De: Marco Romanelli
Data: Wednesday, November 02, 2005 6:35 PM
Assunto: Teatro MAM-Rio

O novo bloco seguirá os desenhos originais até onde eles existem. Esta é a notícia que saiu nos jornais.

O que poderá ser a 'qualidade da nova construção'? Será feita de concreto aparente, ainda de acordo com os jornais, e, a julgar pelos registros existentes, poderá vir a receber tinta colorida em alguns detalhes, do mesmo modo que os pórticos do MASP. O tombamento, acertadamente, parece ter-se dirigido tão somente à integridade da concepção original - que inclui o bloco do teatro. Isto significa que, o que foi construído não pode ser modificado em si, e que o bloco do teatro pode ser construído, sim, porque foi concebido simultaneamente, e, apesar do tempo decorrido, não pode ser considerado úm acréscimo ao que lá está. Do contrário, passados 10 anos da execução do primeiro bloco, em 58, o amado bloco principal não deveria ter sido costruído...

O centro do Rio precisa de uma sala com a capacidade prevista, com o estacionamento e com a acessibilidade disponíveis e com a magia decorrente justamente do fato de ser um pedaço de sonho realizado, num país de tão dura realidade.

Ou afinal, paira no ar a suspeita de que o 'magnífico edifício modernista', caso executado na íntegra, poderia ficar pior do que incompleto? Onde estiveram os partidários desta opinião durante as décadas em que a maquete do conjunto tem estado exposta no próprio museu? Por que estiveram calados até hoje? Que estória é esta de que Reidy não estaria 'tão inspirado' quando concebeu o teatro?

Que falta de respeito terá sido esconder dele tal opinião enquanto ele esteve vivo... Que fim levaram as constatações óbvias de que o teatro é um evidente contraponto ao bloco principal, porque tem os planos de fachada inclinados ao contrário, para dentro, e porque acrescenta superfícies curvas à planaridade do restante?

Como não perceber que a caixa de palco é o elemento vertical do conjunto e que terá como pano de fundo a fachada cega do bloco de exposições, em composição similiar à que ocorre na outra fachada cega, onde três cilindros também se superpõem ao plano de concreto, mas em relação oposta, porque mais baixos do que ele?

Por que censurar o diálogo que se estabelecerá entre a parede curva do teatro e o plano inclinado dos pórticos, no lado do mar; e entre a fachada inclinada para dentro do teatro e o plano inclinado para fora dos pórticos, no lado da cidade?

Será assim tão difícil notar que o bloco principal foi concebido como apoiado visualmente em suas duas extremidades, uma no bloco escola, já executado, e a outra no teatro, este último um apoio que tem faltado e que a laje que lá esteve nunca foi suficiente para suprir?

Será tão difícil assim acordar, um instante, desta insossa realidade cotidiana e permitir-nos um relance de sonho, melhor ainda quando tão longa - e supostamente - desejado?

[Marco Romanelli, Arquiteto e Urbanista, Rio de Janeiro RJ]