas que mais tarde, em 1953, foram retiradas da Capela e vendidas por derem consideradas muito abstratas), se constituiu pela aproximação deste com dirigentes do Museu de Arte Moderna de São Paulo, à época em que era presidente Ciccilo Matarazzo; esse contato foi propiciado por frei Benevenuto de Santa Cruz, intelectual dominicano, primeiro presidente da Sagmacs em São Paulo e depois dono da livraria Duas Cidades, na Rua Bento Freitas. Foi ainda Ciccilo Matarazzo que pediu a Geraldo de Barros, em 1952, que fosse fotografar a Capela; nesse dia Geraldo conhece frei João com quem, dois anos depois, cria a empresa Unilabor. Outros personagens, mais humildes mas tão fundamentais como Geraldo e frei João para a Unilabor foram os operários que também fundaram a empresa em 1954 e que, desde o início, dotaram a fábrica do conhecimento técnico, de ofício, que uma fábrica de móveis necessitaria obrigatoriamente. O próprio Geraldo de Barros se coloca como desenhista industrial não a partir de uma formação específica mas sim em função do que entende ser a função social de um artista: atuar na concretude da vida cotidiana e contribuir para sua modificação. A idéia de uma comunidade de trabalho (de inspiração religiosa-humanista) vai, desse modo e aos poucos, encontrando seu lugar na realidade da São Paulo de meados da década de 50, em meio a um conjunto de intelectuais progressistas para os quais um empreendimento como esse não aparecia como algo estranho e nem mesmo inviável. Sonia, é sempre um prazer conversar com amigos com quem temos coisas em comum! abraço

[Mauro Claro é arquiteto e autor do artigo original desse debate]